Administração Pública Perde 40 Funcionários Todos os Dias
De acordo com a Síntese Estatística do Emprego Público, divulgada há dias pela Direção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP), a 30 de junho de 2016, o emprego no setor das administrações públicas situava-se em 659’149 postos de trabalho, mostrando uma quebra de 9,4% face a 31 de dezembro de 2011, o que correspondente a uma redução de 68’024 postos de trabalho.
Isto é, nos últimos quatro anos e meio, a redução de funcionários públicos ocorreu a um ritmo de mais de 15 mil funcionários ao ano, isto é, de 1260 ao mês, a que corresponde um ritmo de cerca de 40 funcionários por cada dia do ano, todos os dias, úteis e não úteis.
Esta grande e abrupta sangria de funcionários públicos tem sido contrabalançada por uma simplificação de procedimentos administrativos e uma maior utilização de meios informáticos e automatismos informáticos. De todos modos, a velocidade das saídas não acompanhou em todos os setores a implementação suficiente de medidas compensatórias, verificando-se hoje graves deficiências de funcionamento em muitas áreas do setor público, a par de constantes reclamações dos cidadãos com imagens terceiro-mundistas de filas de espera interminável pelas ruas às portas de vários serviços públicos e com cidadãos a “acampar” de madrugada nas ruas para obterem os melhores lugares nas filas de atendimento.
A máquina pública é grande, volumosa e até pesada no seu movimento e carece de óbvia retificação; de adaptação às tecnologias de informação e às vivências atuais dos cidadãos mas isto não é tudo e não vale só por si.
A máquina gorda deve emagrecer, sem dúvida, mas deve emagrecer onde existirem gorduras para eliminar. O que o anterior Governo promoveu foi uma eliminação cega e geral, mesmo nos locais onde não existiam gorduras e onde não se poderia eliminar rigorosamente nada.
Dir-se-á que as saídas voluntárias por aposentação não foram motivadas pelo Governo mas foram e foram e de forma apressada, ao alterar repentinamente as regras da aposentação, todos os que puderam pretenderam ir desde logo e o mais depressa possível.
Os serviços ficaram carenciados de pessoal e se muitos serviços houve que por fruto de fusões e reorganizações foi possível suplantar a carência de pessoal, outros houve onde mesmo com reorganizações e malabarismos vários, a carência persistiu e o serviço piorou.
Note que durante os últimos quatro anos e meio, de acordo com a Direção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP), todos os dias, dos 365 dias de cada ano, todos os dias deixaram o serviço 40 funcionários públicos.
Nos tribunais e nos serviços do Ministério Público estas saídas também se verificaram ao longo destes mesmos últimos anos e mais atrás ainda, sem que houvesse uma reposição adequada às saídas, nem sequer minimamente aproximada, e, pese embora as muitas alterações legislativas, a retirada de muitos processos dos tribunais, os automatismos informáticos e a reorganização judiciária, o resultado a que hoje se assiste é o de um sistema judiciário que também faz filas enormes, não de pessoas à porta mas de processos em prateleiras, estantes, paredes, pelo chão e pelas secretárias, todos à espera de melhor oportunidade para serem tramitados.
A saída de Oficiais de Justiça e a não reposição dos elementos saídos com novas entradas e com a necessária mobilidade na carreira, veio provocar a estagnação e a injustiça do presente perante os cidadãos deste país.
A falta de Oficiais de Justiça continuará nos próximos anos, sem novas admissões e sem a necessária movimentação na carreira, não permitindo a colocação das pessoas das categorias adequadas nos lugares necessários.
O que tem sido feito até agora não se revelou suficiente. Os cerca de 600 novos ingressos do ano passado correspondem a menos de metade dos ingressos necessários e a recente movimentação para os 299 lugares de chefia, cujo movimento tarda a ser divulgado, devido à sua dificuldade e por ir provocar mais danos do que benefícios às secções, por, como já aqui se explicou, ter sido circunscrito àqueles lugares e categorias e não ter sido alargado a todos os Oficiais de Justiça, este movimento não só não foi refletido como é insuficiente e, além do mais, perigoso, por provocar muitos e perigosos desequilíbrios nas secções, sem existir a possibilidade de novos “Adjuntos” serem colocados para suprir as faltas que necessariamente se verificarão. Por tudo isto, e porque só agora, com a mão na massa, é que a DGAJ se apercebeu do erro do movimento extraordinário circunscrito, é que nos depararemos com um movimento que não será tão abrangente quanto inicialmente se pretendia, aliás, pondera-se até que os tais 299 lugares, afinal sejam menos, mais circunscritos ainda para aquelas secções onde a colocação do lugar de chefia não cause desequilíbrios nas secções, de origem e de destino. Como isto não foi pensado antes, o movimento corre agora o risco de colapsar-se ou de fazer colapsar e por isso tarda em ser divulgado.
