A interpretação literal do regime socialista

      «A Proteção Civil encomendou umas golas anti-fumo que por acaso eram inflamáveis. Ao princípio, parecia apenas mais um daqueles “casos” que têm servido aos atuais ministros para ensinarem que, enquanto governarem, as responsabilidades são sempre de outros. Depois, porém, descobriu-se que a empresa fornecedora tinha sido criada quase de véspera, para fazer o negócio a preços inflacionados, e que os criadores da oportuna start-up eram socialistas, recomendados por um correligionário no governo. A imprensa foi atrás da pista e não ficou por aí: quando escrevo, já tinha contado quase meia centena de contratos em que, contra a lei, familiares de governantes socialistas fizeram negócios com o Estado.


      As coisas agora são assim: puxa-se por uma ponta, até pode ser uma gola, e vem logo o resto, que é a história de como um partido se reduziu a umas quantas famílias e essas famílias monopolizam o governo, o Estado e os negócios com o Estado. Mas como podia ser de outra maneira? O Partido Socialista está há praticamente um quarto de século no poder, tirando férias apenas nos momentos em que, como em 2002 ou em 2011, deixa de haver dinheiro para arranjar empregos e fazer negócios. Há muito tempo que mais ninguém pode rivalizar com sua influência ou substituir as suas redes. O Estado é cada vez mais o PS.


     Mais: o domínio socialista é contemporâneo do período de mais fraco crescimento da economia portuguesa desde a Segunda Guerra Mundial. Em Portugal, nestes 25 anos de socialismo, só o Estado realmente se expandiu, aumentando despesas e receitas e o seu controle da economia e da sociedade. Como seria inevitável, o poder tornou-se o maior negócio em Portugal, e a política a maneira mais certa de enriquecer. Sim, ainda há quem ande a gerir alojamentos locais ou a guiar tuk-tuk. Mas quem pode, faz como o genro de Jerónimo de Sousa, o vereador Robles do BE e, em maior escala, as famílias do governo socialista: instala-se no Estado e aproveita os seus contratos e as suas oportunidades de negócio. É aí que estão o “empreendedorismo” e o “elevador social”, de que agora toda a gente anda à procura. Não, isto não são “casos”. É um sistema, que talvez devêssemos aproximar daquilo a que os sociólogos políticos costumam chamar “neo-patrimonialismo”, isto é, um regime em que o Estado é informalmente usado pelos governantes para extraírem e distribuírem vantagens e rendas. A “mexicanização” não tem a ver apenas com estar sempre no governo, mas com esta apropriação do Estado para efeitos de nepotismo e favoritismo.


      O que entretanto mais fixou as atenções nesta história foi, como não podia deixar de ser, o aspeto jurídico. Acontece que, num pormenor irónico, a mesma situação política que agora está a consolidar a captura do Estado começou, em 1995, por confirmar uma lei de incompatibilidades e impedimentos que prevê a demissão de governantes cujos familiares tenham negócios com entidades públicas. Como se sabe, é costume em Portugal abusar do princípio de que se a lei não proíbe, então é permitido, independentemente de quaisquer questões éticas. Mas agora parece que mesmo quando a lei proíbe, continua a ser permitido, independentemente da própria lei. Foi o que pacientemente explicou um dos ministros, notando que não faz sentido andar a fazer “interpretações literais da lei”. E do regime, ainda faz sentido fazer interpretações literais? “A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular…”, diz o artigo 2º da Constituição. Devemos interpretar este artigo literalmente, ou, pelo contrário, ler como se lá estivesse “A República Portuguesa é um regime patrimonialista, baseado no domínio do Estado pelo PS…”?»


Fonte: reprodução integral do artigo subscrito por Rui Ramos publicado no “Observador”.


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Comentários

  1. Anónimo3/8/19 22:40

    Agora até artigos do Rui Ramos se replicam neste blog. Estão a enveredar por caminhos perigosos. E é de lamentar.
    Fica minha opinião.
    Pedro Duarte

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    1. A transcrição de artigos de qualquer Rui, de qualquer Pedro, de qualquer António, de qualquer Maria... ocorre porque nesse momento e perante alguma realidade concreta, essa pessoa, independentendemente de como se chama, produziu uma opinião ou parte de uma opinião ou um ponto de vista ou uma simples ideia que se mostra pertinente para determinado assunto. No final do artigo indica-se sempre a fonte e coloca-se lá tal indicação porque assim deve ser, porque se trata de opinião/ideia alheia e não própria, nada mais significando e ainda que nunca antes se tenha citado tal pessoa e nunca mais se venha a citar. Como aqui se vem dizendo desde sempre este é um local de ideias e não de pessoas e, por isso, se citam livremente ideias sejam elas produzidas por quem quer que seja. Não nos importam as pessoas nem os rótulos que possam ter, interessam-nos, sim, as ideias, sejam habituais, raras ou mesmo únicas.

      Assim, a transcrição de um artigo qualquer publicado em qualquer meio de comunicação social, desde que contenha um ponto de vista interessante e ainda que dele possamos discordar, inteira ou parcialmente, por ser interessante, e tão-só por isso, pode ser aqui reproduzido e isso não significa enveredar por nenhum caminho, significa apenas que se continua no mesmo caminho de sempre: livre, descomplexado, sem rótulos prévios, sem clubites, sem pessoas banidas, sem começar a ler os textos pelo nome do seu autor, etc., apenas continuando no mesmo caminho de sempre: transmitindo algo e algo que seja novo e diferente daquilo a que se acede ou se consome nos grandes meios de comunicação de massas.

      No seu comentário não há uma palavra que seja ao conteúdo do artigo ou à polémica do momento mas apenas à pessoa que o escreveu e isso é muito pobre e muito empobrecedor. Se esse artigo tivesse sido escrito pelo José Silva ou pela Maria Andrade, não teceria comentários lamentando os caminhos perigosos.

      Repete-se mais uma vez: o nome das pessoas não nos interessa para nada mas sim a ideia no seu estado momentâneo sem qualquer colagem. Lemos os artigos começando pelo princípio e não pelo nome do autor, aliás, essa é a nossa última preocupação e por isso o colocamos no fim do artigo citado e assim procedemos indicando o autor, o órgão de comunicação e a ligação ao artigo porque essa é a fonte a identificar e é um aspeto obrigatório que deve sempre constar, quer se cite parte ou o todo de qualquer coisa e é esse o caminho percorrido desde sempre.

      Esperamos ter explicado e deixado clara a posição da página que é sempre a mesma e assim tem sido assim explicada desde sempre; isto é: não há nada de novo e, muito menos, um novo caminho.

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  2. Anónimo3/8/19 22:50

    Afinal António José Seguro tinha razão!
    23 de setembro de 2014 - último debate antes das primarias transmitido pela RTP:
    "o caldo ficou definitivamente entornado quando o moderador do debate, o jornalista João Adelino Faria, pediu a Seguro para dar exemplos do "PS ligado aos interesses e negócios que apoia António Costa". Seguro fez-lhe a vontade. "Nuno Godinho de Matos, fundador do PS e apoiante de Costa, foi até há pouco tempo administrador do BES" e "foi advogado da Ferrostaal", empresa que fez parte da venda dos submarinos a Portugal. "Estamos a falar de um exemplo dos apoiantes de António Costa", disse Seguro"


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