Cenário de verdadeiro caos operacional
Ao longo de toda a semana, os Oficiais de Justiça depararam-se com grandes dificuldades diárias na tramitação dos processos e mesmo com impossibilidades absolutas e erros imprevistos, devido à transição de determinados aspetos informáticos pagos com os fundos europeus do PRR, na plataforma de tramitação processual nacional “Citius”.
A cada dia, as surpresas, as demoras e os inúmeros cliques para realizar um ato simples, já quase não suscitaram espanto a ninguém, em face da rotina e do hábito com que os Oficiais de Justiça vão lidando com os habituais contratempos informáticos.
Os Oficiais de Justiça já nem sabiam identificar o problema, se este provinha do seu próprio computador, se da rede ou da plataforma informática, ao fim e ao cabo era mais um dos habituais problemas a suscitar a habitual imensa paciência.
A este propósito, lemos na revista Visão um artigo de um elemento da Associação Sindical de Juízes (ASJP) que a seguir vamos reproduzir.
«No decurso desta semana, qualquer magistrado que abrisse a plataforma informática “Citius”, criada para a tramitação dos processos nos tribunais portugueses, poderia ler a seguinte mensagem: “O sistema de informação de suporte à tramitação processual continua a ser objeto de profunda reformulação tecnológica, correspondendo ao preconizado no PRR e no processo de adaptação ao novo paradigma, que se pretende mais digital”. Do ponto de vista da proclamação, tudo perfeito.
De facto, nos últimos anos, os tribunais portugueses têm sido sujeitos a sucessivas alterações do seu sistema informático. Mudam-se versões, atualizam-se plataformas, instalam-se “melhorias” anunciadas com entusiasmo técnico e linguagem modernizadora. No papel, tudo parece evoluir. Na prática, porém, o que se tem vivido, e em particular nestes últimos dias, é um cenário de verdadeiro caos operacional – um caos que atinge um dos pilares do Estado de direito: os tribunais enquanto órgãos de soberania.
A promessa da transformação digital na Justiça nunca foi modesta. Falou-se em eficiência, desmaterialização processual, simplificação, interoperabilidade entre sistemas, redução de pendências. A modernização tecnológica foi apresentada como instrumento decisivo para aproximar a Justiça dos cidadãos e libertar magistrados e funcionários de tarefas redundantes. Mas o que se observa hoje, no terreno, é exatamente o contrário: lentidão generalizada, desformatação automática de peças processuais, bloqueios constantes dos computadores (há muito obsoletos), falhas na gravação de atos e dificuldades no acesso a processos.
As recentes alterações ao sistema informático – feitas sem que exista qualquer melhoria evidente para quem trabalha diariamente nos tribunais – vieram agravar problemas que já eram conhecidos. A cada nova atualização, renova-se a sensação de que os utilizadores finais não foram efetivamente ouvidos, testados ou sequer considerados na conceção das mudanças. O resultado é um sistema que, em vez de servir a Justiça, parece exigir que a Justiça se adapte às suas limitações.
A lentidão tornou-se rotina. Operações simples, como abrir um processo, consultar um documento, submeter um despacho ou assinar uma ata, transformam-se em exercícios de paciência. Minutos que se acumulam ao longo do dia convertem-se em horas de produtividade perdida. Num contexto em que os tribunais já enfrentam elevados volumes processuais e escassez de recursos humanos, cada atraso informático tem um impacto exponencial.
Mais grave ainda é a desformatação automática de textos, a perda de documentos gravados, quer por magistrados, quer por funcionários, redundando em perda de horas de trabalho que podem, inclusivamente, ter efeitos jurídico-processuais concretos.
A instabilidade técnica não se limita ao software. São frequentes os bloqueios das máquinas, congelamentos de ecrã e encerramentos inesperados de sessões. Ora, computadores que deixam de responder a meio da elaboração de uma sentença ou de uma ata de audiência, como tantas vezes tem sucedido, são um fator de desgaste, desmotivação e, sobretudo, de risco real para a integridade do trabalho produzido. Qualquer destas múltiplas falhas diárias obriga a recomeçar, a confirmar e a reconstruir, alimentando uma sensação de insegurança e frustração.
Tudo isto ocorre sem que se identifique qualquer benefício palpável que justifique o transtorno. Não há redução visível de tempos processuais. Não há simplificação evidente de procedimentos. Não há melhoria na articulação entre sistemas. O que há é uma sucessão de alterações que parecem responder mais a calendários administrativos do que às necessidades concretas dos tribunais.
