Sobre os PJ do IGFEJ

      «O mundo informático rege-se pelo código binário. Um 1 é sempre um 1 e um 0 nunca é mais do que um 0. Não há dúvidas entre o certo e o errado, ou o verdadeiro e o falso. Mas no mundo real a verdade até parece ter dois lados. Mesmo quando o tema são os computadores.


      O Citius, sistema informático do Ministério da Justiça que liga todos os tribunais, bloqueou no dia da entrada em vigor do novo mapa judiciário. Demorou 44 dias a ser recuperado e o que começou por ser um problema tecnológico ou uma mera má decisão técnica transformou-se numa suspeita de crime de sabotagem informática que já está a ser investigada pelo Ministério Público e pelo procurador Pedro Verdelho, especialista em cibercrime. E agora a guerra é inevitável.


      De um lado estão os dirigentes do Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça (IGFEJ) que fizeram um relatório sobre o “crash” do Citius e apontam o dedo a dois informáticos que terão, de acordo com as conclusões do relatório, sabotado de propósito o sistema. A ministra Paula Teixeira da Cruz, apoiou as conclusões do relatório e foi ela que decidiu mandá-lo para a PGR por entender que existiam indícios de crime. “Enviei o relatório para que fosse ponderada, sublinho ponderada, a possibilidade de instaurar um inquérito”, disse a ministra no Parlamento, desmentindo ter alguma vez falado em “sabotagem”. No entanto, desde o primeiro dia insistiu num ponto: o problema tinha de ser resolvido e os responsáveis encontrados.


      “Não vão rolar cabeças antes de o problema estar resolvido”, prometeu na comissão parlamentar dos Assuntos Constitucionais. O próprio relatório refere a possibilidade de ter havido sabotagem.


      Do outro lado da barricada estão os dois visados, informáticos dos quadros da PJ, que, de acordo com uma fonte próxima, “recusam qualquer responsabilidade no falhanço da operação e muito menos numa eventual sabotagem”. Já contrataram um advogado para se defenderem de um possível processo criminal. Contactados pelo Expresso, nem Hugo Tavares, que dirigia o departamento de arquitetura de sistemas, nem Paulo Queirós, que coordenava o núcleo dos tribunais, quiseram prestar qualquer esclarecimento, porque “o processo está em segredo de justiça”. As duas partes encontraram-se na última quarta-feira, quando o diretor do IGFEJ, Rui M. Pereira, chamou os dois visados ao gabinete para lhes comunicar que cessavam ali as comissões de serviço e teriam de limpar as secretárias e apresentar-se no dia seguinte na PJ.


      “Foi-lhes dito que a situação nada tinha a ver com o relatório, mas que eram necessárias mudanças”, revela a fonte. “Nenhum acreditou.”


      Quem fez o quê?


      Hugo Tavares dirigia o departamento de arquiteturas de sistemas do IGFEJ. Foi ele que desenhou a forma como o Citius iria adaptar-se à mudança de 231 comarcas para as atuais 23. Paulo Queirós coordenava uma equipa deste departamento responsável pelas aplicações informáticas dos tribunais. Se estivéssemos a falar de uma casa, os dois visados seriam como arquitetos que tiveram de desenhar as paredes de uma casa que deixa de ter 231 divisões e passa a ter 23. Mas não participaram nas mudanças.


      A migração falhada dos 3,5 milhões de processos foi feita por outro departamento – o tecnológico – e a decisão de avançar no dia 1 de setembro foi tomada pelo Conselho Diretivo do IGFEJ. Em entrevista ao Expresso, Carlos Brito assumiu já ter sido ele a transmitir à ministra a informação de que o sistema iria estar pronto no dia do arranque do novo mapa judiciário. Então porque é que os dois informáticos da PJ são visados no relatório?


      O Expresso contactou Carlos Brito e Rui M. Pereira, os dois responsáveis do IGFEJ que assinaram o relatório entregue à ministra. Nenhum quis explicar quais os indícios criminais que encontraram nem porque é que os dois funcionários se tornaram suspeitos de um crime de “sabotagem informática”.


      Várias fontes contactadas pelo Expresso dizem que em causa estará o facto de os dois visados “saberem que o sistema tinha erros e de não os terem transmitido às chefias, ao contrário do que fizeram com Maria José Morgado, que nunca autorizou a adoção do Citius”.


