A Sorte e a Falta Dela

      Nesta semana, o jornal Público, publicava um artigo no qual elencava toda uma série de problemas nos edifícios judiciais. Desde as infiltrações à falta de segurança e tatos outros problemas, acrescentava a falta de Oficiais de Justiça, assim se referindo a esta falta: «Escasseiam juízes e procuradores, mas sobretudo Funcionários Judiciais, carência que se tornou crónica praticamente em todo o país».


      A propósito da falta de Oficiais de Justiça, cita o jornal o presidente da Comarca do Porto, quando aborda a falta que «é de tal modo dramática e os seus efeitos negativos de tal modo profundos que dificilmente será possível recuperar das suas consequências a curto prazo».


      Abordam-se algumas ilegalidades, como as condições das celas, os sistemas de segurança não só de deteção de armas/metais mas também de intrusão e de deteção de incêndio, as águas que escorrem por tetos e paredes e a solução nos baldes, os curto-circuitos, outras avarias e até o amianto nas instalações que continuam por remover.


      Menciona-se ainda a falta de climatização e os rigores das estações que chegam a interromper julgamentos, a videovigilância e a ocorrência frequente de episódios de agressividade e de violência, “que não poucas vezes acabam por envolver magistrados e Funcionários”, refere o presidente da Comarca de Aveiro.


      Menciona-se a palava “obsoleto” para caracterizar muitos aspetos do estado da justiça, especialmente o equipamento usado que, muitas vezes, como as câmaras penduradas por todo o lado, nada gravam, tal como os detetores de incêndio ou os detetores de intrusão que nada detetam.


      Por mera sorte e inexplicavelmente, nos serviços do Ministério Público e nos tribunais portugueses, não ocorrem desgraças diárias com os seus utentes, atos de agressividade e revolta ou intrusões fora de horas. Esta sorte inexplicável deverá estar relacionada com a ideia de que existe uma óbvia segurança, sendo até visíveis nas paredes detetores e câmaras, o que vem inibindo alguns atos, porque os potenciais criminosos acreditam (ao contrário do cidadão comum e dos operadores judiciários), que o Ministério da Justiça se preocupa de uma forma séria com a segurança das instalações e das pessoas.


      É esta crença que tem construído a sorte da falta de problemas e, consequentemente, também tem contribuído para o desleixo da segurança, uma vez que se verifica que, mesmo sem investimento nesta área, a sorte está lá, como elemento muito mais barato.


      No artigo do Público referem-se ainda as infestações de ratos e baratas e volta à falta de Oficiais de Justiça, referindo como exemplo as declarações do presidente da comarca de Beja, referindo que, “no passado ano judicial, teve de se desenvencilhar com apenas 60% dos Funcionários Judiciais que lhe deviam estar adstritos”.


      Em contraponto, refere o jornal que na Comarca de Lisboa Oeste, designadamente no Palácio da Justiça de Sintra, tudo corre sobre rodas, assim o afirmando o seu Administrador Judiciário.


      É sabido que o laboratório judicial de Sintra, detém um tratamento especial para que tudo corra sobre rodas, tendo todas as experiências aí realizadas resultados fantásticos que têm que ser exportados para o resto do país. No entanto, pese embora o Administrador Judiciário refira que as coisas na sua comarca correm muito bem, não é essa a mesma mensagem que sai de quem lá trabalha, designadamente, do Tribunal Piloto ou do Tribunal Laboratório, em Sintra, daí se ouvindo que as experiências levadas a cabo, não de forma esporádica mas de forma permanente, estão a prejudicar o trabalho normal nos processos.


      O jornal Público refere que o Administrador Judiciário se orgulha de algumas iniciativas como o facto de deter pessoas próprias para a realização de trabalhos de manutenção, contratados a uma empresa, contando a Comarca com três zeladores residentes. “Primeiro só estava abrangido o Palácio da Justiça de Sintra, mas conseguimos, pagando o mesmo, estender os seus serviços a todos os edifícios da comarca”, orgulha-se o Oficial de Justiça., acrescentando que “Seremos, provavelmente, uma referência para o resto do país. Sem isto, acho que nem conseguia gerir o tribunal.”


      Assim, se por um lado há uma verdadeira e quase inexplicável sorte nos serviços judiciais, relativamente à pouca ocorrência de problemas de segurança, por outro lado, há um grande azar que afeta primeiramente os Oficiais de Justiça, colocando-os numa situação crítica ou “dramática”, como a classificava um presidente de comarca, uma vez que a carência de elementos desta classe profissional, a par da falta de preenchimento de todos os lugares necessários em todas as categorias, vem resultando num mau funcionamento de todos os serviços, onde os Oficiais de Justiça cada vez mais apenas gerem o mínimo possível porque o máximo ou o médio se tornou inalcançável.