A Justiça não pode ser tratada como um laboratório permanente de testes tecnológicos. Os tribunais não são uma empresa privada onde falhas podem ser absorvidas como custo de inovação. São órgãos de soberania, com responsabilidade constitucional de administrar a justiça em nome do povo. Estes atrasos e erros informáticos estão, por isso, a gerar forte instabilidade que se repercute na vida de cidadãos, empresas e instituições.
Quando um sistema informático falha num tribunal, tudo se lentifica. Desde o processo da vítima de violência doméstica, ao processo da regulação das responsabilidades parentais, passando pelos processos de arguidos presos. A morosidade tecnológica e a falta de ferramentas informáticas adequadas apenas têm vindo a proporcionar um aumento manifesto da perceção de uma justiça lenta, para desespero de quem trabalha no sistema.
Há ainda uma questão de respeito institucional. Magistrados judiciais e do Ministério Público, oficiais de justiça, advogados e demais profissionais do foro não podem ser permanentemente confrontados com ferramentas que dificultam, em vez de facilitar, o seu trabalho. A exigência de produtividade e cumprimento de prazos mantém-se intacta, mas os instrumentos disponibilizados tornam-se mais imprevisíveis e menos fiáveis. Esta assimetria gera desmotivação e desgaste num sistema que já opera no limite.
Importa perguntar: quem avalia o impacto real destas alterações antes da sua implementação? Que testes são realizados em ambiente controlado? Que período de adaptação é concedido? Que canais eficazes existem para recolher feedback dos utilizadores e corrigir rapidamente as falhas identificadas? A modernização tecnológica não pode ser um processo unilateral e opaco. Essa transformação exige planeamento rigoroso, envolvimento dos utilizadores, fases-piloto, formação adequada e suporte técnico reforçado nos momentos de transição. Exige também humildade institucional para reconhecer erros e recuar quando necessário. Persistir em alterações sucessivas sem melhoria evidente é insistir num erro que mina a credibilidade do sistema.
E não se trata de rejeitar a tecnologia. Pelo contrário: a Justiça precisa de sistemas informáticos robustos, rápidos e intuitivos. A desmaterialização processual é uma conquista irreversível. Mas a tecnologia deve ser um meio ao serviço da função jurisdicional, não um obstáculo adicional. Modernizar não é mudar por mudar; é melhorar de forma mensurável e consistente.
O que se vive nos últimos dias deve servir de alerta. O caos informático nos tribunais não é um problema corporativo. É uma questão de funcionamento do Estado de direito. E neste contexto, importa não perder de vista que os tribunais atuam com base no princípio da independência, pelo que é absolutamente urgente que a gestão informática passe do Ministério da Justiça para os Conselhos Superiores. Tal como também é urgente uma avaliação independente e transparente das sucessivas alterações introduzidas. É indispensável estabilizar o sistema, corrigir falhas estruturais e garantir que qualquer nova mudança seja precedida de testes rigorosos e de consulta efetiva aos profissionais que o utilizam diariamente. A confiança na Justiça constrói-se também com eficiência e previsibilidade.
A modernização da Justiça é necessária. Mas modernizar não pode significar desorganizar. E muito menos pode significar paralisar, ainda que temporariamente, o funcionamento de órgãos de soberania. O Estado deve à Justiça — e aos cidadãos — sistemas que funcionem. O mínimo exigível é que cada alteração represente um avanço real, sobretudo num setor onde a estabilidade é condição de confiança democrática. Se os responsáveis políticos não retirarem as devidas ilações, esperemos então que as mesmas sejam tiradas por quem tem a responsabilidade de avaliar a boa execução do PRR. Quem está no terreno terá muito a dizer sobre esta matéria.»

Fonte: reprodução do artigo de Maximiano do Vale, vice-presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP), publicado na revista "Visão".
Quem dera que rebentasse de uma vez!!
ResponderEliminarO pior de tudo são as condições de trabalho. Falta de material a todos os níveis, programas lentos...
ResponderEliminarPara trabalhar é que nos pagam, não tirem é o que estava acordado.
Já nem artigo 59 se pode gozar.
Estão a brincar com os escrivães, e a seguir vão os secretários.
Já o estão a fazer com os administradores.
ResponderEliminarEis o estado a que chegou a justiça e para os trabalhadores da justiça,
Uma vergonha ! Uma palhaçada o que se passa nos Tribunais ao nível da informática e dos equipamentos fotocopiadoras telefones . Nem todos perdem ! Alguém ganha com isto ! De certeza que não são os magistrados , o público , os funcionários. Estou tão farto disto ! Faz hoje 26 anos que ingressei nos Tribunais ! Melhor tivesse partido uma perna ! Fdddddd
ResponderEliminarO dirigente das reflexões já anda outra vez a atacar no grupo do WhatsApp.
