Crhonus: entre a objeção de consciência e a ilegalidade

      Na semana passada, recebemos um e-mail de um Oficial de Justiça que apresentou uma objeção de consciência à utilização da plataforma de controlo diário das presenças dos Oficiais de Justiça (Crhonus), negando-se à sua utilização por a considerar ilegal.


      O e-mail era dirigido aos três elementos do Conselho de Gestão da sua Comarca e ao respetivo Secretário de Justiça, com conhecimento à DGAJ, aos dois sindicatos SFJ e SOJ e também a esta página informativa diária.


      Muito apreciamos a postura e as razões defendidas por este Oficial de Justiça que, por serem razões defensáveis e comuns a todos os Oficiais de Justiça, vamos a seguir reproduzir integralmente o conteúdo desse e-mail.


      Foi endereçado da seguinte forma:


      «Juiz Presidente, Magistrado do Ministério Público Coordenador, Administrador Judiciário e Secretário de Justiça;


      Com conhecimento: Direção-Geral da Administração da Justiça (Geral e RH) (correio.geral@dgaj.mj.pt; darh@dgaj.mj.pt); Sindicato dos Funcionários Judiciais (sfj@sfj.pt);  Sindicato dos Oficiais de Justiça (soj.sindicato@gmail.com) e Diário Digital dos Oficiais de Justiça (oj@sapo.pt);


      Com partilha (em Bcc) com alguns colegas de trabalho.»


      E diz assim o e-mail:


      «Informo que não procederei ao registo diário da minha assiduidade no “Portal do Colaborador”, sito em: portaldocolaborador.dgaj.justica.gov.pt, porquanto tal portal não corresponde com a atividade que desenvolvo como trabalhador neste Tribunal Judicial, não correspondendo esse trabalho a nenhuma colaboração.


      Aliás, considero que ser apelidado de “colaborador” é algo injurioso e que muito ofende o trabalho que exerço como real trabalhador.


      Não colaboro, nem exerço nenhum tipo de colaboracionismo ou mera colaboração; trabalho apenas e é nessa qualidade que devo ser considerado: como alguém que não colabora, mas trabalha, que não exerce funções colaborativas, mas funções de trabalho a troco de dinheiro, porque é apenas pelo dinheiro que aqui trabalho.


      É verdade que exerço, na minha vida privada, funções de colaborador, funções que desempenho sem ser a troco de dinheiro, bem pelo contrário, tais colaborações até me aportam despesa; perda de dinheiro.


      Essa colaboração que exerço na minha vida privada não carece de registo no Portal do Colaborador, embora seja de facto, nessas circunstâncias, um colaborador, pelo que não registarei essas colaborações privadas no referido portal e, como não exerço a título profissional nenhuma colaboração, tampouco vejo motivos para registo.


      Acresce que a Lei que regula o trabalho dos trabalhadores, seja o Código do Trabalho, seja a Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas, bem como outras, nunca – em lado algum –, designa os trabalhadores como colaboradores, pelo que tal designação, para além de estapafúrdia é contrária à Lei e, por conseguinte, sendo contrária, só pode ser considerada ilegal.


      Assim, para além do aspeto injurioso e redutor do exercício do meu trabalho, como trabalhador, estamos perante uma designação que contraria todo o espectro legal, ou seja, que é manifestamente ilegal.


      Nestes termos, não estando em condições de pactuar com tal ilegalidade, devo alertar-vos para esta situação e para a minha total objeção de consciência, o que faço também em obediência à previsão legal vertida no nº. 2 do artigo 177º da Lei 35/2014 de 20JUN (LGTFP).


      Por outro lado, suscitam-me ainda sérias dúvidas, sobre o controlo da assiduidade pretendida com tal portal, acedido por empresa privada (Contactus, S.A.), com acesso aos registos gerais de assiduidade dos trabalhadores. Tais registos não dizem só respeito a entradas e saídas diárias, mas a faltas e licenças, seja de índole médico, familiar, por férias, etc. Dados pessoais que são registados e acedidos por entidade a quem não consenti tal acesso (nem tenciono consentir), inexistindo qualquer informação sobre o tratamento de tais dados, como obriga a legislação de proteção de dados, pelo que, também por este motivo, igualmente me parece que este dito portal não respeita a lei, sendo, portanto, também, por mais este aspeto, ilegal.


