Os Bodes são Expiatórios e ainda Respiratórios

      O cidadão português, intoxicado pelos políticos populistas, costuma ter algumas ideias fulcrais sobre a Administração Pública e que são as seguintes:


      -1- Os funcionários públicos são tantos e tantos que são os responsáveis por todos os males do país, menos de metade chegavam e sobravam para o que fazem;


      -2- Cada vez que alguém recorre a um serviço público é uma seca por ter de esperar nas filas e não ver resolvido o assunto que pretendia tratar;


      -3- Ganham rios de dinheiro e estão sempre a pedir mais e mais;


      -4- Têm imensas regalias e não fazem nada, passam o tempo na Internet ou a tratar das suas vidinhas e, para concluir:


      -5- Antigamente é que era; volta Salazar!


      Estas bases do pensamento populista são todas falsas e até contraditórias em si mesmas, no entanto, são populares e, pontualmente, rendem votos e isso é o que verdadeiramente interessa.


      Por estes dias, temos vindo a assistir ao processo de renovação da implantação destas velhas ideias no povo eleitor, recorrendo, como habitualmente, ao sempre benévolo e disponível serviço dos mass media.


      O prato forte tem sido a discussão sobre o Orçamento de Estado, passando-se a ideia de que o Orçamento é para o país inteiro e não apenas para aqueles que estiveram uma década sem receber os salários devidos, diz Centeno e, portanto, todos, porque todos são Centeno.


      Não se esqueça que a causa dos professores, embora mais mediática e com mais tempo de antena, não é apenas dos professores mas de outras carreiras, entre elas, claro está, a dos Oficiais de Justiça.


      Toda esta intoxicação visa criar enjoo e náusea, seguida de repúdio e agonia, terminando na impossibilidade de qualquer partido se atrever a reivindicar o cumprimento daquilo que já havia sido decidido e poderia voltar a incluir-se, de forma mais concreta no próximo Orçamento de Estado, porque, a fazê-lo, cairia em desgraça na opinião pública já tão trabalhada que repugna tudo e todos que defendam esses bandidos que são os funcionários públicos; uns comedores e uns chupistas.


      Esta estratégia contaminadora e viral vem sempre surtindo efeito e todos os governos dela se aproveitam para saírem mais ou menos imaculados dos problemas e das trapalhadas em que se metem. Basta com debitar para a comunicação social acéfala e acrítica meia-dúzia de parangonas e já está, fica tudo em pantanas.


      E vem tudo isto a propósito dos dados do Eurosat sobre os funcionários públicos na União Europeia. Os dados, que foram ontem publicados pelo Eurostat (gabinete de estatística da União Europeia) fazem uma radiografia aos funcionários públicos na Europa. Quantos são e quanto ganham.


      Desses dados, constatamos que, afinal, o imenso mar de gente que em Portugal se considera parasita corresponde a um número muito inferior de muitos países e está mesmo abaixo da média europeia.


      Ou seja, Portugal situa-se entre os países da União Europeia onde o emprego público pesa menos e não onde pesa mais como é voz corrente.


      De acordo com os dados divulgados pelo Eurostat, em Portugal 15% dos cidadãos empregados eram funcionários públicos, em 2016, o que fica abaixo da média comunitária (16%).


      Os serviços públicos dos países nórdicos é que é bom, pois é, na Suécia, 29% são funcionários públicos, na Dinamarca são 28%, na Finlândia são 25%, na Estónia 23%, na Lituânia, na França e na Hungria são 22%... Pois é, quem quer qualidade e rapidez tem que ter meios para isso e os meios têm que ser humanos, porque para humanos são também.


      Em média, na União Europeia, um funcionário público aufere de vencimento 2600 euros brutos mensais.


      A título comparativo, os vencimentos médios privados na União Europeia, nas áreas das “finanças e seguros”: 3800 euros, nas “atividades profissionais e técnicas: 3500 euros e na “gestão de esgotos e águas”: 2100 euros.


      Já em Portugal, nas mesmas áreas, os valores descem, respetivamente, para 2500 euros, 1555 euros e 1074 euros, o que revela uma diferença significativa em relação à média comunitária.


      Na função pública, os melhores estados-membro, são a Dinamarca, com vencimentos médios de 4500 euros, a Irlanda: 4300 euros, a Suécia: 3700 euros e os Países Baixos: 3600 euros).


      Em contraste e no grupo de Portugal, encontra-se a Hungria, Roménia e Bulgária com vencimentos entre os 500 e os 700 euros.


      O jornal “online” Eco, especializado em assuntos de economia, fazia o seguinte título para estes dados do Eurostat, referindo que em Portugal, os funcionários públicos são “Poucos e mal pagos”, para explicar de seguida que os “funcionários públicos portugueses ganham menos 46 euros por dia que os colegas europeus”.


      O retrato do gabinete de estatística da União Europeia mostra que os funcionários públicos em Portugal ganham, em média, 1396 euros mensais, cerca de metade do que se ganha na Europa.


      De acordo com os dados da Direção-Geral da Administração e do Emprego Público, Portugal tinha 674379 funcionários públicos no final do primeiro trimestre de 2018.


      Se em termos de número de funcionários púbicos aparecemos na cauda da Europa, em termos salariais o cenário é idêntico.


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