“Fui 20 anos Oficial de Justiça, trabalhei imenso, com uma pressão de trabalho fortíssima"

      João Corga, Oficial de Justiça, Técnico de Justiça Adjunto com uma carreira de cerca de 20 anos, abandonou a profissão e emigrou para os Estados Unidos da América, já há quatro anos.


      Desde há dois anos e meio tornou-se "advocate", uma espécie de defensor e assistente social para vítimas de violência doméstica na organização luso-americana de serviços sociais para todas as pessoas originárias de países de língua portuguesa, a “Massachusetts Alliance of Portuguese Speakers” (MAPS).


      «Eu sempre tive o interesse, como sou um imigrante recente, de ajudar as nossas comunidades que estão agora a chegar, seja do Brasil, Cabo Verde e até de Portugal», disse à agência Lusa em Boston.


      “Sempre tive esta ideia da consciência social”, acrescentou, com um desejo de ajudar que se tornou mais evidente “nestes tempos muito complicados de ser imigrante”, durante a pandemia de Covid-19, que fechou fronteiras e deitou abaixo muitas fontes de rendimento.


      Antes de sair do Ministério Público português, onde trabalhava, João Corga teve cinco anos de experiência em lidar com vítimas de abuso e violência sexual, focado na acusação aos agressores.


      Agora na MAPS, Corga faz um trabalho mais próximo de assistente social e ajuda as vítimas a fazer o contacto com a polícia e com tribunais.


      “Apesar do sistema judicial americano ser um bocadinho diferente”, os tribunais funcionam de maneira semelhante em todo o mundo, considerou.


      A privacidade e confidencialidade são uma máxima de trabalho para o ex-Oficial de Justiça português, juntando vítimas de violência doméstica às redes da polícia e tribunais na área do Estado de Massachusetts, onde a organização para a qual trabalha, a MAPS, tem seis escritórios.


      Natural do Porto, João Corga emigrou para os Estados Unidos para se casar com o “primeiro grande amor” da sua vida, uma luso-americana que conheceu em Portugal.


      “É uma história de amor”, diz João Corga. “A Jéssica foi o primeiro grande amor da minha vida e o último também”, sorri o portuense.


      Os dois tiveram um relacionamento à distância durante vários anos, com visitas um do outro a Portugal e aos EUA, até ao casamento, em 2017, quando João decidiu mudar-se para o outro lado do Atlântico.


      “Eu falo em português, ela responde em inglês, o que é muito engraçado”, conta.


      O visto necessário para residir nos Estados Unidos como cônjuge de uma cidadã norte-americana demorou cerca de um ano a chegar e por esse motivo, João Corga não podia ter um emprego, o que “foi bom” nessa fase da sua vida.


      “Eu fui 20 anos Oficial de Justiça, trabalhei imenso, com uma pressão de trabalho fortíssima. Então fez-me bem descansar um ano", explicou.


      João Corga também dá aulas de ténis aos clientes da MAPS, que é como que uma agência de serviços sociais e proteção para qualquer pessoa em necessidade, numa ampla rede de outras agências e instituições de saúde, direito, proteção legal, ou de abrigo dos Estados Unidos.


      A atividade desportiva que João Corga promove na cidade de Lowell destina-se a “trabalhar um bocadinho com o “self-care”, tentar passar formas de cuidarem de si, da importância que é o exercício físico e ao mesmo tempo desviar um pouco a cabeça para coisas mais positivas”, sublinha o “advocate”.


      Uma organização de 51 anos, a MAPS faz um trabalho importante nas comunidades de língua portuguesa nos Estados Unidos, com programas de prevenção, testagem e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis, saúde mental, apoio à imigração nos EUA, apoios à terceira idade, ou de acompanhamento e proteção de sobreviventes de violência doméstica ou abuso sexual.


      Os emigrantes que são vítimas de violência doméstica têm mais medo de denunciar e vergonha de falar, considerou João Corga, que trabalha com pessoas indocumentadas nos Estados Unidos.


      “Para além do problema da violência doméstica, que é um problema gravíssimo, seja em que país for, há um problema acrescido porque nós lidamos acima de tudo com imigrantes recém-chegados indocumentados”, disse Corga.


      “A grande maioria das nossas clientes e dos nossos clientes são indocumentados, portanto têm um medo terrível à polícia, um medo terrível ao ICE” (Immigration and Customs Enforcement – autoridade de Imigração e Alfândegas nos EUA), explicou João Corga.


