Atual MJ dá continuidade à municipalização da justiça

      Demite-se o Ministério da Justiça, isto é, o Governo e a Administração Central, dos cuidados necessários a ter com o seu edificado, designadamente, a normal manutenção dos edifícios, a limpeza periódica das suas coberturas e, bem assim, da realização de reparações diversas até de mobiliário.


      Tal demissão de funções vem-se fazendo com recurso a protocolos com os respetivos municípios onde se encontram instalados os edifícios judiciais e judiciários, independentemente de correrem processos nesses tribunais ou investigações nesses Departamentos de Investigação e Ação Penal que envolvem esses mesmos municípios e os autarcas que subscrevem os protocolos, a quem os Oficiais de Justiça Secretários de Justiça ou Administradores Judiciários terão que implorar a reparação ou a limpeza e com urgência.


      Como é sabido, os municípios são fontes permanentes de processos em investigação nas secções dos DIAP e também em julgamento nos tribunais, pelo que passarem estes mesmos serviços todo o tempo a pedirem favores e urgência, para a resolução das inúmeras carências, não constitui um bom sinal da independência dos tribunais.


      Claro que isto não significa que essa independência esteja em causa, mas coloca em causa a imagem, já nada boa, da justiça.


      Relativamente à execução destes protocolos, temos tido conhecimento de alguns casos da atuação das autarquias.


      O caso mais anedótico foi-nos relatado da seguinte forma: determinado tribunal telefonava à pessoa que representava o município no protocolo, transmitia-lhe a necessidade e no mesmo dia compareciam trabalhadores do município resolvendo o problema. Quando essa mesma pessoa, que era o contacto formalizado com o município, foi absolvida no processo-crime que contra ela pendia nesse tribunal, não mais atendeu o telefone, os e-mails são ignorados e têm que ser insistidos e, portanto, os trabalhadores do município deixaram de comparecer de imediato, ficando as manutenções pendentes durante meses, meses estes durante os quais os Oficiais de Justiça continuam a implorar pela ajuda.


      Ora, este tipo de atuação é indigno, não necessariamente por parte do município, mas por parte dos Oficiais de Justiça que diariamente, por este país fora, pedincham a ajuda de que a Administração Central se demitiu.


      É verdade que, por outro lado, também temos notícia de outros municípios em que a ajuda é muito boa e rápida, mas estes são aqueles que sentem estar em risco de encerramento ou de perda de mais competências os juízos que ali estão a funcionar, mesmo que sejam juízos de proximidade, e, por medo de perda desse serviço para os seus munícipes, são especialmente mais diligentes.


      Já aqui abordamos esta problemática noutras ocasiões e chegamos mesmo a dar notícia da disponibilidade de funcionários municipais, colocados nos juízos de proximidade em ajuda de um único Oficial de Justiça ali colocado, o que ocorreu com especial incidência logo após a abrupta reforma implementada em 2014. Os municípios, movidos pelo receio da perda, até com pessoal colaboraram para que o único Oficial de Justiça não estivesse sozinho no edifício.


      E vem tudo isto agora a propósito da notícia desta semana em que mais um protocolo foi firmado pela DGAJ com um município, ficando bem demonstrado que é este o caminho pretendido pelo Governo: o da municipalização das funções centrais do Estado, já amplamente iniciadas com as escolas, centros de saúde, apoio social, etc.


      Esta semana, a “Direção-Geral da Administração da Justiça (DGAJ) e o Município da Covilhã assinaram, no passado dia 6 de dezembro, um protocolo de colaboração na área das infraestruturas que permitirá assegurar a conservação do interior do edifício do Tribunal da Covilhã, sem alterações estruturantes ou métodos construtivos e funcionais, a limpeza periódica de coberturas e os seus órgãos de drenagem de águas pluviais, bem como a reparação do mobiliário, contribuindo dessa forma para a melhoria da qualidade das instalações e, consequentemente, das condições de funcionamento dos serviços”, lê-se na nota pública divulgada pela DGAJ.


      A informação governamental afirma que com este protocolo se obterá uma “melhoria da qualidade das instalações e, consequentemente, das condições de funcionamento dos serviços”, levando-nos a pensar que tal melhoria, qualidade e condições, não foram alcançados até aqui.


      Prossegue a informação da DGAJ assim:


      “O presidente do município, Vítor Pereira, e a diretora-geral da Administração da Justiça, Isabel Matos Namora, procederam à assinatura do protocolo numa sessão presidida pelo secretário de Estado adjunto e da Justiça, Jorge Alves Costa”.


      E conclui elencando outros intervenientes presentes:


      “Estiveram também presentes nesta assinatura o juiz presidente do Tribunal Judicial da Comarca de Castelo Branco, Miguel Castro, o procurador coordenador António Maciel, a administradora judiciária Célia Costa e o Oficial de Justiça em apoio ao gabinete de gestão da Comarca, Vítor Dias.”