      Caso se pretenda que comunique diariamente a minha presença no trabalho, indicando as horas de entrada e de saída, terei muito gosto em informar-vos, seja presencialmente e, ou, por exemplo, com o envio de e-mail com certificação de data e hora, ou outro método legal e digno. Até lá, procederei como vinha procedendo, registando a assiduidade no livro de ponto e comunicando com o Sr. Secretário de Justiça as ausências ao trabalho que ocorram.»


      Temos notícia de que, entretanto, apenas o Sindicato dos Oficiais de Justiça (SOJ) respondeu ao autor do e-mail, solidarizando-se com tal postura. No entanto, nenhum dos dois sindicatos tomou ainda uma posição pública sobre o assunto, designadamente, quanto ao injurioso eufemismo.


      Nota: Quem quiser copiar e enviar está à vontade.


LigacoesPessoasRede.jpg

Comentários

  1. Seria interessante apurar em que sentido a empresa do filho de um secretário conseguiu vencer o concurso que possibilitou o tal "cornos"... E já agora os valores envolvidos para fazer e operacionalizar tal site.

    ResponderEliminar
  2. Tem o meu apoio. Relativamente à designação de colaborador, aberração entusiasticamente aceite e interiorizada por muitos funcionários de empresas privadas e outras, acredito que terá sido lavra da autoria e ignorância da empresa privada que engendrou a chronice mas que infelizmente terá tido cobertura na ignorância e nacional porreirismo dos nossos dirigentes e directores, a ser simpático é o que acredito. A informação pessoal sobre as faltas que aparentemente é facultada a uma empresa privada, essa é uma verdadeira questão que deve de ser bem explicada! Já a questão acima colocada de quem 'ganhou' o 'concurso' para a feitura desta chronica aberração, isso já não me surpreende nesta nossa nova democrática ditadura! Chamem a polícia, diziam os TRABALHADORES DO COMÉRCIO!

    ResponderEliminar
  3. A palavra "colaborador" assenta no conceito capitalista selvagem e neoliberal da sociedade atual.
    Colaborador não exige férias, colaborador não exige aumentos, colaborador agradece a migalha que lhe dão. Colaborador não tem personalidade jurídica, na medida em que colabora, não trabalha.
    Esta semântica é o mundo perfeito para quem pretende explorar o próximo enriquecendo rapidamente, sugá-lo, violentá-lo diariamente a horários, ordens e pressão ridículos.
    Já não me restam dúvidas de que esta nossa geração irá experimentar de forma dolorosa toda esta política de subjugação da sociedade a ditames económicos que favorecem sempre os mesmos e no processo, destroem o clima, a natureza e a sociedade em si.
    O preço do trabalho incomoda muita gente, economistas e empresários à cabeça. E por isso temos colaboradores. E por isso estamos a passos do precipício global.
    Assistimos - e bem !! - à queda do comunismo. Mas ainda vamos a tempo de assistir à queda de forma violenta, sangrenta e dolorosa, do capitalismo. Acreditem. São ambos extremos e por isso em muito se tocam. Ambos exploram e ignoram o individuo como ser. Uns para fins coletivos duvidosos, outros para fins privados, igualmente duvidosos.
    E oito biliões de pessoas não podem simplesmente viver neste planeta com nenhuma destas políticas. Simples.

    ResponderEliminar
  4. Muito Bem.
    Porra, alguém com eles no sitio....

    ResponderEliminar
  5. De facto não se percebe o porquê do "Crhonus".

    Não haveria assuntos mais prementes a tratar nos tribunais para além da questão real que lhe está subjacente (pensa-se o absentismo).

    Será que esta aplicação informática não será mais um investimento perdido (porventura do PRR) de faz de conta apenas para fazer circular o dinheiro.

    O desenvolvimento das plataformas integradas entre os OPC e os DIAPs não seriam mais vantajosos para evitar tarefas redundantes no registo das participações!

    Tivemos o balcão mais (+) cujo impacto financeiro e correspetiva prestação de serviços ao utente da justiça muito gostaria de ver debatida.

    Por acaso, não seria melhor implementar um sistema de formação integrado, ao nível das 23 comarcas, para administrar formação à distância e em tempo real - nomeadamente sempre que há alterações legislativas.

    No privado (por exemplo no gruo Jerónimo Martins /Pingo Doce", há controlos dos tempos de trabalho mas, note-se, porque é de salientar, da mesma forma que consideram cortes quando há atrasos, quando as saídas se prolongam para além de 15 minutos acrescem ao banco de horas, com compensação seja em dias de descanso ou de remuneração.

