A hipocrisia e a sonolência dos Oficiais de Justiça

      Alguns Oficiais de Justiça, em face do seu salário precário, insuficiente para suportar, designadamente, as despesas de estarem deslocados, carecem de ter um segundo emprego e veem-se obrigados a explicar tudo muito bem explicado à entidade do Ministério da Justiça que trata dos recursos humanos dos tribunais, indicando a empresa, qual o horário desse trabalho, que tipo de funções, etc., requerendo autorização para desempenhar esse segundo trabalho fora das horas normais de funcionamento dos tribunais.


      A Direção-Geral da Administração da Justiça (DGAJ) analisa meticulosamente esse segundo trabalho e, caso excecionalmente o autorize, impõe diversas condições e restrições. Desde logo que só pode ser levado a cabo depois das 17H00 e desde que não haja necessidade de prolongar o serviço e depois, atente-se na particularidade, estabelece como limite para esse segundo trabalho as 21H00.


      Porquê as 21H00?


      Porque a DGAJ invoca o nº. 1 do artigo 214º do Código do Trabalho que estabelece que entre dois períodos diários de trabalho consecutivos, deve ser observado um período de descanso de 11 horas seguidas, por forma a permitir a recuperação do trabalhador.


      A entidade do Ministério da Justiça invoca ainda o nº. 1 do artigo 232º, do mesmo diploma legal, que refere a obrigatoriedade do dia de descanso semanal e um complementar ao fim de semana, não permitindo ao Oficial de Justiça que trabalhe os dois dias do fim de semana, mas apenas um, porque tem de descansar.


      Ora, como facilmente se constata, há uma enorme hipocrisia quando se obriga o Oficial de Justiça a trabalhar horas indefinidas, pela noite dentro e mesmo aos fins de semana, sem qualquer limitação, preocupação, remuneração ou compensação, e depois, quando é para o Oficial de Justiça poder compor o seu rendimento e o da sua família, e conseguir chegar ao fim do mês honrando os seus compromissos, é o “ai-jesus” que tem de descansar e não pode trabalhar tanto.


      Mas não se pense que o limite da segunda atividade até às 21H00 se aplica apenas a trabalhos remunerados, uma vez que se o Oficial de justiça comunicar à DGAJ que vai desempenhar uma qualquer atividade não remunerada, por exemplo numa associação recreativa, desportiva ou cultural, na sua localidade, quando, como todos sabem, se realizam reuniões após o jantar, isto é, marcadas para as 21H00 ou 21H30, o Oficial de Justiça, mesmo que seja o presidente da associação, nunca poderá ir às reuniões ou, se marcadas para hora anterior às 21H00, chegada a horinha determinada pela DGAJ para ir dormir, terá de abandonar a reunião. Xixi e cama.


      Já se o mesmo Oficial de Justiça estiver num interrogatório de arguido detido até à meia-noite, sem ser por sua vontade e sem qualquer remuneração, já não há problema algum e pode estar, ainda que no dia seguinte passe o tempo todo a bocejar.


      Tendo em conta estes aspetos e limites, temos de considerar que os Oficiais de Justiça, mesmo que não desempenhem nenhuma atividade fora de sua casa, não deverão também desempenhar tarefas domésticas após as 21H00, seja arrumar a cozinha, dar banho aos filhos e deitá-los, ou mesmo ver a telenovela da noite que se prolonga para além das 21H00.


      De igual forma, qualquer lide doméstica só pode ser levada a cabo num dos dois dias do fim de semana e não em ambos, em obediência ao nº. 1 do artigo 232º do Código do Trabalho, conforme invoca a DGAJ para limitar qualquer segunda atividade a apenas um dia no fim de semana.


      Consideramos os limites legais algo perfeitamente razoável para que os trabalhadores possam ter um ótimo descanso, mas esse bom descanso só pode ocorrer se esses mesmos trabalhadores conseguirem dormir descansados sem insónias advindas das preocupações que os seus salários lhes aportam todos os dias de todos os meses.


