Os devaneios que não são só ridículos, mas perigosos

      No último Boletim Informativo da DGAJ, o 5º de 2025, relativo aos meses de setembro e outubro, que foi divulgado esta semana, traz-nos, entre vários assuntos, um separador denominado “Um dilema ético”, no qual aborda o assunto de um “elogio não merecido”.


      A efabulação passa por considerar a hipótese de uma reunião de um Oficial de Justiça, que chefia uma secção, com representantes da Administração local e central, onde o dito Oficial de Justiça recebe um elogio pelo trabalho efetuado, que foi muito rápido, “recordista”, na “recuperação de pendências”; ficção, portanto.


      De seguida, apresentam-se três hipóteses possíveis de reação do tal Oficial de Justiça, perante o elogio, apreciando-se de seguida a personalidade do indivíduo de acordo com cada resposta, classificando-o automaticamente de acordo com a atitude, sem considerar mais nada, isto é, sem se considerarem outros fatores, e são tantos, que podem influenciar, e influenciam, nos dias que correm, a atitude de cada Oficial de Justiça.


      Consta assim (página 9):


      «Imagine que chefia uma unidade orgânica que, em tempo recorde, efetuou um trabalho de recuperação de pendências. Na realidade, a proeza deveu-se principalmente ao esforço dos seus colegas subordinados…


      É chamado para uma reunião onde, na presença de representantes da tutela, recebe em público e a título individual, um grande elogio pelo trabalho efetuado.


      Como reagiria nesta situação?


      Opção 1: Corrige, “Obrigado, mas o mérito é da equipa, especialmente da Maria e do João.”


      Opção 2: Aceita o elogio em silêncio e não partilha o sucedido com a sua equipa, pensando “Também trabalhei, este elogio não é totalmente injusto.”


      Opção 3: Aceita o elogio em silêncio, pensando “Não vale a pena levantar ondas, mais tarde agradeço à equipa em privado.”»


      De seguida consta a interpretação da atitude e dos pensamentos do tal Oficial de Justiça e diz-se assim:


      «Quem tende a escolher a Opção 1, são pessoas com alto sentido de justiça e integridade. Líderes naturais que valorizam a confiança e a reputação a longo prazo. Têm um perfil colaborativo e entendem que creditar nos outros fortalece as relações profissionais.


      A Opção 2 é a escolha de pessoas pragmáticas, que valorizam o reconhecimento e veem o trabalho como um esforço coletivo, mesmo que desequilibrado. Às vezes, profissionais inseguros que têm medo de perder visibilidade.


      Já a Opção 3 é escolhida por pessoas diplomáticas, que equilibram consciência ética com pragmatismo. São mediadores, evitam atritos, mas não ignoram o impacto moral. Muitas vezes, são pessoas experientes que já viveram situações semelhantes e preferem agir nos bastidores.»


      Para concluir, questiona-se: E afinal… há uma escolha certa? e responde-se:


      «Nenhuma opção está totalmente certa ou errada, porque nem sempre o que parece mais ético pode ser o mais adequado ao momento e ao contexto.


      A primeira opção, implica corrigir publicamente quem proferiu o elogio, podendo causar desconforto nos presentes, embora possa gerar confiança e respeito junto da equipa e promover uma cultura de mérito partilhado.


      A segunda opção, ao aceitar em silêncio o elogio (não merecido) por uma questão de pragmatismo ou de proteção pessoal, pode criar ressentimentos, reforçando injustiças e desmotivar colegas.


      A terceira opção, pode não ser suficiente por não existir reconhecimento público, podendo os colegas sentir-se injustiçados.


