A comparação: mais um relato de um Oficial de Justiça

      Hoje reproduzimos mais um relato, ou desabafo, ou reflexão, de um Oficial de Justiça que nos escreveu e que diz assim:


      «Sou Oficial de Justiça há cerca de 30 anos, para mais, sendo que sou Escrivão Adjunto há 21 anos. Estou, portanto, no 4º escalão desta categoria.


      Há tempos, em amena cavaqueira com a Senhora da limpeza do Tribunal, fiquei chocado ao saber que a Senhora recebia, semanalmente e por 3 horas de trabalho diário, 150,00 €.


      A Senhora estava indignada e informou-me que era o seu último dia de trabalho e que ia trabalhar para uma fábrica pois “isto é escravatura!”


      Como digo, na altura e a quente, fiquei indignado e pensei isso mesmo, que era escravatura! No entanto, em casa, fiz contas àquilo que a Senhora tinha dito e cheguei à triste conclusão que segue:


      A Senhora trabalhava 3 horas por dia, numa semana, no Tribunal. Trabalhava outras 3 horas, noutra parte do dia e noutra empresa, o que perfazia o total por semana de 300 €. A multiplicar por 4 semanas de trabalho, aquela Senhora recebia 1200 € mensais. Isto por um trabalho respeitável, muito digno e necessário, mas sem qualquer pressão, seja física, seja psicológica.


      Não sei quanto a Senhora receberia líquido, mas que fossem 1000 €. Eu, enquanto Oficial de Justiça, sujeito a toda a pressão psicológica e até física a que estou sujeito, recebo líquidos 1200 €.


      Não invejo, obviamente, o que a Senhora recebe, que acho até pouco, mas não posso deixar de me sentir, eu sim, um escravo.


      Trabalho, desde sempre, várias horas semanais pós horário. Trabalhei, enquanto Escriturário [Escrivão Auxiliar], aos fins de semana a fazer serviço externo, à minha custa, gastando tempo, gasolina, carro, dinheiro e nunca recebi 1 cêntimo que fosse por isso.


      As minhas miseráveis férias são mais que compensadas pelas horas que trabalho diariamente a mais.


      Sei perfeitamente que há muita gente, nesta profissão e noutras, em muito piores condições, mas não posso deixar de me sentir realmente um escravo, sujeito a todas as pequenas e grandes tiranias: do supremo juiz, do secretário, do escrivão, do advogado, do público…


      Anseio pela liberdade, pela reforma, sendo que, como tenho visto, depois de tanto mau trato nem sei se lá chegarei e se chegar será certamente pouco o tempo que gozarei de liberdade.»


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Comentários

  1. Triste realidade a que chegou esta profissão, sem dúvida!!!

    Exigências cada vez maiores e compensações nulas!

    FRAUDE MESMO!

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    1. Has-de-me dizer seguinte
      Quem achas que te vai dar o justo valor?
      Costa? Já se viu que não... Rio? Nem pensar... A esquerda? Sim BE e PCP se alguma vez forem governo darão tudo às classes profissionais do Estado (saúde, professores e até oficiais)... Mas quando isso acontecer sairemos da UE e cairemos nas mãos putin e companhia é com inflacoes à Brasil e Venezuela que eu quero saber onde meu amigo estará

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    2. Deixem-me adivinhar o que se propoe neste post: Vota Chega, a agremiação de condenados por racismo e xenofobia.

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  2. Os teus chefes até podem ser tiranos como referes, mas poder estar estar em amena cavaqueira com a sra serventuaria, suponho em periodo de trabalho, ja é bom sinal.

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    1. na china também é bom sinal comer um prato de arroz! se é isso que queres dizer, pá!

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    2. Nao sei se a sra. da limpeza trabalha ou nao durante o horario de secretaria. Conheço inumeros casos de assistentes operacionais com o mesmo horário que os OJ. Mas nao foi esse o motivo que me fez ser sarcástico consigo.
      É que uma coisa é a critica justíssima à falta de consideração e de reconhecimento por parte da tutela, outra é a constante vitimização perante as chefias, classificando de tiranas certas condutas que por regra assentam no brio profissional e na preocupação pelo regular funcionamento dos serviços.
      Sabemos que a tirania tb existe, mas este apoio generalizado á vitimização torna-se ridículo.

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    3. E por falar em pequeninos tiranos...salta logo um da caixa! Com todos os pequenos e típicos tiques: a tratar por tú quem não conhece de lado nenhum, a exigir brio e profissionalismo a quem é tratado abaixo de " sras. serventuárias", profissão mais dignificada e respeitada do que um mero "citote" que é isso que é considerado o nosso pequeno ditador e a considerar como vitimização a simples constatação da nossa (sua, portanto) insigificância.

