Deixou-nos, mas deixando um importante exemplo

      No passado dia 23JUL, aqui publicamos um artigo intitulado «“São medos diferentes”; mas não deixam de ser medos», em que citávamos o Oficial de Justiça Francisco Costa que comparava a guerra com a doença do cancro de pulmão que lhe fora diagnosticado.


      O artigo abordava a iniciativa de um grupo de Oficiais de Justiça que se constituiu para apoio permanente do Francisco no seu internamento no Hospital Distrital de Santarém.


      O grupo de apoio, denominou-se os “Bacanos do Costa”, nome criado na aplicação de comunicações WhatsApp, onde 28 Oficiais de Justiça formaram uma rede que geria os períodos de visitas entre eles e quem podia levar, entre outras coisas, alimentos porque, como diziam, era “muito esquisito com a comida” e andava a comer pouco.


      Internado há cerca de três meses, dizia há dias o seguinte: “Estive bastante mal, em baixo, mas agora estou melhor e isso também é devido ao apoio dos meus colegas de trabalho”.


      Francisco José Galrinho dos Santos Costa, que se preparava para se aposentar, que havia completado 66 anos de idade no passado mês de julho e depois de cerca de 40 anos de serviço na justiça, faleceu levado pelo cancro que dele se apoderou. O funeral realiza-se esta manhã, pelas 11 horas na freguesia de Azinhaga (Golegã).


      Francisco Costa não renegava a sua qualidade de chato. Com um estilo mais incisivo, por vezes resmungão, perante o trabalho que não estava bem feito, teve, no entanto, a consideração dos colegas com quem trabalhou mais de perto e que se organizaram para o ajudar naquele momento difícil.


      Não chegou a gozar o merecido descanso da sua reforma, passando diretamente para a fase seguinte do descanso eterno. Teremos de encarar isso como se fosse uma progressão, um salto de escalão ou uma promoção, porque o seu padecimento cessou.


      Este caso serve de exemplo para todos, antes de mais para todos os fumadores, pois o Francisco era fumador, mas desde logo pelo exemplo – grande exemplo – de camaradagem que, por ele, surgiu, ou melhor, ressurgiu, no seio dos Oficiais de Justiça, antes tão solidários e com grande espírito de camaradagem, espírito esse que hoje se julgava extinto, mas afinal ainda não de todo.


      E é este legado de grande exemplo de camaradagem que nos apraz realçar, mesmo quando todos bem sabiam que era um resmungão e lhe apontavam tal defeito, sabiam também que com ele se podia contar.


      Todos diferentes, cada um com as sua personalidade, com as suas virtudes e seus defeitos, com os seus dias bons e os seus dias maus – e ainda bem que isto é assim, pois caso contrário seria uma pasmaceira –, mas perante tanta diferença, mantém-se uma linha comum, igualitária, a tal linha da camaradagem, do convívio diário durante anos e isto tem de ter valor, aliás, tem de ter muito valor.


       O Francisco confessou que tinha um medo: chegar a casa e “não conseguir fazer o que é preciso, não conseguir andar…”, mas não chegou a casa, não chegou a verificar esse medo, deixando-nos agora a todos com um outro medo: o medo da perda da camaradagem, não necessariamente da amizade, mas tão-só da camaradagem; da verdadeira união.


FransciscoCostaFalecido.jpg


      Fonte: jornal regional: “O Mirante # 17JUL2025” e “O Mirante # 12AGO2025”.

Comentários

  1. Eterno Abraço colega.
    Condolências á família.

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  2. Um colega13/8/25 08:38

    Paz a sua alma. Até já caro colega.

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  3. Que descanse em PAZ.

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  4. Paz á sua alma.
    Ao mesmo tempo faz me pensar que o longo tempo de trabalho a que somos obrigados a ter, e cada vez mais, pois a idade da reforma não recua, antes pelo contrário, avança, a grande maioria dos futuros aposentados, irão morrer "na praia". Se calhar é isso que a administração pretende, poupa nas reformas. Uma tristeza.

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  5. Lamento a morte do colega e os meus pêsames à familia e amigos.
    Não sei se é impressão minha, ou esta profissão tem uma esperança média  de vida baixa. São muitos os colegas, jovens  e relativamente jovens, que partem demasiado cedo, sem aproveitar um dia que seja da almejada reforma.
    É verdade que não somos mineiros, nem policias, mas esta profissão mata mesmo.
    É uma triste forma de vida.

