“Parvo. O meu melhor!”

      Hoje vamos reproduzir um relato de uma experiência pessoal de vida profissional de um Funcionário Público que bem poderia (ou poderá) ser um Oficial de Justiça.


      Este relato foi publicado no jornal “Observador” e é subscrito pelo nome de Benedito Antunes.


      Diz assim:     


      «Estou cansado. Tão cansado! Farto talvez seja o termo.


      A princípio (há tantos anos!), eu ainda acreditava, tinha uma espécie de crença optimisticamente inabalável. Mas agora já não.


      Acreditava que as coisas iriam melhorar. Só podiam. Como não podiam?


      E a observação diária das disfunções provocava em mim pensamentos automáticos de como as melhorar, resolver. “Se fosse assim”, “mudava-se isto”, “devia ser daquele modo”.


      Só que fazer essa mudança nunca dependia de mim. Mas dependia de mim fazer aquilo que eu fazia. E então fazia o meu melhor.


      Parvo. O meu melhor!


      Sentia que eu fazia algo de diferente, de melhor, acima da média e da mediania. E que isso fazia a diferença e que faria a diferença. E acreditava que cada pequeno problema que o meu fazer melhor solucionava, ultrapassando e derrubando cada disfuncionalidade, alheia e do todo, valia a pena e mudava qualquer coisa, a caminho da tal melhoria que havia de vir.


      E encontrava motivação em cada pessoa que ficava mais feliz, satisfeita, melhorada graças ao meu melhor.


      Mas agora já não. São já muitos anos de ver que nada muda, tudo permanece na mesma. Ou então pior.


      Perdi a crença. A crença no melhor que ainda está para vir. Não há nenhum melhor para vir. É o que é. E o que é isto.


      Para os menos capazes ou incapazes, que fazem pouco, mal, e tarde, não há consequências nem represálias. Somente menos lhes é dado para fazer. Cada vez menos.


      Os mais capazes, que fazem mais, bem feito e a tempo, esses têm sempre a recompensa: mais ainda para fazerem. Sempre mais. Com uma pancadinha nas costas. “Good boy”!


      Nenhuma boa ação permanece sem castigo. É mesmo verdade.


      Eu sempre recusei, neguei com todas as minhas forças essa verdade e esse caminho. Não seria essa a minha realidade. Continuaria a fazer a minha diferença, pequenina, isolada, mas o meu melhor, e tudo aquilo que posso.


      Acreditava que essa minha diferença viesse a ser inspiração, que constituísse exemplo e motivação para outros como eu, e que todos juntos, sendo cada vez em maior número, finalmente operássemos a mudança necessária para que o todo se alterasse.


      Eu era novo e não sabia. Que o todo nunca se altera. Que o seu peso é excessivo. E que não há qualquer mecanismo de retorno virtuoso. E que o todo mastiga e tritura o mérito e promove a mediocridade.


      Eu realmente via-os, os mais velhos que eram capazes. De olhos baços e sem energia. Eram eles os que mais me espantavam.


      Não me surpreendiam os incapazes, aqueles que já eram incapazes quando novos, tinham evoluído incapazes e estavam agora no topo com a mesma incapacidade de sempre.


      Eram os outros. Aqueles em que eu reconhecia a capacidade de fazer melhor, em que eu via o saber, e em que havia registos amplos e reconhecidos da sua capacidade e dos seus feitos prévios. Mas que agora já não tinham energia, vitalidade, vontade. O que faziam era ainda relativamente bem feito, mas pareciam procurar não ver o que havia a fazer, e apenas fazer o mínimo. Não tinham brilho nos olhos. Parecia que tinham desistido. Eram capazes, mas não faziam a diferença. Faziam o mínimo.


      E agora sou eu. São já muitos anos disto.


      Muitos anos de ver os melhores serem sempre quebrados, pouco a pouco, com o peso das disfuncionalidades, com os obstáculos lançados no seu caminho, com todo o seu esforço ser emperrado, com a recompensa zero e o castigo constante de mais trabalho ainda.