      A reflexão que este dilema provoca é mais importante do que a resposta em si…»


      Se a resposta em si não é tão importante quanto o é a reflexão, como se diz, consideramos, no entanto, mais importante ponderar se existe algum ponto possível de contacto com a realidade, não só pela impossibilidade do dito recorde de recuperação de pendências, mas também pela interpretação direta dos pensamentos do Oficial de Justiça que tanto trabalhou para poder ter estatísticas recordistas e receber o pagamento da palmadinha nas costas, um cofiar de pelo, para, tal canídeo, ficar a abanar a cauda.


      Há certas visões fantasiosas da profissão que são, não apenas ridículas, mas perigosas.


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      Fonte: “Boletim Informativo #5/2025(acessível na INTRAnet).

Comentários

  1. Em espectáculos teatrais, musicais é normal e de bom tom, após o aplauso do público os artistas agradecerem igualmente aos técnicos de som, de luz, organizadores, etc. Porque não um líder aceitar obviamente o elogio e mencionar a sua equipa, sem a qual os bons resultados não eram atingíveis? 

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  2. O que interessa é elogiar o capataz ... para este fazer movimentar o chicote com maior cadência!

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  3. Olhando para a imagem, digo:


    FOGE CÃO, SENÃO FAZEM-TE ESCRIVÃO!

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  4. O tal boletim segue imediatamente para o lixo. Uma entidade que afirma não ter meios para cumprir o seu propósito mas dispensa funcionários para esta auto-promoção…

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  5. Falta o individuo mais importante e provavelmente o responsavel: o(a) Sr(a), Magistrado(a). Sem despachos não há recuperação.

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  6. Sem cumprimento dos despachos, a eficácia dos mesmos é zero!

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  7. Voltamos ao infantário. Que parvoíce!

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  8. Huuummm...qual estatística??
    A oficial ou a outra??
    É que nunca sei de qual se fala quando só se fala de uma.
    Era bonito se no privado, as empresas apresentassem um relatório financeiro para os acionistas e outro para as finanças.
    Mas aqui vale tudo.

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  9. E vão dois.


    LOgo lixo, para mim é spam.

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  10. Importantissimo, fora os que apenas delegam nos escravos.


    Diga também que sem OJ´s não há despachos cumpridos!

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  11. Com alguém um dia destes aqui colocou um artigo que 
    simplesmente abordava que


    Uma grande causa das doenças e baixas  dos funcionários eram as más chefias!
    Tenho dito!

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  12. O mundo está de pernas para o ar! Só pode!
    Uma parte dessa elite está numa flotilha a caminho de Gaza. Acho que a razão da viagem é muito meritória e tem todo o meu apoio, mas pelo que se sabe, na flotilha não só os ataques dos drones que são notícia (não se sabe a verdade mas foi um facto que deu mote aos média para falar do BE), também as festarolas dão que falar (segundo ouvi dizer do Sérgio Sousa Pinto). 
    Eu que sou de centro esquerda/centro direita, daquela mais moderada (a do Sérgio Sousa Pinto ou a do Miguel Poiares Maduro) não percebo como há gente que embandeira nesta forma de pensar o mundo (em que não se cuida de todos, dos que pensam como nós e dos outros que pensam diferentes e em que se ostraciza quem não é da pertença do grupo e se hipervaloriza quem o integra e dá apoio apenas por comodismo social).
    Recomendo a leitura de um livro escrito por vários autores, um deles premiado com um Nobel, "Como Pensar Melhor" de John Campbell, Robert MacCoun e Saul Perlmutterr - da Bertrand.
    Quanto ao assunto de hoje dizer apenas que ninguém deve ser elogiado por fazer o seu trabalho - é para isso que nos pagam - o maior elogio que nos podem fazer é reconhecer a competência no que fazemos pagando-nos um vencimento digno e tratando-nos com respeito. Palmadinhas nas costas, não obrigado, só quando estou afrontado ou entalado com alguma coisa e mesmo aí tenho receio da severidade e do aproveitamento do momento. O melhor elogio que se pode ter provém de nós próprios, da auto realização e da satisfação pessoal. Tudo o resto é folclore para entreter os mais desatentos e desavisados, para apregoar um determinado modo de ser (de subserviência, de servir sem questionar, de nos contentarmos com pouco quando merecemos mais).
    Isto está tudo muito mau!