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  6. É evidente que o estado não quer pagar as merecidas reformas a quem trabalhou e descontou uma vida. Ano após ano prolongam a idade da reforma para assim reduzir ou anular o os anos de pensões que tinha de dar. Querem mesmo ver-nos a morrer na praia como alguem disse aqui. Por isso insistem na narrativa da necessidade do aumento da idade da reforma, que todos comemos, sem ninguem se atrever a desmontar esta narrativa, nem a classe médica, nem sindicatos nem a sociedade em geral. Simplesmente a biologia humana não está feita para manter um ritmo de trabalho aos 65 anos igual ao que tinha aos 30 e 40 anos de idade. Todos sabem disso mas fingem não entender. O pretexto é a famosa sustentabilidade das pensões. É lógico que o pagamento de pensões não pode depender só dos descontos de quem trabalha, vejam essas empresas que apostam tudo na Inteligencia Artificial, tem meia duzia de funcionários e lucros fabulosos, ou seja não tem trabalhadores a descontar de um salário. Se essas empresas tem 30 robos a fazer o trabalho de 30 humanos, claro que já não pagam salários nem descontam para segurança social, nem IRS, mas os lucros aumentaram.
    Assim não há sistema de pensões que aguente. Solução: taxar os lucros dessas empresas que trocam maquinas por humanos, mas os governos não querem mexer nesses lucros, preferem sacrificar quem trabalha obrigando a trabalhar mais anos até aos 70 quase, depois sobram poucos ou nenhuns anos de vida na altura de reformar. 
    Eu chamo a isto uma sociedade de escravidão.

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  7. A taxação da robótica é uma inevitabilidade.


     

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  8. Agora já não adianta chorar sobre o leite derramado.
    Tivemos tudo nas nossas mãos, trocaram-no por grau e pouco mais...
    Em vez de pararmos a máquina em devido tempo, entregámo-nos de bandeja.
    Para além da recuperação integral do tempo de serviço congelado que ao continuar sem ser devolvido faz de nós cidadãos de segunda relativamente a outros portugueses, bem como o aumento imediato de 300 euros para todos os oficiais de justiça reportado a 2024, outra das reivindicações incondicionais que deveria ter sido negociada intransigentemente era a reversão da idade da reforma que unilateralmente nos foi imposta ao arrepio do EFJ - que serve só para o que dá jeito -, uma vez que os cofres passaram a ter excedente e deixou de se justificar o sacrifício das nossas idiossincrasias a prol da tão propalada sustentabilidade - para a qual sendo relativamente poucos teremos dado substancial contributo -, pelo menos para quem cujo contrato contemplava a CGA.
    No mínimo dos mínimos, caso tal não fosse negociável de todo pela tutela, pelo menos a criação de dois novos escalões por categoria era o que se impunha por forma a compensar essa subtração que foi feita a todos nós sem aviso, como da mesma forma também terá prejudicado muito o Francisco Costa que nos últimos anos de vida em consequência das vicissitudes da mesma talvez até tivesse encontrado a tranquilidade suficiente para, por exemplo, deixar de fumar, mas pelo menos muito melhores condições para exercer a função de cuidador que exercia simultaneamente com a de oficial de justiça quando o contrato que assinou previa a possibilidade de aposentação, no caso dele, creio que pelo menos aos 62 anos.
    Brincam com as expectativas das nossas vidas como bem lhes apetece, dão o dito por não dito, que até está escrito, a seu bel prazer, suprimem e cortam tudo unilateralmente sem dar cavaco a ninguém.
    Só se esquecem duma coisa, também para lá vão, estes que agora governam e se acham jovens e distantes do vórtice da contemporaneidade.
    Perdeu-se todo o respeito pela ancestralidade e com tendência a piorar na vertigem dos dias, e até eles mesmos mereceriam apesar de tudo terminar com a dignidade própria da vetustez, mas duvido muito de que daqui por 30 ou 40 anos esse género de valores ainda perdurem nas nossas sociedades, a julgar pela jactância dos políticos da atualidade.
    Perdoa-me, pois, Costa, pela resmunguice deste dia, e
    RIP

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  9. Cara de Fuinha13/8/25 15:39

    Como assim dois escalões mais?
    Dois escalões são 6 anos de progressão - eram, antes dos sindicatos terem acabado com tudo -, e dos 55 aos 67 anos praticamente de hoje, são quase 12 anos completos.
    Não seriam 4 escalões em vez de apenas 2.
    Com esta gentalha, que, por exemplo, paga vencimentos e depois os pede de volta, não seria mais recomendável e justo reivindicar logo os 4 correspondentes aos 12 anos que até ao momento já nos subtraíram? 

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  10. RIP, caro Colega. 

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  11. Tutela, sindicatos, gestão  comsrca, magistraturas, ponhsm os olhos no nada que  sois, somos.

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