      E quebrados ainda mais por verem os incapazes caminhando calmamente ao seu lado, os que mais se queixam e menos fazem. E cada vez menos fazem. E mais se queixam. Sem qualquer consequência, e com uma recompensa idêntica. Ou recebendo mais ainda.


      Aos incapazes ninguém pede mais nada. Nem mais uma hora, nem mais um dia, nem mais um processo. São incapazes.


      E os melhores foram quebrando um a um, ao longo dos anos, sob os meus olhos. A maioria partiu, foi-se embora para onde a sua capacidade fosse reconhecida e recompensada e o seu melhor pudesse dar frutos e ser impulsionado em vez de ser abafado. Os outros, os capazes que ficaram, foram desistindo.


      Em terra de cegos, quem tem olho… é cegado pelos outros.


      Eu achei que comigo não seria assim. Nem partiria (este sentido de missão será a minha ruína), nem desistiria. A minha motivação seria o trabalho bem feito e as pequenas diferenças que obteria a cada dia. Parvo.


      Agora estou cansado e farto. Velho. Também os meus olhos perderam o brilho.


      E vejo os novos chegarem, os incapazes e os capazes, e o ciclo interminável recomeçar. Ninguém vê. E os que veem, fingem que não veem e não querem saber. Nunca quiseram saber.»


CaraPalmadaTesta.jpg


      Fonte: “Observador”.

Comentários

  1. Anónimo2/2/22 09:00

    Parabéns a quem escreveu este texto.
    Revi-me em cada palavra.
    Triste sina esta de pôr o que somos e sabemos ao serviço de um sistema que nos vai sugando a cada dia a força e a alegria.

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  2. É um retrato absolutamente fiel...

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  3. Anónimo2/2/22 09:21

    Bem triste. E bem real !!

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  4. Anónimo2/2/22 09:25

    Nem de propósito.
    Era para ter aqui colado este texto, ontem.
    Estado é um ser grotesco, insensível.
    Quer, exige, sem se preocupar com motivação de nenhum género.
    Ignoram tendências e boas práticas em uso e com resultados comprovados no privado e pensam exatamente como há cinquenta anos.
    Não atualiza quadros competentes, que percebam a necessidade de mudança, mais crendo nos paradigmas mofentos, pesados e ineficazes de outrora. "Não se pode investir, não há dinheiro". Não era bem assim! A direita neste país é avessa ao funcionalismo público. Em sete anos que governou nestas últimas décadas, foi quem mais prejudicou esta classe. Havia outras formas de fazer as coisas, ao invés de massacrar os seus funcionários. Bastava não permitir a saída de biliões para off shores. Bastava não ter ido para além da troika.
    Eis o resultado!! Gente desmotivada, farta, enojada, mesmo, por ter de ter pago os desmandos de todos com o seu próprio salário, com as suas esperanças hipotecadas de uma vida mais decente, sem andar sempre a olhar para a maldita da conta! Por ter de dizer aos filhos que não se pode ir de férias ou que não podem pensar em concorrer para a Universidade fora de casa e tristezas do género. Foi tudo uma questão ideológica e agora, todos o sabemos!! E o PSD, se não percebeu ainda porque não volta ao poder, é porque está a dormir. As pessoas não esqueceram. Simples.
    Cada funcionário público merecia uma medalha pela forma abnegada como aceitou a missão de levantar de novo o país!!
    E a medalha aí vem...UE já avisou que restrições orçamentais são para recomeçar de imediato !!
    Adivinhem lá por onde vão começar...

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    1. Anónimo2/2/22 11:45

      A culpa é do Passos. A direita que governou "7 anos nas últimas décadas" é a culpada. Realmente quando se pretende agradar ao dono não há limites... Daqui a dias estaremos a aplaudir a nova/o ministra/o. Os discursos são os de sempre, a pessoa mais bem preparada, pessoa que conhece bem a carreira, uma escolha acertada. Assim será durante 3 anos a lamber botas, depois no final do terceiro ano, alguma contestação, para no último ano estarmos livre para seguir para os braços do próximo. Esta é a nossa tragédia.