      Por outro lado, a obrigatoriedade dos Oficiais de Justiça trabalharem na sua profissão para além das 21H00, sempre que faça falta e sem qualquer remuneração ou preocupação com as suas horas de descanso, constitui, sem dúvida alguma, a suprema hipocrisia.


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Comentários

  1. Já por aqui se tem referido várias vicissitudes com a carreira de Oficiais de Justiça. E estas não contendem apenas com os períodos de férias e limitações ao seu exercício assim como de outras profissões.

    Quando entrei para os tribunais, há mais de 25 anos, haviam vários movimentos no ano, alguns até extraordinários, e os acertos e ajustamentos aconteciam de forma natural.

    Atualmente, para além de haver apenas um movimento, passou a haver limitações em função de rácios de carências, de atos praticados, com o recurso hábil a aberturas de lugares para núcleos que nunca chegam a ser ocupados pois são no imediato recolocados em outros núcleos da comarca, muitas vezes, com a capa de medidas gestionárias.

    Nas Conservatórias, os Oficiais do Registo não têm a nossa limitação e viram valorizada a sua carreira, nomeadamente remuneratória, nas Infraestruturas de Portugal, por exemplo na CP, conheço juristas que têm escritório aberto e cumulam esta atividade com os cargos na empresa pública, para além dos vouchers para gozarem férias no estrangeiro e viagens de borla para a família.

    No setor da justiça, e concretamente nos Tribunais, vive-se com amarras, como que agrilhoados a uma ideia que há muito se perdeu.
    O mundo mudou e nós não seremos mais os mesmos que fomos. Tudo está, será diferente mas, para muitos, acredita-se no mesmo remédio, nas mesmas soluções do passado.

    Ser Oficial de Justiça por estes dias não interessa a ninguém.

    Há uns anos atrás não existiam recipientes diferenciados para do lixo - com separação dos plásticos do cartão, do vidro e do metal - hoje há cada vez mais lixo, mas os funcionários são cada vez menos, porque se evoluiu na forma de pensar e de dar soluções, possibilitando a reciclagem, a economia circular e a adoção de medidas amigas do ambiente. O melhor exemplo vem da Finlândia onde transformar o lixo em múltiplos subprodutos reutilizáveis e energia, gerando emprego e renda além de cidades limpas é o novo paradigma.
    Esta função é bem remunerada.

    Nos tribunais, parece que impera o atavismo, nós que somos como que "lixeiros da desumanidade" social, importantes no processo de recolha e de tratamento para reintegração nos valores de uma comunidade, somos menos importantes que aquilo que os "coletores de lixo" representam na Finlândia.

    É triste ver que só se preocupam em acrescentar ao número sem acrescentar qualidade a esse número como se estivéssemos na década de 80/90 e os tribunais fossem como que indústrias de confeções.

    A continuar-se assim, com mentalidades destas, não sobrará pedra sobre pedra no edifício da justiça que depressa ruirá por dentro para só depois se desmoronar sobre todos nós.

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  2. Essa apatia e sentimento de desligamento dos oficiais de justiça tem um nome e é caso de estudo e preocupação de gestores no mundo empresarial e da economia, chama-se "RUST OUT".
    Só para os iluminados do Ministério da Justiça e da dgaj isso parece não ser problema, ter uma força de trabalho envelhecida e desmotivada.
    A justiça está enferrujada.

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  3. Tivéssemos um sindicalismo forte e não teríamos chegado aqui... palpita-me que agora sim, vão endurecer a luta...

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  4. Eu não acredito no SFJ, nem na pessoa que o preside!

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  5. Se não tivéssemos parado a greve, agora apenas lutaríamos por aumentos salariais.

    Assim, tudo falta, estatuto, reconhecimento e também melhores salários!

    Tivemos o costa 8 (oito) anos e nada conseguimos, e estamos no ponto de partida, ou até menos, porque o novo governo ainda não posse!

    Obrigada SFJ, pior era impossível!

    Abraço

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  6. Engana-se Colega.
    Quem disse que não se conseguiu nada?

    Conseguimos que tudo ficasse na mesma porque isso interessava a muitos de nós - a promoção pelas feições, a sobrevalorização da antiguidade nas funções em detrimento da competência.

