Funcionários que contactam com crianças também precisam de formação

      «No contexto de uma justiça amiga das crianças, é imprescindível investir em formação especializada junto de todos os intervenientes nos processos judiciais. Falamos, habitualmente, dos magistrados judiciais, advogados, psicólogos, dos assistentes sociais, dos médicos e demais técnicos que interagem, de alguma forma, com as crianças e adolescentes. Seja no âmbito de processos-crime, processos de promoção e proteção, processos tutelares educativos, processos de adoção ou processos de regulação do exercício das responsabilidades parentais mas esquecemo-nos sistematicamente dos funcionários administrativos e dos Oficiais de Justiça que, ao trabalharem nestes contextos, contactam diariamente com as crianças e, tantas vezes, ainda antes de qualquer outro técnico.


      A "Maria" tem seis anos de idade e, ao ir fazer uma perícia médico-legal, ouviu da parte da funcionária: "és muito bonita, és muito parecida com a tua mãe!"


      "Não sei quem é a minha mãe", respondeu. Ia acompanhada pela técnica da instituição de acolhimento residencial.


      O "João" tem oito anos de idade e, num tribunal, enquanto era conduzido pelo Oficial de Justiça à sala de audiências, ouviu: "não fiques nervoso, vai tudo correr bem... Estás a coxear, caíste a jogar à bola?"


      "Não... Foi o meu pai... Bateu-me com o cinto".


      A "Inês" tem 10 anos de idade e, na sala de espera de uma CPCJ ouviu este comentário: "Vieste só com a tua mãe? Então e onde é que está o teu pai?"


      "Está na prisão, por causa do que ele me fez".


      Estes são apenas alguns exemplos, dos muitos que aqui poderia enumerar. Exemplos de situações em que os diversos operadores dos mais variados serviços, na ausência de formação específica, agem de acordo com os princípios gerais da convivência em comunidade, tecendo comentários generalistas e aparentemente banais que, nestas crianças em particular, de banais nada têm. Acabam, assim, por dar origem a situações de grande constrangimento, ativando nas crianças emoções negativas e um aumento de stresse.


      Estamos, por um lado, focados em minimizar o eventual impacto negativo destas diligências nas crianças, prevenindo um processo de revitimização secundária. E, por isso, preocupamo-nos (e ainda bem) com as condições ambientais em que a criança é ouvida, com a estrutura da entrevista e com a sua adequação à idade e nível de desenvolvimento da criança. Ao mesmo tempo, permitimos que estas mesmas crianças contactem com funcionários que, por não terem a formação necessária, não estão suficientemente conscientes do potencial impacto negativo que os seus comentários e comportamentos poderão assumir.


      É urgente repensar esta situação e formar todos, mas mesmo todos, os intervenientes destes processos que, de alguma forma, contactam com crianças e adolescentes.»


CriançaSentadaNoCaminho.jpg


      Fonte: “Diário de Notícias”, artigo de opinião de Rute Agulhas.

Comentários

  1. Sempre a queixarem-se que são poucos, que não metem pessoal, que se fartam de trabalhar, que vivem assoberbados de trabalho, etc, etc ...
    mas a verdade é que, se há coisa que não falta, é tempo para montar as decorações e as árvores de Natal nas secretarias ...


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    1. Vai dar banho ao cão....

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    2. e também não falta tempo para escrever comentários

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    3. Pois não. Mas aquele primeiro comentário foi feito fora do período laboral, em pleno intervalo para almoço. Ao invés, estes dois últimos foram feitos durante o horário de trabalho e se calhar usando os recursos do serviço. Não tenho nada a ver com isso, mas não me admirava nada que já tivessem sido extraídos prints para eventual instauração de processo disciplinar. Um conselho, se me permite: apague que ainda pode ir a tempo ..

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    4. Pois não. Mas aquele primeiro comentário foi feito fora do período laboral, em pleno intervalo para almoço. Ao invés, estes dois últimos foram feitos durante o horário de trabalho e se calhar usando os recursos do serviço. Não tenho nada a ver com isso, mas não me admirava nada que já tivessem sido extraídos prints para eventual instauração de processo disciplinar. Um conselho, se me permite: apague que ainda pode ir a tempo ...

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    5. Os instalados do sistema são um perigo para a democracia.

      Nem a polícia politica do estado novo de atrevia a tanto!

      Uma disponibilidade permanente, 24 horas por dia, exclui os direitos de cidadania, e era isso que o autor do comentário, se não estivesse bem instalado e mandatado, deveria refletir.

      Não sei a quem se refereria, se a um Oficial de Justiça no ativo, a um aposentado, a um qualquer cidadão anónimo?

      Mas o que fica bem claro é a sua disponibilidade permanente persecutória, de atingir uma classe profissional sem direito a um limite diário da jornada de trabalho.

      Controladores, informadores represtinados do Estado Novo?!..

      Não obrigado!...


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    6. Mais um saudosista do lápis azul, digo "cor de rosa"!...

      A Senhora Ministra da Justiça, vezes sem conta, tem afirmado solenemente, no Parlamento que as reivindicações dos Oficiais de Justiça são legitimas, mas este iluminado, ou melhor, alucinado instalado, permite-se a monitorizar os minutos e segundos em que os comentários são produzidos, sem aferir quem são os seus autores e a sua situação. Se são funcionarios, se estão de férias, de baixa médica, se são aposentados ou se são outro cidadãos sem qualquer vínculo público.

      Tudo o que "mexe" instauram-se processos disciplinares!

      Um alucinado mandatado?!..


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  2. Muito bem pensado!

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    1. Eduardo Lourenço não faria melhor. :(

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  3. TP dia 24. Mais uma grande vitória!

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  4. Onde estão o representantes dos Oficiais de Justiça?

    Este silêncio ensurdecedor começa a ser preocupante!...

    Qual a estratégia, o que pensam, digam qualquer coisinha!

    "Fazer mais fazer melhor" foi um slogan do PS para as legislativas em 2019, que a lista vencedora do SFJ perfilhou!...

    Mas fazer mais fazer melhor, exige muito mais, e os resultados objetivos tardam em aparecer!...

    O Orçamento de Estado de 2020 ainda está em vigor e ainda existem normas por cumprir.

    Não se compreende nem é aceitável este silêncio.

    Fazer mais fazer melhor, é no mínimo exigir o cumprimento da legalidade!...

    Esta responsabilidade é extensível ao SOJ.

    O Estado de emergência, até ver, ainda não limitou o direito à indignação e de reivindicação!...









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