O Tempo das Incertezas e o Fim do Tempo

     No último discurso de Ano Novo do atual presidente da República, Cavaco Silva, ficamos a saber que o seu tempo está a chegar (ou já chegou mesmo) ao fim, não vislumbrando, o ainda presidente da República, qualquer possibilidade de um futuro onde os portugueses ainda possam ser felizes e sentirem que têm uma vida pela frente.


     Este pessimismo do presidente da República é o pessimismo típico de muitas pessoas que, na terceira idade, já só acham que no seu tempo é que era bom e que atualmente, esta juventude, está perdida; sem futuro.


     Para além da idade avançada que parece tolher a energia e a capacidade de visão de um futuro com luz, aproxima-se ainda a situação de reformado do presidente Cavaco Silva, passando a não exercer qualquer cargo público, o que já não lhe sucedia desde tempos imemoráveis.


     Este conjunto de constrangimentos concluem na visão negra que o presidente da República transmitiu no seu discurso, quando afirmou que hoje se vive um tempo de incerteza e que neste tempo de incerteza só nos podemos agarrar a um modelo político, económico e social que temos que defender e que este modelo é aquele que vigorou nas últimas décadas.


     Ou seja, o que o presidente da República quis dizer é mais ou menos isto: “eu saio, mas não me desarrumem muito a casa porque senão eu já não dou com as coisas; deixem-me tudo no mesmo sítio porque eu gosto assim”.


     Ora, é precisamente isto que os portugueses não querem e não devem permitir. Os portugueses não querem e não devem deixar tudo no mesmo sítio, querem e devem desarrumar e voltar a ordenar as coisas de forma a que sejam eles mesmos a dar com as coisas e não aqueles que mantiveram tudo tão arrumadinho e tão garantidinho nas últimas décadas, que deu os lindos resultados que hoje apreciamos e nos esmagam com estúpida abnegação masoquista.


     "Vivemos um tempo de incerteza. Temos o dever de defender o modelo político, económico e social que, ao longo de décadas, nos trouxe paz, desenvolvimento e justiça", disse.


     Defender o mesmo modelo político? Defender o mesmo modelo económico e social? Que nos trouxe desenvolvimento e Justiça?


     Cavaco Silva afirma que "Olhamos o futuro sem saber o que este nos trará". É óbvio que não dispomos de nenhuma bola de cristal para adivinhar o futuro mas podemos facilmente deduzir que se as políticas desenvolvidas nas últimas décadas nos trouxeram até aqui, é bem provável que, se não as alterarmos, tudo continuará na mesma ou até para pior.


     No mesmo discurso, Cavaco Silva ressaltou as desigualdades sociais e a pobreza, apelando a um combate às mesmas, sem perceber que é o seu imobilismo, que defende, que não só permite a existência dessas anomalias sociais, como também as tem vindo a incrementar de forma escandalosa.


     "É fundamental combater as desigualdades e as situações de pobreza e exclusão social, que afetam ainda um grande número de cidadãos: os idosos mais carenciados, os desempregados ou empregados precários, os jovens qualificados que não encontram no seu país o reconhecimento que merecem", disse. Pois é precisamente por merecerem e porque todos os portugueses merecem uma vida melhor que urge despachar este tipo de pessoas com tão bolorento pensamento que, embora produzam discursos anuais com pontos politicamente corretos, em nada contribuem, na prática e na realidade da vida das pessoas, para a sua felicidade, bem pelo contrário, na prática vêm contribuindo apenas para o prejuízo constante e galopante das pessoas e do país.


     Aníbal Cavaco Silva, com 76 anos de idade, termina o segundo mandato como presidente da República a 09 de março próximo, quando será substituído pelo vencedor das eleições presidenciais, que estão marcadas para 24 de janeiro, com uma eventual segunda volta a 14 de fevereiro.


     Cavaco Silva concluía assim o discurso: "Temos de renovar o contrato de confiança entre todos os portugueses, aquilo que constitui a maior razão para acreditarmos num futuro melhor, para nós e para os nossos filhos. Com esperança no futuro, desejo aos portugueses – a todos os portugueses – um feliz Ano Novo".


     Que a próxima primavera nos traga um presidente da República que represente, não as suas imutáveis convicções, mas os valores republicanos que deve representar em nome do Povo.


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