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  13. O texto de hoje faz-me lembrar o "grupo do elogio mútuo" no mau sentido.
    Dou um exemplo:
    - um chefe de equipa que assuma o cargo e que, de forma abnegadora e empenhada se comprometa a num curto espaço de tempo regularizar o serviço com um quadro deficitário, permanecendo para além da hora e sobrecarregando os colegas, seus subordinados, pode alcançar grandes feitos no imediato e ser por isso elogiado.
    - todavia, mais depressa do que julga, cairá num abismo donde dificilmente sairá, pois liderará um grupo esgotado que não conseguirá dar continuidade à recuperação, pois não poderá ficar ilimitadamente para além da hora e, será visto pelos seus pares, como mau exemplo as seguir (como justificar perante a tutela que os quadros de pessoal sejam providos quando há gente que se dispõe a fazer o serviço com o sacrifício pessoal?). Se há situações conjunturais que o justifiquem já quando o problema é estrutural este tende a agravar-se se a resposta não for adequada.
    O maior elogio que pode merecer um chefe acontece quando ele nos põe a fazer o que verdadeiramente sabemos fazer, com organização e método, nos respeita no trabalho e fora dele e está presente nos momentos menos bons providenciando para que adequemos a nossa atuação. Quando um chefe se limita a "extorquir" a alegria no trabalho, obrigando a permanecer para além da hora, muitas vezes com sacrifício familiar, impondo um ritmo acelerado e profundamente desgastante, pode tira o melhor de nós mas depois disso nada lhe restará, pois viverá acompanhado pelos seus pensamentos no trabalho e pela sua sombra na rua (apenas quando houver sol).
    Essa de nenhuma resposta está completamente errada ... até pode ser, mas há certamente uma que é a mais acertada, mais ajustada e essa é a do reconhecimento público de que o mérito é da - de toda a - equipa que o líder personifica naquele momento - o prémio é/deveria ser atribuído à equipa na pessoa do seu líder.
    Fui assim que fui educado - 

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  14. Não sei que raio de religião querem inventar mas este discurso e forma de pensar lembra-se outras paragens.
    Na Índia, predomina o Induísmo (dizem que é já a terceira maior religião do mundo) que muitos apontam como a principal razão para a pacificação social não obstante a pobreza imensa e a estratificação social por castas/estirpes.
    Em apertado resumo defende aquela religião que todos nós devemos aceitar a nossa condição de vida por muito precária que seja, aceitar e agradecer o (pouco) que nos dão, porque apesar de tudo nos permite viver, respeitar a "casta superior" (equiparada à burguesia e à nobreza na idade média) aceitando que exista quem, por sortilégio dinástico, viva superiormente bem e todos os demais lhes devam subserviência e serventia ...
    Mas o quem e porquê teve uma ideia assim ... terá saído daquelas reuniões esquisitas e secretas (onde os homens usam aventais ...?). Que raio de ideias elitistas se andam a propalar e com que intensão ...
    Todos nós que andamos pelos tribunais percebemos bem a questão das "castas", principalmente quando nos cruzamos nos corredores muitas vezes sombrios, austeros e temerosos ... (e todos sabem do que estou a falar).
    Só falta alguém escrever por aqui que o trabalho dá saúde e faz bem ... ou que liberta a mente e que há uns predestinados a mandar e outros a servir ...

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  15. Certinho,


    Chefia no lugar errado só dá doença.

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  16. E onde é que nos tribunais existe essa dita  

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  17. Verdadinha!


    Surreal estatistica verdadeira e estatistica falsa.
    Bem visto, mas triste!

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  18. A justiça dos OJ, das Secretarias Judiciais, está cheia hipocrisias e cinismos e, acima de trabalho.