      Pode aceder ao artigo aqui mencionado através da seguinte hiperligação: "Público".


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Comentários

  1. Boa noite, o senhor administrador de Sintra deve viver no país das maravilhas. Em Sintra passa-se de tudo; desde chuva na sala 3.4, à falta de papel, fomos incentivados pelo senhor administrador a fazer notificações via email, à falta de envelopes. Todos os funcionários comem nas secretárias, claro que sem autorização, quanto há visitas temos que esconder a comida, uma vergonha. Quanto às impressoras é um escândalo, chegamos a estar 5 funcionários na mesma impressora à espera. As impressoras para imprimirem os PD's e os PR's são um atentado à saúde, o toner anda à solta, mas há internet para todas as pessoas que vão ao Tribunal com ecrãs todos bonitos. No meio disto tudo onde andam os sindicados?
    Quanto à falta de funcionários nem é bom falar. O Tribunal vive à base dos Escrivães Auxiliares que entraram na profissão à menos de 3 anos, quando forem em avaliados, sabe-se lá quando, vão-no ser nas mesmas condições dos colegas dos Tribunais onde não se passa nada. Onde andam os sindicatos?
    Mas trabalham na Comarca Piloto, é um luxo. Agora tivemos a notícia de que o nosso estatuto vai ser revisto por uma comissão que no seu elenco não tem um único Oficial de Justiça. Onde andam os sindicados? Provavelmente vamos vê-los, em grupo, a distribuir bilhetes para o circo e calendários, mas confesso é sempre um espetáculo, vê-los a passar a falar com todos inchados como se fossem muito importantes, eram-no se fizessem mais visitas, se oscultassem os colegas, não é só pedir para se associarem, não os vimos fazerem qualquer reivindicação, não os ouvimos, em suma; por onde andam os Sindicados?
    Penso que não sou só eu, mas não me sinto representado. A justiça é um edifício que tem telhado e paredes de ouro (leia-se juízes e procuradores) mas a base ( leia-se Oficiais de Justiça) é de barro, não pela sua qualidade mas sim pela forma como são tratados e já agora representados. Os oficiais de justiça lidam com a vida das pessoas com um pilar da sociedade: a liberdade, como se justifica que não sejam as suas funções tratadas como de especial complexidade, como os funcionários das finanças, pensam que não damos dinheiro ao estado?, vão espreitar os armários cheios de processos, vejam quanto dinheiro lá está parado!!!
    Por tudo isto e muito mais, por ao longo dos últimos anos não ter havido intervenção da "nossa parte" é que a profissão está completamente desacreditada. A justiça é lenta, não fazem nada de quem é a culpa para a opinião pública? nossa!! Penso também que muito desta situação é culpa dos governantes, quanto pior, melhor. Ninguém com maus resultados pode reivindicar muito. Se as associações de Juízes e dos Procuradores espirram, tem tudo. Só interessam as estatísticas, muitos julgamentos realizados, muitas sentenças lidas, e depois? prescrevem nos armários, aí de quem é a culpa? dos Oficiais de Justiça. Por onde andam os sindicatos?
    Só a grande qualidade dos Oficias de Justiça tem camuflado a situação. Quantos de nós ficam até muito depois das 17 horas, e vão ao sábado e domingo trabalhar? muitos.
    Desculpem este desabafo. Nem tudo é mau, é uma profissão absorvente e quando se tem a sorte de trabalhar em secções de bom ambiente até nos esquecemos das más condições e do quão mal tratados somos.
    Espero que a situação mude, mas a propósito; por onde andam os SINDICATOS

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    1. Concordo com o seu comentário, apenas acho que parte da culpa infelizmente é de muitos colegas(oficias de justiça), que permitem os maus tratados pelos procuradores e juizes (assunto tabu), e pelo fato de não se unirem, gostam de mostrar uma vassalagem cega (graxa) que faz lembrar a escravatura. Claro que se a postura dos oficiais de justiça muda-se e se fossem todos unidos acho que o paradigma mudava, agora tratam-nos como se fossem deuses do Olimpo, e se for preciso mal tratam os funcionários violando a lei do trabalho, com assédio moral, entre outras situações. Talvez existisse um sindicato que de fato começa-se a divulgar os comportamentos abusivos por parte desses senhores talvez seria uma forma de começar a atenuar tais comportamentos....Não se justifica a falta de respeito que os oficias de justiça são alvo.

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    2. ONDE ANDAM OS SINDICATOS

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