      Agora, a diretora do DIAP de Lisboa não quis falar sobre o caso, mas no final de setembro disse que tinha sabido “do colapso” iminente. O Expresso sabe que outra das razões invocadas para a não adoção do Citius foram problemas de ligação informática com a PSP.


      E, de acordo com atas de reuniões divulgadas pelo Expresso em finais de setembro, houve vários alertas de que o calendário de cumprimento das tarefas não estava a ser cumprido e que a cinco dias da entrada em vigor do novo mapa judiciário só 87% do plano inicial estavam cumpridos. Nas reuniões de trabalho com os responsáveis dos conselhos superiores do Ministério Público e da Magistratura foi sempre considerado que o atraso era recuperável e a informação nunca foi transmitida à ministra. A questão agora é saber de quem é a culpa. Ou de que lado está o zero.»


      O artigo aqui reproduzido foi publicado na última edição do Expresso, sob o título “Quem matou o (já ressuscitado) Citius?”, artigo subscrito por Ricardo Marques e Rui Gustavo.


Artigo-Expresso-01NOV2014.jpg

Comentários

  1. José Mendes4/11/14 12:30

    Meu caro depois de encontrar os perfis dos dois "artistas" no Linkedin, só me resta rezar. Enfim são dois boys com cunhas nenhum deles com formação no assunto em questão, que mentem descaradamente. Enfim deve-se averiguar porque estes indivíduos foram parar a estes lugares e se calhar mais lá estarão. Um tem dois cursos de marketing na mesma escola, não deve ter percebido à primeira, o outro "mais competente" não indica a formação deve ser porque tem vergonha para o lugar que ocupa. Enfim, país desgraçado!!! Em Portugal toda "a gente" é informático, economista, futebolista, treinador e afins...falta-lhes os saberes...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Anónimo3/1/15 23:03

      São comentários como esse que desvirtuam a discussão...Ponto final!

      Eliminar
    2. Anónimo4/1/15 16:59

      Desvirtuam a discussão colocarem-se incompetentes sem formação na área!! Isto é mínimo, já agora porque não colocaram as 2 "bestas" como directores clínicos de hospitais e anónimo ia lá para tratarem de si?? O problema é de quem coloca e de quem colocado, ainda por cima sei do que falo. Se alguém chegasse ao pé de mim e me dissesse vai para o lugar tal, a minha primeira pergunta é qual é a minha função, se a resposta fosse por exemplo vai gerir o tipo de produtos agrícolas a plantar a região Centro, a minha resposta era NÃO, porque gerir, eu sei, agora qual o tipo de produção agrícola não tiria de ter total na equipa que me acompanhasse ora se fosse um tipo de Marketing, eu diria para irem brincar com o Camões!!! Capice. Cada macaco no seu galho. Para além das mentiras publicadas em DR por dos ditos, basta fazer uma busca simples para encontrar uma série de mentiras, que eu saiba e não sou jurista, dá direito a ser "despedido", não tivessemos uma Composição do TC completamente anormal e que não a Carta dos Direitos do Homem e dividiu os Portugueses em 3 tipos perante o emprego e o despedimento, este é o chamado princípio de Igualdade segundo o TC português, é a competência igual ou inferior ao ditos "informáticos" da PJ, que ao que sei na PJ não são Informáticos!!! Estranho ou não em Portugal, pois o tráfico de influências em Portugal é natural, como eu digo quem vai ao Hospital e não conhece ninguém é o primeiro a chegar, depois chega outro que conhece a senhora da limpeza passa à frente, depois chega outro conhece um administrativo passa à frente, depois chega outro conhece uma enfermeira passa à frente, depois chega o outro conhece o médico é logo atendido, o primeiro teve um ataque e morreu. É esta, infelizmente, a cultura portuguesa, o chico-espertismo a funcionar!!!!

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ministério da Justiça já tem novos mapas de pessoal da 1ª instância

A carreira dos Oficiais de Justiça é a terceira mais envelhecida da Administração Pública

Mais um acordo assinado e foi “uma grande vitória” e foi “o que se conseguiu”, diz o SFJ