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  7. Não há coragem política para fazer o que tem de ser feito.

    Agora fala-se numa visão progressista e já não meritocrática como forma se justificar a ascensão profissional, aquela que acontece quando o profissional conhece um atalho para a meta, nomeadamente, através da filiação partidária.

    Tristes de nós.

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  8. Ainda decorre prazo para responsabilidade civil extracontratual do estado por omissão em legislar, conforme lei de orçamento, no que diz respeito à reforma e suplementos.

    O que fizeram as direções dos sindicatos?

    Marcaram greves quando deviam ir para Tribunal.

    Cfr lei 67/2007 (artigo 15.º)

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  9. E coragem para isso? algum sindicato?

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  10. Talvez, nós OJ, tenhamos que exigir aos sindicatos que o façam!

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  11. Continuem a pagar quotas continuem...

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  12. Afinal não há mais dívida para além do défice!...

    CONTAS PÚBLICAS

    INE divulga excedente orçamental de 2023, o maior da história democrática
    Informação será divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística pelas 11H00 da manhã. A concretizarem-se as previsões, o excedente de 2023 supera o de 0,1% registado em 2019, ano em que o antigo ministro das Finanças, Mário Centeno"

    O excedente orçamental deve-se ao défice na promoção das políticas públicas.

    E que o digam os Oficiais de Justiça.

    Cada vez somos menos, e a acumulação de funções do trabalho daqueles que vão abandonado os serviços não é remunerado como acontece com as Magistraturas.

    Os vogais do Conselho dos Oficiais de Justiça não auferem os vencimentos do topo da carreira com auferem os vogais dos Conselhos Superiores das Magistraturas (os vogais dos CSM da primeira instância auferem vencimentos dos Juízes Conselheiros) - trabalho igual vencimentos iguais!...

    O excedente orçamental resulta ainda da falta de médicos, de professores de polícias e de militares.

    A política do socialismo de caviar, de favorecer as elites da administração pública, em detrimento dos comuns dos cidadãos levou-nos a este excedente orçamental.

    As elites estão muito bem e o défice também!...

    As "gatas borralheiras" que aguentem porque eles estão bem.


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  13. Só espero que o novo Ministro da Justiça substitua de imediato as "Senhoras da DGAJ" senão o novo projeto de estatuto dos Oficiais de Justiça vai ser o mesmo, com apenas a alteração de algumas vírgulas.



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  14. Excelente artigo, o de hoje.

    Realmente é de uma hipocrisia gritante.

    Para umas coisas, o Código do Trabalho é imperativo!

    Trabalhar para lá da hora sem qualquer compensação, isso já é dever de ofício!

    PQP estes miseráveis FDP!

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  15. Meus caros,

    Há mais de uma década que me estou a borrifar para "autorizações".

    Exclusividade paga-se e caro, coisa que a DGAJ não faz .

    Sentenciada a DGAJ propõe pagar a quantia sentenciada líquida, com descontos para a CGA, IRS, e coleta de 2023, quando paga em 2024!

    Juros de mora?! Nada.

    Reposição no escalão devido?! Nada.

    Portanto, 9 to 5 tribunal e TVDE a partir das 18h até à 1h para ir buscar mais 1500€/mês e ter uma vida confortável a relativizar a loucura judicial.

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  16. Tanta história com o Bloco de Esquerda e hoje nem os OJ foram referidos nas carreiras a recuperar ...

    Votou, andou ...

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  17. E é Oficial de Justiça, ou vai só vê-los ao Tribunal/DIAP ???

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  18. Pois, só pode.
    A dizer que tem uma vida confortável a trabalhar fãs 9 às 01.00.
    É só fazer as contas.😁

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  19. 1200€ vencimento ( vinte anos de tribunais) + 1300€ + gorjetas TVDE mensais.

    2500€/mês. 16 horas trabalho/dia e alguma diversão!

    Habilitações?

    Algumas ( 12+5+1+2 = 20 anos de estudos) + curso
    TVDE + empresa de transportes, entre outras.

    É só trocar o chip e perder a "cagança", que na realidade nunca tive.

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