A Oficial de Justiça Alice na Finitude dos Dias Imperfeitos

      «Horas sem fim a planear, preparar e executar atividades nos processos. Meses, anos a fio, a aplicar procedimentos, automatismos, ferramentas sempre a serem revistos, fazer ofícios, abrir processos, agendar e acompanhar diligências, reproduzir atas, organizar documentos que se acumulavam de forma obstinada, matando a esperança da tarefa concluída.


      Ao fim de tantos anos, continuava desinquieta com a urgência dos prazos, de despachos, de diligências, dos caprichos enfatuados de muitos magistrados e advogados, e sobretudo com os fragmentos de vidas e de dramas que atravessavam os seus dias. Havia dias que aquele tribunal parecia destilar séries monocórdias de um presente insustentável sem opções e sem esperança.»


      Este extrato que acabamos de reproduzir pertence à personagem Alice, que é Oficial de Justiça num Tribunal, e encontra-se nas páginas do romance intitulado “A finitude dos dias imperfeitos”.


      Nesta obra, da autoria de Ângela Maria Lopez, pretende-se mergulhar os leitores no complexo mundo da justiça, onde a autora trabalha há mais de 30 anos, essencialmente na área da família e menores.


      Nas funções que a autora exerce, reconhece como primeiros interlocutores com o sistema judicial os Oficiais de Justiça e, por isso, a sua personagem da Alice surge natural e necessariamente.


      A autora avisa-nos que apesar de Alice ser uma personagem fictícia, no entanto ela existe mesmo. Diz assim a autora: «A Alice existe, cruzei-me com muitas Alice. Ainda esta semana estive com ela, eficiente, atenta, solícita, angustiada com as inúmeras tarefas a cumprir, pressionada por telefonemas, injunções, diligências, interpelações, chamadas…»


      Neste romance que pretende divulgar as dificuldades do sistema judicial, mas também a sua dimensão mais humana, Alice é uma das personagens principais, uma Oficial de Justiça que interroga a complexidade do mundo em que trabalha.


      Tal como a outra Alice do romance de Lewis Carroll, a sua própria identidade é posta em causa pelas estranhas lógicas de uma teia relacional que a ligam a outras personagens através da função que exerce, numa procura de sentido às tarefas repetitivas, sempre inacabadas, pouco reconhecidas em que, tal como na sua vida pessoal, acaba por se tornar o que não quer ser.


      Num dia imperfeito, a lógica absurda dos procedimentos que tem de cumprir confronta-a com a violência do sistema na sua normalidade para quem nele trabalha e para a quem ele recorre. 


      Tal como a pequena Alice do País das Maravilhas, esta personagem adulta para além dos questionamentos sobre o “O que é o normal e anómalo”, “o juto e o injusto” também se interroga sobre o que pode continuar a fazer sentido no lugar basilar e pouco visível que lhe é atribuído neste universo opaco, pouco eficiente pela sua complexidade e pelos seus formalismos. Um sistema em que o tempo nas suas lógicas funcionais, instrumentais se perde, escapa, esmaga as pessoas que a ele recorrem, mas também a quem nele trabalha.


      Face às lógicas e limites daquele espaço-tempo do judiciário face a um mundo em constantes transformações, Alice, em busca de sentido aos dilemas pessoais e profissionais, constrói um espaço próprio para além das injunções formais, dos desentendimentos, dos desencontros, da violência, das dimensões trágicas da existência humana.


      Segue mais um extrato:


      «Desgastava-se mesmo assim na procura de sentido do decurso dos dias, nas tarefas desgastantes, quase todas sem sentido para melhorar a vida das pessoas. Não aspirava a um mundo perfeito, apenas queria manter a ilusão de não acreditar que isto tudo era um embuste. Ouvia, muitas vezes, nos desabafos, nas lamúrias, nas tagarelices constantes dos colegas que não estava sozinha nessa procura.»


      Pode folhear o livro, lendo algumas páginas do mesmo, acedendo pela seguinte hiperligação:


https://biblioteca.bertrand.pt/reader/index.html


      «Havia dias assim. Dias imperfeitos como este fim de tarde de domingo de março ensombrado desde a manhã por uma chuva miudinha e persistente. Tinha chegado aos cinquenta anos. Já começavam a ser muitos e cada ano parecia mais acelerado na sua vertiginosa irreversibilidade.


      Seria o tempo a passar ou a Alice que não se tinha apercebido da passagem do tempo?»


