A Voz dos Oficiais de Justiça: “Quando o teto cair”
Às quartas-feiras é dia da recente rubrica: “A Voz dos Oficiais de Justiça”, contendo artigos escritos pelos nossos leitores e que nos são enviados – para o nosso endereço de e-mail geral: OJ@sapo.pt –para aqui publicar neste dia da semana.
Hoje, vamos
reproduzir o artigo escrito pelo “Cronista da República das Pastas” que deu o
seguinte título ao seu artigo: “Quando o teto cair”.
E diz assim:
«Diz o povo, que
“a Justiça é cega”. Em Portugal, levamos a expressão demasiado à letra. A
avaliar pelo estado de muitos tribunais, a Justiça não é só cega: arrisca-se a
ficar soterrada por um teto bolorento ou a apanhar uma pneumonia enquanto
espera pela sentença. Não é metáfora. É coerência.
Se as paredes
falassem, as dos nossos tribunais não recitariam legislação ou jurisprudência,
soltariam, provavelmente, um suspiro de cansaço, um ranger de um pilar a ceder
ao ritmo melancólico de uma gota a cair num balde de plástico estrategicamente
posicionado entre a bancada dos magistrados e a mesa do oficial de justiça.
Fala-se muito da
lentidão dos processos, das reformas anunciadas, do milagre da digitalização.
Fala-se pouco das rachas nas paredes, da tinta a descascar, dos elevadores que
não funcionam, das instalações elétricas improvisadas, das secretarias onde o
frio entra pelos ossos no inverno e o calor derrete o discernimento no verão.
O tribunal
parece funcionar num edifício esquecido no orçamento. O lugar onde o Estado
devia mostrar a sua dignidade está, tantas vezes, ao abandono. E a mensagem que
passa é simples e perigosa: se o Estado não cuida da casa da Justiça, como irão
os cidadãos confiar plenamente nela?
Desde tribunais
instalados em contentores, soluções alegadamente "temporárias" que,
com a agilidade habitual do Estado, se tornam património histórico. Temos
palácios de justiça onde o aquecimento é um luxo e onde, no verão, a
climatização se resume a abrir uma janela, se a caixilharia ainda o permitir
sem ameaçar desprender-se da fachada.
É uma questão de
salubridade, segurança e, acima de tudo, de respeito!
O impacto na
saúde dos profissionais é real, os Oficiais de justiça e magistrados trabalham
entre bolor, a humidade e temperaturas que oscilam entre o frigorífico
industrial e o forno comunitário.
É difícil exigir
celeridade processual quando se escreve com luvas de lã ou quando a chuva nos
cai em cima dos sacos de plástico que nos protegem.
A
responsabilidade política atravessa governos e décadas. O desinvestimento
tornou-se política informal, mascarada de contenção orçamental.
Gasta-se em
estudos, consultorias e anúncios de grandes reformas, mas esquece-se o
essencial: a Justiça precisa de um teto que não meta água.
Adia-se o
problema. É invisível para quem decide a partir de um gabinete climatizado com
vista para o Tejo. Fica para depois. Para o próximo orçamento. Para o próximo
ciclo político.
Entretanto,
anunciam-se tribunais digitais e inteligência artificial em horário nobre,
enquanto as secretarias continuam a lutar contra a humidade que ameaça as
fundações. É como colocar um motor de Ferrari num carro que não tem rodas nem
tejadilho.
A Justiça não
vive apenas na nuvem. Vive em mesas, cadeiras, paredes e tetos. Vive nas
pessoas que ali trabalham todos os dias.
Quando um cidadão entra num tribunal
degradado, recebe uma mensagem silenciosa: isto não é prioridade. E quando vê
um balde a aparar água numa sala de audiências, a autoridade do sistema escorre
com a chuva.
Não faltam
relatórios. Nem alertas. Nem fotografias. O que falta é agir antes da
catástrofe.
Seria
interessante calcular o custo real desta negligência: os adiamentos por falta
de condições, a desmotivação de quem ali trabalha, a erosão da confiança dos
cidadãos. Talvez a conta fosse mais pesada do que qualquer obra feita a tempo.
Esperemos apenas
que, quando o teto cair, não esteja ninguém por baixo. Porque, nesse dia, nem a
melhor retórica política conseguirá explicar como deixámos a casa da Justiça
transformar-se numa ruína discreta, esquecida entre promessas de modernização.
E assim
seguimos: entre discursos futuristas e baldes estrategicamente colocados, entre
solenidade e o soalho a apodrecer, fingindo que as fissuras são decorativas,
aguardando que o teto não nos caia em cima.»
Reprodução do artigo remetido por e-mail de leitor que se auto-designou como: “Cronista da República das Pastas”.
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