    Nos tribunais acrescem a coisa nenhuma pois que temos o dever/obrigação de disponibilidade permanente pelo menos enquanto vigorar este estatuto caduco.

    Uma verdadeira aberração!

    ResponderEliminar
  6. Excelente texto e postura de um OFICIAL DE JUSTIÇA.
    Será que os sindicatos não poderiam ler este texto e desempenhar o seu papel?

    ResponderEliminar
  7. Ambos regimes ou políticas resumem o indivíduo a nada, apenas a um número. Sugam o ser, o individualismo, o pensar e o crer.

    ResponderEliminar
  8. Invocar a objecção de consciência para não picar o ponto numa aplicação informática ...

    Este pessoal anda todo chaminado

    ResponderEliminar
  9. Se querem controlar a assiduidade dos Funcionários Judiciais era muito simples, o sistema Citius ( aplicação de trabalho dos tribunais ) poderia ter essa função --> registar a hora de início ( acesso de menhã ) e de encerramento ( tarde ) pelo funcionário.

    ResponderEliminar
  10. Bem dito! Apoiado!

    ResponderEliminar
  11. Certo dia, numa secretária de um Núcleo deste país, os seis funcionários que dela fazem parte estiveram cerca de dez minutos, em refresh constante dessa referida página, tentando registar essa assiduidade.

    quando ao fim desses dez minutos, se conseguiu fazer o registo de entrada, tinha-se perdido uma hora de trabalho!

    só uma reflexão: agora 6000 funcionários * 10 minutos= 1000 horas (por dia)

    hoje ainda nem fui almoçar ....

    ResponderEliminar
  12. Só está a considerar uma picagem diária.
    Multipliquem pelas 4 "picagens" diárias.

    ResponderEliminar
  13. É hora de pedir contas a alguém:

    - Quanto dinheiro foi gasto ou se perspetiva venha a ser gasto nesta aplicação? Qual a relação custo/beneficio que se perspetiva?

    Se googlarmos a palavra "Chronus" aparece uma série de resultados, desde "marcas de relógios" a "câmaras de espião", mas também a alusão a um espaço dedicado à reutilização de antigos monumentos (Cronos Devorator) num Museu Arqueológico.

    Ora, esta ideia do "Chronus" para alguém que tem de ter disponibilidade permanente é mesmo assunto de arqueologia, ou pode até ser, de uma certa forma, "pidesco", é certamente intento de alguém que quer deixar a sua peugada (sempre a pisar os do costume).

    Neste país, encontramos a incompetência e o desgoverno sempre que tropeçamos num paralelo e há muitos por estes dias soltos da calçada!


    ResponderEliminar
  14. Como está inscrito na ombreira do museu arqueológico o tempo devora tudo (cronus devorater), e como assim é também estes personagens desaparecerão com o tempo e então aí, morrendo a ilusão, vai resplandecer a esperança em todo o seu esplendor.

    Pelo menos é preciso acreditar que sim.

    ResponderEliminar
  15. Parabens a este colega pela coragem e frontalidade. Fez o que quase todos pensam e gostariam de fazer. Os oficiais de justiça são pessoas cumpridoras e responsaveis. Dedicadas ao seu trabalhos, nao precisavam de mais este insulto e menorizacao. Pode haver um ou outro caso de abuso e para isso os secretários podem estar atentos. A questão esta na arrogância sempre presente neste ministerio para com os oficiais de justiça. O registo da assiduidade sempre funcionou com o livro de ponto. A aplicação de registos electrónicos para registar a assiduidade é desumanizante. É uma tendencia crescente da sociedade tudo controlar e assim nos vamos tornando cada vez mais robotizados. O salto evolutivo do ser humano é a sua aproximação aos padrões de eficiencia das maquinas e robôs. Estamos no bom caminho.