ResponderEliminarNão diz nadinha que se aproveite, é sempre a mesma banha da cobra ...
Relax, pessoal.
ResponderEliminarCom quase 30 anos de tribunais, o meu único foco neste momento é o dia 21!!!
Nunca vivi tão aliviado como agora.
Não me preocupo com inspecções, promoções, formações, com serviço atrasado, com absolutamente nada!!!
O meu único foco é o dia 21 de cada mês.
Roubalheira mesmo sim!
ResponderEliminarFilhos da p
Que grupo é esse?
ResponderEliminarEheh
E eu igual
ResponderEliminarMaldita hora
Eu só vim porque na altura as condições para reforma eram 36 anos de descontos e 55 de idade.
ResponderEliminarFomos bem enganados.
Gentalha de governantesecos sem palavra
https://oficialdejustica.blogs.sapo.pt/oficiais-de-justica-no-whatsapp-503414
ResponderEliminarMas está cheio, a abarrotar, e com uma lista de espera de largas dezenas.
Falam, falam mas não fazem nada, magistraturas, etc
ResponderEliminarE a dgaj é uma vergonha como funciona gere e trata quem trabalha
Ah esqueci-me tb não há envelopes ! Andamos afazer colagens nos envelopes com AR porque desse ainda vai havendo ! Qdo acabarem entregam se as notificações nos CTT e informamos que não há envelopes, Pais do terceiro.mundo!
ResponderEliminarNão sei em que tribunais trabalham mas ao longo de todos estes anos de carreira, e depois de já ter passado por 7 tribunais de 4 comarcas diferentes, nunca me faltou nada!!
ResponderEliminarA única situação semelhante foi o caso de um secretário que não dava material aos funcionários mas não é porque não o tivesse.
Tinha-o mas não o dava para chegar ao final do ano e ficar bem visto com a DGSJ (actual DGAJ).
De resto, por onde tenho passado, nunca faltou nada!!!
Nem papel, nem toalhas para as mãos, canetas, lápis e todas essas coisas.
Portanto, acho que aqui a culpa não será da DGAJ mas sim de quem governa (mal) os tribunais!!!!
Quem??
ResponderEliminarO Zé da boina???
quem se conforma nunca levanta, o outro pouca relevância tem e é rápido no funcionamento, pelo menos é assim que dizem.
ResponderEliminarLevanta, levanta!
ResponderEliminarAinda hoje de manhã levantou ... Duas vezes!
Tribunal de Penafiel
ResponderEliminarOs responsáveis qdo são chamados ou não aparecem ou aparecem muito tarde sem soluções. Bem pagos mas fogem dos juízos , das secções como o diabo da Cruz . Chu…..
ResponderEliminarEu trabalho no Tribunal de Sintra, nesta altura andamos a ser avaliados por um tal de Cabido. Todo a entrevista do avaliador anda à volta da desmaterialização, o homem não tem ideia que os processos andam físicos no tribunal. Tem a lata de fixar a pessoas
ResponderEliminarque tem mais de 15 anos disto que tudo o que fazem está mal. Diz que está tudo mal que não há falta de gente nos tribunais. A conversa dele gira em torno do E Tribunal e da desmaterialização, como se os magistrados do MP fossem na conversa.agora entendo a conversa da Dgaj e dos avaliadores, não temos mais gente porque as ferramentas os vão substituir
Exactamente, a reforma antecipada, as férias e o sistema de saúde, são uns ladrões. É como ne sinto, roubado.
ResponderEliminarVai levantar os ladroes conformados querida
ResponderEliminarGostas
Quem dera que as ferramentas nos substituam e que me mandem embora. Estou fartinho desta m.
ResponderEliminarCertinho e direitinhho
ResponderEliminarSubscrevo
ResponderEliminarPalavra dada, palavra honrada.
ResponderEliminarMudavam para quem viesse mas mantinham para quem cá estava.
Mudaram as regras a meio do jogo
ResponderEliminarOnde eu estou foi igual.
ResponderEliminarQueria mostrar como era poupada...
Sim, os magistrados ajudam bastante... São quem mais nos ajuda e o pior é que não se adaptam, não querem, e podem.
ResponderEliminarDevolvam o tempo congelado em anos a descontar para a reforma.
ResponderEliminarColega, que avaliadores ? que ferramentas?
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