    Trabalho, trabalho e mais trabalho, que torna as pessoas, insensiveis, estupidas, e, cá voltamos novamente, hipocritas e cinicas.


    Estamos cá para trabalhar, mas precisamos de respirar, refletir, pausar, o que muitas vezes não é possível.


    E, atente-se, as coisas só estão a piorar!

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  19. Ilustres colegas :-) que "comentam como eu". Demonstram ser críticos + construtivos (sem nuca serem mal intencionados ou serem venenosos/mal educados). Erros todos fazemos, mas nem todos os corrigem ou tem motivação para tal - é mais fácil "pisar o pensamento/trabalho dos outros" destruir que construir  - sempre foi assim e isso não irá mudar. Quero ainda, evidenciar um comentário interessante + realista,ou seja:


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  20. A pergunta que se impõe fazer é:
    Mas será que o referido boletim da paróquia nada mais tem para contar aos paroquianos do coisas inúteis e hipotéticas.
    Anda-se a pagar a alguns técnicos superiores para fazerem aquele pasquim, quando deveriam era estar a trabalhar nas secretarias.
    A Tutela pensa que os Tribunais são empresas, fábricas e então quer aplicar os conceitos e tiques modernos do mundo empresarial aos tribunais, sem sequer tem atenção à especificidade do nosso trabalho. Que vão mas é salgar queijos, assim quantos mais salgarem na DGAJ mais o chefe deles agradece e assim já pode receber e distribuir elogios 

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  21. Parabéns pela descrição  na perfeição!


    Eu por mim tento cuidar da saúde, e elogios dispenso, tal como o destrato que me  tentam impor, retribuo com desprezo que merce.

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  22. Na mouche.


    Não cudem da saúde não!

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  23. Certeiro!


    trabalhar no fio da navalha, sem compensações à altura .


    Saúde vai-se. Pensem nisso, a vida é curta.

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  24. E vão dois !
    Vão dar banho aos porcos

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  25. Era interessante que a tutela divulgasse quantos OJ´s estão de baixa por causa da pressão diária e falta de pessoal.


    Quantos adoecem mesmo de verdade nesta profissão.


    Alguém tem coragem de denunciar isso?

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  26. Fora do tópico, mas muito interessante para a profissão.
    Já ouviram falar do SPEAK APP?
    Imaginem aquilo a trabalhar em tempo real num julgamento.
    Aqueles requerimentos por vezes de meia hora ou mais imediatamente transcritos ou resumidos conforme a nossa preferência.
    Ou então todo o julgamento, por exemplo.
    E ainda há quem tenha pruridos em aceitar uma realidade que já está à frente dos seus olhos e disponível...

    Para quando a IA a controlar inúmeros aspetos do nosso trabalho, permitindo-nos executar outras tarefas e/ou ser mais produtivos sem que para isso andemos no limiar do burnout como andamos?
    Anda tudo a dormir ou é mesmo questão politico/ideológica?

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  27. Não conheço caso em concreto poderá merecer os mais rasgados elogios.
    Mas para mim falta na informação um elemento essencial que é se o trabalho foi realizado durante o período normal de trabalho ( a ser os meus parabéns) ou se muito para além deste como muitos gostam de fazer até remotamente quando vão para os seus lares( se for o caso , péssimo para os colegas e para a profissão).

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  28. Não não há coragem.


    Mas magistraturas também adoecem e calam.

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  29. Por mim, podiam mandar-me para a reforma antecipada e ponham essa  coisa de IA.


    Venha ela e paguém  mais rendimentos minimos por falta de trabalho.

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  30. Albânia nomeia ministra gerada por inteligência artificial para combater corrupção
    A nova ministra da Albânia, incumbida de gerir as aquisições públicas, será impermeável a subornos, ameaças ou tentativas de favoritismo. A razão é simples: Diella é um “bot” gerado por IA.

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