ProtocoloCovilhaMunicipio20221206.jpg


      Fonte: "DGAJ".

Comentários

  1. Do conhecimento que tenho, existem casos em que estes protocolos têm "funcionado" bastante bem, mesmo nos casos em que têm natureza quase gratuita, já que são apenas a contrapartida do usufruto das antigas casas de função por parte dos municípios.
    É preciso ver que, por regra, os Municípios têm integrados vários serviços e oficinas, com canalizadores, electricistas, carpinteiros, etc, que podem ser de imediato afetos a solucionar pequenas avarias nos edifícios dos tribunais, enquanto que os secretários de justiça ou órgãos de gestão, têm que recorrer à celebração de procedimentos de aquisição, sujeitos a todo um conjunto de formalidades, já que os montantes afetos aos fundos de maneio, são manifestamente insuficientes para as necessidades.

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  2. Não era suposta a venda da maioria das casas de função?!


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  3. Este é o grande problema dos oficiais de justiça: olhar sempre para a árvore... Que importa se há casos positivos? O que está em causa, e é isso que importa, são os principios...

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  4. Era suposto que esses edifícios fossem afetos a alguma utilidade pública ou então colocados no comércio jurídico como o foram os de Penafiel e de Amarante, por exemplo.

    Em tempos esses edifícios serviram para evitar os problemas que hoje temos com os médicos e professores e já agora oficiais de justiça, no que respeita aos custos com a deslocalização da sua residência habitual.

    Claro que com os subsídio a magistrados já não fazem sentido.

    Em Felgueiras em 2014, o presidente da câmara á data propôs a remodelação do antigo edifício prisional para ali funcionar o tribunal com a permuta das chamadas "casas de função".

    O tribunal, pelo que sei, continua num edifício velho, bonito, mas disfuncional. As casas de função não sei o que é feito delas (talvez até tenham sido vendidas).

    Em Rio Maior, as casas de função foram alienadas e o dinheiro reverteu para os cofres do Estado, mas o edifício do tribunal, um referência á época de construção, está num estado degradante, parece mais um edifício de uma cooperativa ou adega abandonado.

    Nos tribunais não há intervenções programadas em função dos períodos de vida dos equipamentos. Porventura alguém é conhecedor de algum plano nesse sentido? Claro que não, porque não existe assim como não existe para o recrutamento de pessoal em função das expectativas de reforma.

    Temos responsáveis incompetentes a todos os níveis. Enquanto se instalam os balcões +, há tribunais num estado deplorável, sem as mínimas condições.

    Enquanto nós países nórdicos se discutem as condições de trabalho, como os períodos sentados, a iluminação suficiente e direcionada, a luz natural e o arejamento, etc., fornecendo equipamento ergonómico funcional, por cá continuamos a usar, imagine-se os edifícios construídos pelo Salazar, alguns pelos presidiários como foi a parte de carpintaria no edifício de Penafiel.

    Sou anti-Salazarista, mas não sou parvo ao ponto de perceber não o que foi feito de bom naquele tempo (praticamente nada, foi tudo mau) mas para se perceber o não é feito hoje e se desculpa com o passado. É uma aberração esta desculpa, nomeadamente, quando há milhões do PRR, PRODER, QREN, etc.

    Incompetentes para construir obra, mas bons a adiantar dinheiro, para se construir algo que é impossível de realizar, a pessoa (coletiva) sem capacidades de escala para a concretizar.

    Visto por este lado o dinheiro das autarquias, como a de Caminha, acha-se melhor empregue nos edifícios dos tribunais onde muitas das suas trapalhadas serão resolvidas.

    Receio, sem medo, que um destes dias aconteça o protocolo para os funcionários, culminando-se assim para se politizar a justiça.

    Isto já acontece com as finanças onde muitos dos funcionários advieram das autarquias por decorrência de protocolos para a cobrança dos impostos que revertem para as mesmas (IMI).

    Será que está "forma" nos vai servir, aos oficiais de justiça?

    Eu acho que não!



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  5. Um Justiça de mão estendida, subjugada ao poder político autárquico!...

    A ser assim, para que servem os quadros de técnicos superiores (arquitectos e engenheiros) da DGAJ e do IGFEJ que não param de aumentar?!..

    Para mandarem uns e-mails uns aos outros?!...

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  6. E no meio disto tudo, vamos tendo em cada comarca os tiranetes/maçonetes (geralmente na mesma só figura) que decidem junto com os seus correligionários, da vida de todos e de cada um.
    Soubessem muitos que as suas vidas são decididas em reuniões semisecretas e este país andava a ferro e fogo !!
    A justiça nunca funcionará enquanto esta gente estiver no poder. Nâo falo de poder democráticamente eleito.
    Falo do outro.
    Andam nisto para se servirem, servir a sua classe e os que lambém as suas botas.
    Há dúvidas?


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