Trata-se de uma constante e crónica má gestão dos recursos humanos baseada em conceitos simplórios errados e cálculos básicos, depositando toda a fé nas folhas de Excel.
Trata-se de não acreditar nas pessoas como tal mas como meros números e que a sua simples redução e supressão, a par de uma simples movimentação de algumas pessoas, pode satisfazer o conjunto e pode resolver a globalidade do problema.
Trata-se de errar, continuamente, repetidamente, sem aproveitar do erro a normal aprendizagem para não errar mais no presente nem no futuro.
Trata-se de substituir dirigentes, apenas substituir, novos por antigos, sem que haja conhecimento algum de facto sobre os assuntos ou sequer uma vontade de verificar os erros do passado, crentes que são que, por serem novos, recém-entrados, farão novo e melhor, porque se sentem melhores e mais capazes do que os seus antecessores, tal como os antecessores se sentiam em relação aos seus antecessores e assim sucessivamente, baseados numa ideia e numa crença que, paulatinamente, apenas tem resultado num cada vez pior desempenho.
Por outro lado, as entidades imutáveis como os sindicatos, têm estado a assistir, impavidamente como se desenrola o jogo para a final comentar os erros do árbitro, quando todos pretendem é que entrem em campo.
Havia um tempo em que havia funcionários públicos a mais, agora há a menos. Portugal tem dificuldade em encontrar pontos de equilíbrio. E não é só por questões monetárias, dispensassem uns quantos procedimentos inúteis, agilizassem outros e passava-se melhor com menos funcionários. A máquina pública também precisa de óleo nas engrenagens e de reduzir o frabrico e tachos.
ResponderEliminarAinda há funcionários a mais, por exemplo nas autarquias, mas os seus lugares só deveriam ser suprimidos depois de sobrarem, não antes.
ResponderEliminarSe a máquina se mantém na mesma não sobra gente, passa a faltar. Primeiro tem que se encolher a máquina e só depois ver quem sobra mesmo e não ao contrário, como se vem fazendo há muitos anos: suprimindo lugares, ou não os preenchendo, sem qualquer ajuste prévio na máquina, o que é uma insensatez.
Completamente de acordo.
EliminarÉ mais fácil probibir a entrada de novos trabalhadores na funcção pública do que decidir que procedimentos extingir e modificar, bem como implementar essas mudanças.
Daí haver uma tão grande prodominância pela mudança tecnológica como impulsionador para mudar o resto, contrata-se e/ou afeta-se umas quantas pessoas a desenvolver os sistemas informáticos e a implementá-los e melhorá-los, bem como dar formação. Não exige grandes decisões extratégicas, nem grande envolvimento da gestão e dos colaboradores em geral.
Mas não é um problema exclusivo do sector público. No privado simplesmente não se nota tanto. A dimensão do público, muito mais extensa e exigente é que faz a diferença. São problemas que têm uma origem de fundo, a sociedade.
Já para não falar nos esquemas "tapa buracos", que o sector público foi copiar ao privado. Falta auxiliares de educação, contratam quem quer que esteja inscrito no centro de emprego a receber subsídio, para programas de inserção e de estágio. Simplesmente no sector privado são mais exigentes.
Depois temos o povinho e a comunicação social. Hoje há muita informação disponível, tanta que há pessoas a entender que já nem vale a pena fazer formação a sério. E cada vez mais informação contraditória e errada. Os níveis de formação dos cidadãos em geral continuam baixos e o jornalismo anda pela ora da morte. Isto para chegar a um ponto. Continua a haver muita gente que pensa que os funcionários públicos são dispensáveis, que os há em excesso, que têm demasiadas regalias. Isso é um problema, enquanto houver ideias dessas (erradas, diga-se, é tal como no privado, podia-se dispensar alguns incompetentes, mas os competentes e que são a maioria são necessários) em força, as pessoas vão continuar a fazer as exigências/pressão erradas aos governantes e afins.