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  5. Anónimo2/2/22 09:29

    Perfeito! e o resultado é tal dinheirinho (reconhecimento), tal trabalhinho. Governantes por mim têm o que merecem

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  6. Anónimo2/2/22 09:47

    Completamente verdade.
    No privado a incompetência e a irresponsabilidade são "pagas" com o despedimento, justo.
    Se no público o salário dos incapazes - incompetentes/irresponsáveis - saísse do bolso dos superiores todos os meses, não fingiriam não ver/saber!

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    1. Anónimo2/2/22 11:04

      Mainada !!
      Olha...estudasses !!...

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  7. Anónimo2/2/22 11:05

    Subscrevo na íntegra!

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  8. Anónimo2/2/22 13:23

    Um passarinho contou-me agora à hora de almoço que vão haver promoções no movimento de Junho!

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  9. Anónimo2/2/22 15:48

    Ainda que possa haver razão, continuar a choradeira do costume não adianta. Só greves também não. Mudem-se os sindicatos!

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    1. Anónimo2/2/22 17:17

      Agora é que disse tudo.
      Nao percebo onde se quer chegar com estes relatos de vítimas choronas que nao saem da zona de conforto.
      A realidade é triste, mas transversal e mais que conhecida.
      Nao adianta chover no molhado.
      A atitude deve ser outra mas quando chega a hora H os outros que se atravessem na luta.

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  10. donzilia santos2/2/22 19:54

    Só lamentações!Também lamento aqueles que, esquecendo o juramento que fizeram de desempenhar com lealdade o cargo que lhes foi confiado, quando as coisas não lhe correm de feição logo afirmam que não se vão empenhar no seu trabalho.
    São fracos, não aguentam adversidades e tal como no trabalho, assim serão na sua vida em geral!
    Dos fracos não reza a história.
    Sofri alguns cortes no vencimento, o primeiro no tempo de Manuela Ferreira Leite ( nāo havia Troika) e o meu desempenho com brio e gosto pelo trabalho não se alterou.
    Esta maioria absoluta do PS ( que está de parabéns), é a prova de que o eleitorado português não é tão alheado como às vezes o querem fazer.
    Quando sente que o voto é decisivo, vai votar, não indo em sondagens, em empates técnicos, em comentários influenciadores na comunicaçāo social, diminuindo a abstenção, desempatando o que havia para desempatar.
    Acredito assim que agora, no seguimento da promessa de melhorar os rendimentos da classe média, rendimentos das profissões mais especializadas, pessoas que estudaram, investiram na formaçāo, será a vez dos O.Justiça verem revertida a situação em que se encontram.
    Entretanto, foco no trabalho se gostarem de trabalhar, pois as pessoas que recorrem aos Tribunais precisam
    disso.Caso nāo gostem, há outras profissões à espera em que talvez se trabalhe menos!

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    1. Anónimo2/2/22 20:35

      O forte!!

      Deves estar bem calçado.
      Senão não cantavas de galo dessa maneira.
      Se não te sentes enganado, é mesmo porque não sabes fazer mais nada na vida e acomodaste-te.
      Tu não és forte. Estás bem enganado.
      És mas é um acomodado!!!

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    2. Anónimo2/2/22 22:15

      O problema é que para os nossos governantes a nossa profissão não é considerada "especializada". Daí o grau 2. Como tal, não passaremos de vulgares administrativos. Portanto, os salários dessas profissões "mais especializadas" vão ser aumentados (e muito bem!) e os nossos vão manter-se exactamente como estão pois já ganhamos acima dos assistentes técnicos.

      Para finalizar, não esperem qualquer acréscimo ou melhoria da nossa tabela salarial.

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  11. Anónimo3/2/22 00:52

    O que é estranho é ainda haver algum sindicato, entidade, forum, grupo, representativo da classe, que ainda tenha paciencia para vos/nos aturar.
    Parecem um grupo de velhinhos marretas!
    Ja sem falar da falta de educacao de alguns intervenientes, a falta de camaradagem e união ditará o futuro e destino da classe.

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  12. Anónimo3/2/22 11:03

    PARABÉNS ao autor deste texto.
    Revi-me em cada palavra.
    É triste colocar-se o que somos e o que sabemos ao serviço de um sistema que nos suga a cada dia a força.

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