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    4. Quem é esse "um que salta logo da caixa"? Seja corajoso e identifique-o. E "tu" não tem acento.

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    5. Não sei o seu nome, o senhor é anónimo...Mas é V. Excia, óbviamente!

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    6. E mais um pequenino tique: a mania que sabe tudo!

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  3. É a nossa triste realidade.
    Ainda pior está a maioria de nós, escrivães e técnicos de justiça auxiliares que, sendo oficiais de justiça há mais de vinte anos, ainda leva para casa menos do que a tal senhora da limpeza.
    Quanto ao comentário do, certamente, infiltrado supra, só tenho a dizer o seguinte: em todos os tribunais em que eu trabalhei, as senhoras da limpeza sempre trabalharam fora do nosso horário de trabalho (ou seja: antes das 9 ou depois das 5), pelo que facilmente se percebe que a conversa em questão teve lugar em horário fora do expediente, o que é de admirar, pois mesmo a baixos ordenados, ainda por cima há quem trabalhe sem qualquer remuneração! Tenha vergonha, sr. infiltrado!

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  4. Infiltrados à parte (por não merecerem sequer a minha atenção) só me apraz dizer ao colega autor do desabafo que passe a tratar a tutela e as chefias da mesma maneira que é tratado, o que significa dizer que trabalho fora de horas 'jamais'.

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  5. Perante mais este relato de um colega, igual ao de muitos outros, sequestrados na secretaria por um estatuto, que nem no Estado Novo, existia uma norma idêntica da obrigatoriedade de permanência na secretaria, o que me pasma é o silêncio incompreensível dos dois sindicatos representativos da classe.

    Estamos perante um grito desesperado de liberdade!

    Liberdade para a sua autodeterminação em períodos fora do horário normal de serviço, usufruindo do direito ao descanso, para estar com a família e com os seus amigos!..

    Direitos fundamentais inalienáveis!...

    A tudo isto acresce o trabalho extraordinário não remunerado, durante décadas, sem qualquer compensação, que reconduz uma classe profissional, aquilo que a OIT designa por escravatura moderna.

    Adiar mais uma vez, esperar por um novo governo?!...

    Façam qualquer coisinha porque existem muito colegas desesperados e que já gritam pela liberdade!...



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  6. Esperar por um próximo governo?!...

    Comunicado do SOJ de 03-03-2019

    "O Sindicato dos Oficiais de Justiça (SOJ) apresentou, dia 27 de Fevereiro, na sede da UGT, um estudo sobre a avaliação dos riscos psicossociais na carreira dos Oficiais de Justiça.

    Este Estudo reveste-se fundamental numa altura em que a Administração Pública e os trabalhadores se encontram sujeitos a pressões intensas, resultantes da tensão salarial, da redução de efectivos, da criação de quadros de instabilidade e da pulverização do trabalho.

    Com este estudo, é possível conhecer os principais stressores (desadequação do regime de aposentação, instabilidade salarial, etc.) bem como os mais relevantes efeitos organizacionais deles decorrentes (absentismo elevado, incidentes e acidentes, redução do desempenho, entre outros).

    Com uma amostra representativa de participantes, os resultados apontam para riscos elevados em áreas como:

    Exigências emocionais – Risco elevado (78%)

    Ritmo de trabalho – Risco elevado (75%)

    Exigências cognitivas – Risco elevado (75%)

    Risco de burnout – Risco elevado (54%)

    Conflito trabalho-família – Risco elevado (50%)

    Exigências quantitativas – Risco elevado (46%)

    Stress – Risco elevado (40%)

    Problemas em dormir – Risco elevado (40%)

    Sintomas depressivos – Risco elevado (34%)

    De acordo com o Professor Samuel Antunes, Managing Partner da Think People, os resultados são preocupantes e requerem uma rápida intervenção por parte do Ministério da Justiça no sentido da implementação de acções que permitam reduzir estes riscos e o seu impacto, em termos de saúde física e mental, bem como de promover um maior bem-estar e qualidade de vida no trabalho dos Oficiais de Justiça Portugueses.

    O Ministério da Justiça tem de assumir as suas responsabilidades e isso mesmo exigiremos".

    Os relatos dos colegas, como este último, são mais do que evidentes, de que a saúde física e mental dos Oficiais de Justiça não pode esperar!...


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