      Pode saber mais sobre a autora e sobre este romance – que hoje aconselhamos – e mesmo adquiri-lo, através das seguintes hiperligações:


https://angelalopez185907333.wordpress.com/
https://entreagente-comunicoergosum.blogspot.com/
https://www.bertrand.pt/livro/a-finitude-dos-dias-imperfeitos-angela-lopez/29156145
https://www.wook.pt/livro/a-finitude-dos-dias-imperfeitos-angela-lopez/29156145


Capa=AFinitudeDosDiasImperfeitos.jpg

Comentários


  1. Livro é casa um oficial de justiça com anos de trabalho. Livro vivido e nada de novo.

    A unica novidade é o enterro da profissão e da vida com o passar dos anos.

    Desgaste que todos teimam em não querer ver.

    Já fomos.

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  2. com uma ponta de inveja: é típico.

    faz igual ou melhor.

    mas já estás reformado e dás conta que nada fizeste.

    faz alguma coisa enquanto é tempo

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  3. O nosso cérebro é a nossa melhor coisa e ao mesmo tempo a maior maldição porque nós limita a percepção das coisas.

    O socialismo vivido no país nos últimos anos, sem outra escolha ou forma de entendimento, apenas intercalado por um resgate da troika, trouxe-nos até aqui. Quase 9 anos vividos em puro socialismo á esquerda, atrasamo-nos e estamos cada vez mais perto da cauda da Europa. As instituições começam a ruir, muitos dos seus edifícios estão decadentes, assim como é decadente o "edifício" que governa as pessoas que neles trabalha.
    Na justiça, nas Conservatórias e nos tribunais, o caos começa a sentir-se com uma intensidade que já não é possível de esconder.

    Há serviços que deixam de funcionar para nunca mais existirem.

    O programa justiça mais (+) próxima ou balcão mais (+) é uma valente treta. Do funciona nos grandes tribunais e estes são poucos no país tão pequeno como o nosso.

    Os funcionários que antes se perdiam na realização das tarefas agora perdem-se também nos edifícios vazios.

    Precisamos de uma mudança urgente como um pulmão precisa de ar para funcionar.

    Acreditem que é possível fazer melhor e não se deixem levar pelos enganos que formataram o nosso cérebro nos últimos anos.

    Sabemos que a morte é um destino anunciado da pessoa mas não tem de ser a morte da sua obra e nós que trabalhamos no edifício da justiça queremos que este seja um valor seguro.

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  4. pobre da cuca25/2/24 12:25

    Gosto mesmo do galo de hoje a abrir a página e o cantar de galo há tantos anos tem mérito, independente de se concordar ou nāo por vezes com o que escreve. Mas democracia é isso mesmo, todos serem livres de exprimir as suas ideias, respeitando outros direitos que todos temos. 50 anos após a revolução dos cravos é bom dar valor a esta página e reconhecer o trabalho diário.
    Devia ser mais divulgada junto dos colegas por todos os que já a conhecem.
    Há por aqui muitas críticas a ambos os sindicatos. As últimas ministras da Justiça menosprezaram os Of.Justiça em favor de outras classes.Vem aí o Congresso do sfj. Vamos ver quem se apresenta, novas listas, sangue novo para gerir o mesmo e tentar obter o que há tantos anos tem ficado em standbay?!

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  5. Sim, tu nada fizeste.
    Ou se fizeste foi pendurares-te nis colegas do lado.
    Esse paleio de fazer trezansa a mofo.

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  6. Inveja de dias de merda?

    Eu não quero deixar nem guardar memórias deste ambiente que se vive nos tribunais.

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  7. Obrigado blogue

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  8. Não é ponta é grossa.
    Fica com as memórias que queiras pá. Nessa vidinha que levas.

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  9. Memorias de engano, de roubalheira e de pulhice.

    Não obrigado.

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  10. Noa ideia!

    E porque o sr Fernando joge e outros líderes sindicais não fazem o mesmo?

    Devem ter boas memorias para deixar a quem dá duro no dia a dia não?

    Belo trabalho resumido desses senhores que deram duro

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  11. Líder dos licenciados25/2/24 20:43

    Parabéns para a aurora do livro, temos que começar a escrever a realidade dos funcionários e divulgar de todas as formas possíveis..

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  12. Tem toda a razão. É urgente dar a conhecer a nossa realidade.

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  13. Somos um coitados

    Justiça sem nós não funciona, mas ninguém fala de nós

    Votem nos mesmos não se esqueçam

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  14. Muito sucesso p/a autora. Obrigada ao blog pela divulgação.
    Bem hajam e continuem...

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