      Na qualidade de imigrantes recentes nos EUA, as pessoas “têm poucos amigos, têm vergonha até de falar [sobre violência doméstica] com os poucos amigos que têm, (...) não sabem a língua, não sabem como é que o sistema funciona, não sabem ao que têm direito ou ao que não têm direito”, acrescentou ainda o português.


      João Corga disse que cabe à organização MAPS “trabalhar” com as vítimas, “sossegá-las” e oferecer várias formas de apoio e proteção, desde abrigo, ajuda médica, contactos com a polícia ou reencaminhamento para serviços legais que as protejam contra os agressores.


      Apesar de a Aliança de Falantes de Português em Massachusetts ter vários “canais de publicidade” dos serviços e formas para chegar às vítimas de violência doméstica ou abuso sexual – como ações de conscientização nas comunidades, internet e pelo “word of mouth” [passa-palavra] dos emigrantes –, o apoio só pode ser prestado quando o pedido e o primeiro passo parte da pessoa afetada.


      A confidencialidade, uma máxima do trabalho social que é levada “extremamente a sério” na MAPS, continua a ser protegida quando as vítimas decidem levar os casos à polícia e tribunais, pelo intermédio de “Victim Witness Advocates” (Defensores de Vítimas e Testemunhas).


      Apesar de a MAPS não ter advogados, a organização oferece assistência e apoio linguístico e logístico para as vítimas poderem recorrer a outras agências nos Estados Unidos, como a Northeast Legal Aid, que oferece serviços jurídicos gratuitos.


      João Corga adiantou ainda que a nível de imigração, os indocumentados recebem apoio para pedir às autoridades americanas o visto U, para vítimas de atividades criminosas, com a “possibilidade de ganharem estatuto legal no país através do crime de que foram vítimas”.


      No final de 2020, o diretor executivo da MAPS, Paulo Pinto, disse à Lusa que a comunidade lusófona de Massachusetts registou um aumento de quase 60% nos casos de violência doméstica no espaço de um ano, relacionado com a pandemia de Covid-19.


      “Tivemos uma subida bastante marcante no nosso programa de violência doméstica e abuso sexual. Durante o mês de abril [de 2020] registámos um aumento de 58% do número de casos, em comparação com o mês de abril de 2019”, afirmou Paulo Pinto.


      Segundo um relatório de dezembro enviado pelo diretor da MAPS à agência Lusa, a organização de serviços sociais apoiou 556 vítimas de violência doméstica ou abuso sexual no ano fiscal de 2020, um aumento em relação ao período anterior, quando foram ajudados 435 sobreviventes.


      Das mais de 500 pessoas que sofreram de violência doméstica ou abuso sexual e foram encaminhados para os serviços da MAPS, 360 pessoas eram brasileiras, 90 cabo-verdianas, 40 portuguesas e 66 pessoas de outras nacionalidades.


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      Fonte: “Jornal de Negócios”.

Comentários

  1. Casos de sucesso.
    Muito bom.

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  2. A super-ministra agora investida de super-poderes ainda tem muito tempo para honrar os compromissis assumidos com os Oficiais de Justiça.

    Integração do suplemento no venvimento,

    Regime diferenciado da aposentação, nem que seja a idade legal da reforma igual ao das duas Magistraturas 65 anos,

    E já agora, para que os concursos para admissão de novos Oficiais de Justiça não fiquem desertos, a integração do suplemento no vencimento também aos oficiais de Justiça provisórios.

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  3. Muito bom!!! Grata João Corga pelo seu testemunho! Força!!!!!

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  4. A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar.

    Martin Luther King Jr

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  5. Fico muito feliz em ver um colega que aqui em Portugal, certamente, não lhe valorizavam o trabalho e resolveu emigrar para os EUA. Perdeu se se calhar um bom profissional para um outro país. Felicidades para o João Corga.

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  6. Felicidades é o que posso desejar a quem teve a coragem de dar o salto.
    Também eu já estive mais longe. Falta pouco.
    Esta profissão acabou!!
    Só não vê quem não quer.

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  7. Trabalhei durante alguns anos no mesmo tribunal onde trabalhava o João e posso dizer que foi mesmo uma perda que pesou muito a quem com ele trabalhava, já que ele sempre foi muito competente, trabalhador e excelente colega, além de extremamente amável. Fico feliz que ele esteja bem!
    Ainda bem que emigrou, pois certamente não merecia trabalhar nas condições em que atualmente trabalhamos. Ninguém merece!
    Muitas felicidades, João!

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