Em Murça Ninguém Votou



      Em defesa do Tribunal de Murça (cujo fecho está anunciado para 31 de agosto próximo), bem como dos futuros e previsíveis fechos, ontem, as urnas em Murça ficaram vazias.


      Em todo este concelho do distrito e da futura Comarca de Vila Real, cerca de sete mil eleitores não votaram para a eleição dos deputados ao Parlamento Europeu, assim votando em protesto contra o breve encerramento do tribunal, do hipotético fecho do serviço de Finanças, do centro de saúde e até pela prevista introdução de portagens na autoestrada transmontana que é a única via rápida de acesso ao interior transmontano.


      Nenhuma das 85 pessoas destacadas para assegurar o ato eleitoral compareceu em nenhuma das 17 mesas de voto das 7 freguesias que constituem este município transmontano.


      Tem vindo a ser frequente que determinada secção de voto de determinada freguesia boicote os atos eleitorais, tal como muitas houve nestas eleições, no entanto, é a primeira vez que o boicote acontece num concelho inteiro.


      A situação surpreendeu a Comissão Nacional de Eleições (CNE), cujo porta-voz, João Almeida, admitiu não ter memória de umas eleições em que um concelho tenha ficado sem uma única mesa de voto. “Tivemos grandes boicotes, em sítios como a Trofa e Vizela [quando estas freguesias pretendiam passar a concelho, como acabou por acontecer]. Ter um concelho inteiro parado em dia de eleições é algo de que não me lembro”, disse.


      A falta de comparência dos cidadãos que deviam compor fez com que todas fossem encerradas por falta de condições para funcionar.


      O jornal Público mencionava um cidadão que afirmava: “Isto já estava a ser preparado há 15 dias e com o apoio da câmara que até dinamizou.” O presidente da Câmara de Murça, José Maria Costa, contudo, recusou admitir, ao mesmo jornal, essa intervenção no boicote. O autarca fez questão de salientar que a autarquia tem a “responsabilidade de organizar o ato eleitoral”.


      Os partidos não indicaram ninguém para integrar as mesas de voto e, por isso, a câmara teve de destacar 85 munícipes. Desses, 50 ainda avisaram que estariam indisponíveis. Mas o aviso, na sexta-feira, já chegou tarde.


      “Murça não quer ser só lembrada nas eleições. O que se passa em Murça é terrível. É o exemplo do que se passa nos concelhos do interior. Já estavam atingidos pela desertificação e agora ainda ficam sem serviços públicos. O interior tem de tomar uma posição forte”, disse o autarca que apoia o boicote “em defesa dos interesses dos munícipes”.


      “Não estamos cá só para pagar impostos e ficar sem nada. Pagamos para nos deixarem sem tribunal, Finanças e centro de saúde, enquanto o dinheiro vai todo para Lisboa?”, questionava António Morais no café central da vila, onde todos comentavam com orgulho o boicote.


      Ainda não há data para o novo ato eleitoral. O porta-voz da Comissão Nacional de Eleições explicou que, em casos como este, “e se os votos forem importantes para a definição dos resultados”, as eleições repetem-se “no mesmo dia da semana seguinte”.


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