E Agora o Tacho de Durão

      Já todos conhecemos a receita do bom tacho após o cargo político mas estávamos convencidos que era um fenómeno nacional especialmente relacionado com a nossa banca mas não, a coisa está hoje muito mais globalizada e ao pé de Durão Barroso o tacho da ex-ministra das Finanças é insignificante.


      Claro que Durão Barroso foi aquilo que podemos simplificar como nada mais nada menos do que uma espécie de presidente da Europa e já a ex-ministra das Finanças foi apenas isso, ministra das Finanças deste pequeno país em bancarrota.


      Durão Barroso vai assumir o cargo de presidente não-executivo da maior subsidiária do gigante financeiro Goldman Sachs e promete fazer tudo para “mitigar os efeitos negativos” do Brexit, segundo o que o próprio afirmou ao Financial Times.


      A possibilidade da saída dos bancos norte-americanos do Reino Unido, caso este perca o acesso ao mercado único da União Europeia, está em cima da mesa e o Goldman Sachs conta com o ex-presidente da Comissão Europeia para aconselhar e mover influências junto de Bruxelas. Ou seja: mover influências e aconselhar tais influências, isto é, aquilo que dizemos em Portugal, Durão Barroso terá como função ser o presidente da Cunha.


      “Ainda não sabemos ao certo qual será o desfecho das negociações”, prosseguiu Durão Barroso, referindo-se à manutenção das licenças bancárias britânicas para operar nos mercados financeiros da UE como “uma das matérias mais difíceis e sensíveis da negociação” que se seguirá à notificação da saída do Reino Unido da União Europeia.


      Dois anos depois da contratação de José Luís Arnaut para o Conselho Consultivo do Goldman Sachs, Durão Barroso volta a juntar-se ao seu braço direito no PSD e no governo português, desta vez na liderança de um banco de investimento.


      “Claro que conheço bem a UE e relativamente bem o ambiente no Reino Unido”, acrescentou Barroso, que substitui Peter Sutherland, o presidente do Goldman Sachs International que se demitiu no ano passado.


      “Os seus conselhos nesta altura de grande mudança e incerteza serão muito importantes”, declarou o ex-“chairman” sobre a contratação do seu sucessor.


      Segundo o Financial Times, o banco do Goldman Sachs no Reino Unido está sob a mira da Justiça em pelo menos dois negócios, um deles envolvendo o fundo soberano da Líbia durante o regime de Khadafi. A Autoridade de Investimento da Líbia (AIL) reclama nos tribunais ingleses 1200 milhões de dólares após perder todo o dinheiro em nove investimentos, nos quais o Goldman Sachs lucrou 200 milhões. Nas primeiras alegações em tribunal no mês passado, os líbios acusaram o banco de ter pago férias de luxo, jatos privados, reuniões em iates e prostitutas para os dirigentes líbios com quem negociavam. “É um banco de mafiosos”, disse um dos responsáveis da AIL em tribunal.


      O outro caso que está sob investigação diz respeito a um negócio com o fundo soberano da Malásia. A emissão de obrigações do fundo, no valor de 3000 milhões de dólares. A quantia, que seria destinada a um grande projeto imobiliário no país, foi depositada pelo Goldman Sachs numa conta do fundo na Suíça e metade do dinheiro desapareceu. Uma parte veio depois a ser localizada na conta bancária do primeiro-ministro da Malásia, disse no mês passado o Wall Street Journal.


      O Goldman Sachs é suspeito de ter infringido a lei de combate ao branqueamento de capitais. Esta terça-feira, o sítio malaio FMT News afirma que o banco ainda não foi acusado, mas o facto do negócio envolver o primeiro-ministro da Malásia e familiares – que a lei inclui no lote de “pessoas politicamente expostas” – pode levar também este caso à barra dos tribunais.


      Enquanto o nosso Presidente da República se congratula com o lugar concedido a Durão Barroso, considerando-o ao nível de um grande feito científico ou desportivo, isto é, que a capacidade desse português tenha chegado tão longe, se é certo que isso não deixa de ser verdade, também é certo que esse “tão longe” é tão fundo e tão negro que não devia impressionar o Presidente da República pela positiva mas pela negativa.


      “Termos um ex-presidente da Comissão Europeia a assumir o lugar de presidência no Goldman Sachs significa, na prática, que não há vergonha na elite europeia da qual Durão Barroso faz parte", afirmou Pedro Filipe Soares em declarações à agência Lusa.


      Esta contratação representa "mais um dos casos, não o único e infelizmente não o último" de "falta de vergonha de agentes privados e públicos", prosseguiu o líder parlamentar do Bloco de Esquerda.


      "Que a Goldman Sachs é um grupo económico com escolhas duvidosas, ninguém duvidava. Que tem uma fama perto de miserável, ninguém duvida", prosseguiu Pedro Filipe Soares, lembrando as responsabilidades do banco na crise financeira de 2008.


      Catarina Martins do BE diz que esta nomeação “envergonha o país” e que “não é nenhuma surpresa para quem conhece a natureza do que tem sido a governação europeia", enquanto que o jornal francês Libération põe em título que esta nomeação constitui “um manguito à Europa”


      "A governação económica europeia tem sido feita em nome do sistema financeiro e julgo que, de facto, a ida de Durão Barroso para a Goldman Sachs envergonha o país, não envergonha mais do que a cimeira das Lajes e, muito sinceramente, não é nenhuma surpresa para quem conhece a natureza do que tem sido a governação europeia", criticou Catarina.


      Segundo a líder do BE, o "banco de investimento agressivo e que é conhecido em todo o mundo pela falta de ética" está envolvido, "entre outros escândalos, na falsificação das contas da Grécia, que levaram ao primeiro programa de resgate e [conduziram] a Grécia para a situação complicada em que está".


      "Se alguém tinha alguma dúvida de que a governação europeia é uma governação feita ao sabor dos interesses financeiros, o facto de o ex-presidente da Comissão Europeia ir trabalhar para o banco que esteve no centro da crise financeira que nos trouxe à crise que estamos a viver hoje, retira todas essas dúvidas", observou.


      Para Jerónimo Martins, do PCP, esta nomeação é "mais um exemplo da União Europeia que temos hoje, neste corrupio em que um grande grupo económico envia quadros para a União Europeia e a União Europeia depois devolve quadros para esse grupo económico. Sem pretender fulanizar, é demonstrativo que esta União Europeia serve o grande capital e que os dirigentes colocados nas instituições têm esse objetivo".


      Passos Coelho não vê nenhum problema na nomeação de Barroso e afirma: "Eu não vejo nenhuma questão que possa deixar um conflito de interesses ou qualquer outra matéria que constituísse um impedimento dessa natureza".


      A secretária-geral adjunta do PS criticou a ida de Durão Barroso para o Goldman Sachs. Ana Catarina Mendes disse que “Durão Barroso foi presidente da Comissão Europeia nos piores anos do projeto europeu” e como prémio foi para o Goldman Sachs, “principal causadora da destruição dos direitos sociais na União Europeia”.


      Por sua vez, Durão Barroso, às críticas, disse que “se é preso por ter cão e por não ter cão”.


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