    ResponderEliminar
  16. Basta consultar o Portal Base para ficar a saber o valor do contrato

    ResponderEliminar
  17. Notícias ao minuto:

    "Estatuto dos oficiais de justiça deve "ver a luz do dia" em 2023

    O novo estatuto dos oficiais de justiça vai ser conhecido em 2023, declarou hoje a ministra da Justiça, Catarina Sarmento e Castro, reiterando que o trabalho nesta matéria está a decorrer e que os sindicatos já foram ouvidos.
    Estatuto dos oficiais de justiça deve "ver a luz do dia" em 2023

    "Estamos já a trabalhar no estatuto dos oficiais de justiça. Nós já recebemos os oficiais de justiça, o secretário de Estado [Adjunto e da Justiça, Jorge Alves Costa] tem também vindo a fazer esse trabalho e o estatuto é para ver a luz do dia ainda em 2023", disse a governante, na discussão na especialidade do Orçamento do Estado para 2023 -- em conjunto com a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos Liberdades e Garantias -, na Assembleia da República"

    Os Sindicatos já foram ouvidos e os Oficiais de Justiça não sabem nada?!..

    ResponderEliminar
  18. 2023 ... Dezembro de 2023 ...

    ResponderEliminar
  19. Pois é, basta consultar o portal Base.
    Mas as contas que peço são outras, a relação custo beneficio. Ou seja era mesmo precisa está aplicação? Não me parece. Mesmo que de futuro venha a dispensar as comunicações feitas pelos secretários de justiça.

    ResponderEliminar
  20. Impressionante!
    Afinal, são todos uma cambada de mentirosos?
    Pelos ditos e não ditos parece que é o que são!
    Então, afinal, o projeto ultimado está no ... símbolo das "caldas da rainha".
    Enganadores e ultrajantes pois prometem e não cumprem (como referia Confúcio).
    E nós, OJ, impavidos e seremos.

    Este socialismo parece ser mais um xuxalismo, um grupo de amigos que se juntou para se aproveitar de quem trabalha e não se bastando fazem pouco acenando-lhes com uma cenoura como se fôssemos burros ( um estatuto que nunca vai estar pronto).

    A ser assim vou esperar que a espuma do tempo se dilua dos dias. Acabou-se a ajuda do colega ao lado e a camaradagem, cada um por si, já que se contentam com a m...a de carreira que têm, sem promoções e uma vida de escravidão.


    ResponderEliminar
  21. Sabem tudo há muito tempo!

    Aliás, só mesmo os mais ingénuos é que ainda se iludem com uma promissora carreira de oficial de diligências administrativas de grau 3!!

    Acordem!!

    Entretanto é convocada mais uma greve só para encher chouriços ...

    ResponderEliminar
  22. O Observador:

    "Sindicatos médicos e Governo reúnem-se quarta-feira para debater processo negocial
    Roque da Cunha diz que esta é "a primeira reunião formal do processo negocial" sobre a nova grelha salarial, a revisão do acordo coletivo, a implementação de um novo regime de trabalho de urgência"

    Já esta quarta-feira!

    É que a Senhora Ministra da Justiça, só pode reunir com os Sindicatos dos Oficiais de Justiça lá para janeiro de 2023!...

    ResponderEliminar
  23. Parabéns ao colega.
    Tivessemos todos essa coragem.
    Um grande bem haja.

    ResponderEliminar
  24. Concordo, o que estão a fazer os colegas dos sindicatos?
    NADA.
    Não estão no terreno, como os OJ.
    Estão coniventes com o governo? Marcam greves que sabem que nada adiantará? Deviamos devolver os cartões e deixar de ser sindicalizados, eram mais uns euros ao fim do mês.

    ResponderEliminar
  25. O objetivo deste programa é deitar por terra o argumento de que os "colaboradores" trabalham para lá da hora, generalizadamente, como os sindicatos vêm a dizer desde há muito tempo, falando até em "trabalho escravo". É que aquelas pessoas que de facto trabalham aos fins de semana, à noite, feriados, etc, não picam o ponto, ou melhor picam para a saída e depois ficam na mesma a trabalhar, porque muitas têm "vergonha", que alguém saiba que trabalham nesses horários. Quando os sindicatos vierem outra vez com essa conversa, chapam-lhes com os dados deste programa e ficam sem argumento.

    ResponderEliminar
  26. Tal e qual. Se não tiver um processo disciplinar pode dar-se por muito feliz.

    ResponderEliminar
  27. A palavra colaborador assenta unicamente no sistema político português, socialista e de compadrio. Todos os outros "bichos papões" não são chamados ao barulho.

    ResponderEliminar
  28. Os sindicatos fazem aquilo que os seus associados lhes exigem. A culpa não é dos sindicatos, é única e exclusivamente nossa.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário