A necessidade de agir sem desistir

      As concentrações de hoje à tarde em cinco cidades do país, podem trazer à ribalta da campanha eleitoral, não só a problemática dos problemas dos processos mediáticos, mas as dificuldades com que se debatem os Oficiais de Justiça.


      Quando a justiça é falada apenas pelos piores motivos e os diagnósticos se limitam a questões legislativas, é necessário avisar os cidadãos que os problemas a que hoje assistem não se devem apenas a eventuais deficiências legislativas, mas à falta de Oficiais de Justiça e à falta de boas condições de trabalho e de vida dos mesmos, que os motivem para o trabalho, em vez de toda a ação dos governos se dirigir e contribuir para a desmotivação e para o desleixo.


      A voracidade da quantidade de trabalho, o foco na satisfação dos dados estatísticos e as preocupações com os currículos pessoais das magistraturas, fazem esquecer a necessidade de se deter um bom corpo de Oficiais de Justiça para o apoio expedito e atento para os eventuais erros ou faltas processuais.


      Quando assistimos na televisão à notícia da existência de uma peça processual de recurso esquecida e de eventuais outros requerimentos, também esquecidos ou não tratados com a urgência e a diligência necessária, com consequências ridículas como ver entrar na prisão e sair logo de seguida a mesma pessoa por erros processuais, leva-nos a considerar a possibilidade dos Oficiais de Justiça que deveriam ter sob controlo o processo e conhecê-lo de fio a pavio, estarem a passar por graves dificuldades que não lhes permite deter o necessário controlo dos processos que lhes estão atribuídos.


      Esta falta de controlo possível e o cometimento destes erros e destas faltas, tem responsáveis e estes são todos aqueles que vêm exercendo atividades governativas e de gestão dos recursos humanos, mantendo os trabalhadores Oficiais de Justiça num sistema de semiescravatura, não só no trabalho, mas na sua vida fora do trabalho.


      Os Oficiais de Justiça costumam queixar-se abundantemente da imposição de horas a mais não remuneradas, da falta de pessoal, enfim, do muito trabalho a mais a que são chamados a responder, esquecendo completamente que as condições de vida, fora dos tribunais, nos quartos partilhados com os imigrantes onde vivem, das contantes refeições de massa cozida, são condições que advêm também desse sistema de semiescravatura para o qual os sucessivos governos os atiram, ao não lhes proporcionar salários e carreiras minimamente dignas.


      Aqueles que se deparam com estas condições e abandonam a profissão, não aceitando as colocações, apesar de a elas terem concorrido com desejo e esperança, libertam-se da escravatura do trabalho e das deficientes condições das suas vidas privadas, mas quem já há muitos anos, décadas até, se iniciou nesta vida e já não tem idade para se aventurar a conseguir outro emprego, mantém-se agrilhoado e sobrevive. E, claro, este mal viver não se coaduna com as exigências de desempenho que a profissão impõe e, por isso, hoje em dia é tão fácil que surjam erros, seja por fazer algo de forma errada, seja por não se fazer o que se devia.


      Perante esta crise da base de sustentação dos tribunais e dos serviços do Ministério Público, o edifício começa a ruir, precisamente por falta de uma firme sustentação.


      Por tudo isto, não contando os Oficiais de Justiça com um governo que contenha novas pessoas que consigam ver este problema da base de sustentação e apenas pessoas preocupadas na sua carreira e currículo, a pressão e teimosia dos Oficiais de Justiça torna-se a única saída possível para chamar a atenção para este enorme problema.


      Por tudo isto, também hoje, sábado, os Oficiais de Justiça perdendo grande parte do dia, senão mesmo o dia todo, rumam a uma das cinco cidades onde se realizam as concentrações, porque compreendem esta necessidade de assim agir e de assim não desistir.


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Comentários

  1. ... 800 e poucos euros por mês e ser colocada, oficiosamente, a 4 horas de distância do meu agregado, como é possível?

    Só se dormisse no tribunal!

    Mas lá não existiam, ainda, camaratas e como tal o preço de um quarto em sistema "cama quente", o mais barato que encontrei junto de um casal brasileiro, era de 325 euros!

    Junto-lhe a renda da minha casa de família e respetivas despesas e, vejam bem, não tenho dinheiro nem para viagens ou para comer para e no trabalho!

    Desisti.

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  2. Sem vergonha digo, protegido pelo anonimato , eu Oficial de Justiça vou à sopa dos pobres.

    E já lá vejo professores, como eu, deslocados.

    Mas só espero mais um ano após eleições para ver o que dá!

    Isto não é vida.

    Qualquer dia o comboio passa e a casa fica paga
    para os filhos.

    Desculpem o desabafo.

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  3. Acho que a maioria dos ojs já não se queixa daa dificuldades por vergonha.

    Força àqueles que dão a cara.

    E, quanto, a este artigo, na minha opinião devia ser enviado às redações de imprensa e sedes partidariaa, bem como assembleia da republica e presidente.

    Pois está para mim fantastica a descrição da miserabilidade real dos tribunais e vida dos trabalhadores.

    Obrigado articulistas.

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  4. Novo estatuto sim, urge acabar com a distinção auxiliar/adjunto....

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  5. E eu, se fosse à manifestação, recusar-me-ia a distribuir panfletos sindicais! Já estou a ver sindicatos e OJ a falarem do edificado, da reforma antecipada e pré-reforma, perdendo a oportunidade de falar do essencial. Ah! E a expressão"trabalho escravo" também não vai faltar!
    Faz-se a manifestação e depois? Não há um sindicato que complemente este trabalho! Porquê? Porque estão à espera de vários poleiros!!

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  6. E fez muito bem em desistir. Ninguém é obrigado a aceitar as condições. Certamente encontrará melhores oportunidades perto da sua estrutura.

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  7. Totalmente de acordo. Não vejo a hora de ser implementado um novo Estatuto, que há-de ser similar aos apresentados anteriormente, ganhe quem ganhar as eleições. E quem não perceber isto…

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  8. O plano do PS para a carreira de OJ vai fazendo o seu programado caminho. Valorização da carreira só, como estava previsto, em 2026. Até lá vão aposentar-se largas centenas de OJ sem qualquer valorização.

    Preparem-se, tudo vai bater bem fundo!



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  9. Descontextualizado mas pernitente. Alguém sabe quando a DGAJ paga o que deve aos trabalhadores?

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  10. E também se deviam acabar com os sargentos e praças na tropa.
    E com os enfermeiros especialistas e enfermeiros nos hospitais...
    E com os oficiais de registos e oficiais de registos especialistas nas conservatórias..
    E com o guarda principal e guarda instruendo nas prisões..
    E com o inspetor chefe e inspetor na PJ....
    E com o agente coordenador, agente principal e agente na PSP
    E com os sargentos e os guardas na GNR...
    E com os farmacêuticos assessores e e farmacêuticos assistentes ..
    Nas finanças também se podiam acabar com aquelas categorias todas....

    É isso, vamos criar um sistema nos Tribunais só com um ou dois chefes, tipo um escrivão ou dois e um secretário e o resto é tudo ao molho e Fé em Deus....


    Vamos ser diferentes e acabar com chefias intermédias....

    Borá lá...

    FF

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  11. Não tem de pedir desculpa pelo seu "desabafo". Faça-o sempre, ainda que isso não o ajude a pagar as contas.
    Grande abraço solidário.

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  12. Tem razão, sempre pertinente e urgente, pois o dinheiro é nosso, pertence-nos, e não á DGAJ.

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  13. Muito bem visto! Tem toda a razão! Os Tribunais actualmente já parecem a ditadura dos auxiliares...Tudo parece ter de girar à sua volta e dos seus desejos e descontentamentos...São jovens, licenciados e já parecem saber tudo e sobre tudo: façam- se à vida e deixem de ser a geração mimada e estragada!

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  14. Tb eu gostava de saber.
    Assim como quais as últimas diligências sindicais para pressionar a DGAJ.
    Quando vão pagar o que devem e reconstituir os escalões?

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  15. Ditadura dos auxiliares... fds....

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  16. Acabar com a figura do adjunto é acabar com as chefias intermédias? Se um adjunto para si é um chefe… essa distinção tem de acabar sim. E vai acabar. É uma questão de tempo.

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  17. Chefias intermédias?? A categoria de adjunto não é de chefia, nem sequer de intermédia. É somente uma categoria premiada pela antiguidade e com um salário bom, principalmente para alguns que estão no último escalão, nada querem fazer e ganham perto de 2.000€. É a verdade.

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  18. Lusa:
    "...Lisboa, 17 fev 2024 (Lusa) – Um grupo de oficiais de justiça vai iniciar hoje à noite uma vigília à frente da Assembleia da República com sacos-cama e cartazes para reivindicar melhores condições de trabalho e a revisão salarial..."

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