E assim é Páscoa

      A ditadura e o fascismo, tal como as conceções e as práticas religiosas, bebem do mesmo cálice da ignorância e da completa falência da capacidade de raciocínio, aproximando os Homens aos animais e à sua natureza bruta.


      Ciclicamente assistimos às manifestações religiosas que estão incrustadas nas consciências putrefactas dos cidadãos anómalos, como agora nesta altura da Páscoa, tal como ciclicamente assistimos, com a mesma apatia, à mesma poluição social da ascensão das manifestações fascistas.


      Esta conspurcação social e mental carece de um “lava jato” que só não ocorre por mera falta de inteligência para compreender o fenómeno que pesa e abafa durante tantos anos, escondido nas cortinas das tradições populares, assim sobrevivendo, entre foguetes, aleluias, água benta e cabeças descerebradas.


      A Liberdade é um bem precioso que não está garantido e deve ser todos os dias polido, abrilhantado; soprado o pó conspurcador e cortadas as amarras que os animais lhe atiram e atam e atam.


      Se alguma memória há a preservar não é a memória da fétida sociedade tolhida, antes de tudo, pelas suas próprias mentes curtas, mas a memória dos tempos em que foi possível mudar.


      A Revolução de Abril de há 45 anos trazia consigo uma esperança e uma vontade de uma sociedade justa e equilibrada centrada na pessoa livre. Independentemente do método que se escolha para alcançar tal equilíbrio, tal equilíbrio ainda não se mostra cumprido quase meio século depois da mais bela das revoluções.


      As palavras gastaram-se e hoje dizer-se “25 de Abril Sempre!” é já algo tão insípido e parvo como dizer-se “Aleluia Cristo Ressuscitou!”.


      O Povo já não é quem mais ordena é apenas quem mais paga e vota. O povo até votou, deslumbrado, num presidente dos retratos e dos beijinhos que reza por todos nós e ao seu anjo da guarda antes de deitar.


      E isto ainda é Portugal: um projeto inacabado; umas instalações provisórias que duram uma vida; um país que há de ser, mas que há de ser se vier de fora, dos estrangeiros que aqui passam a viver, da União Europeia e seus fundos… Porque de dentro, dos próprios portugueses, por si sós, nada se há de conseguir.


      Ano após ano, os trabalhadores mostram-se cada vez mais empobrecidos porque foram chamados a pagar os desmandos dos outros e, pasme-se, pagam; pagam sempre e compreendem as vicissitudes que lhes contam e acreditam em tudo.


      Quase meio século depois da luz voltamos à penumbra e com um brilhozinho nos olhos provocado pelo “smartphone”; o novo (e mais um) ópio do povo.


BeijaPés.jpg

Comentários

  1. Boa Páscoa 😂

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    Respostas
    1. Boa Páscoa àqueles que trabalham e sempre trabalharam.
      Parasitas não faltam por aí.
      Um RSI no ativo, camuflado, pago em 14 meses ano sem nunca terem feito nada ao longo da vida. Nada é NADA. Zero.
      Muitos ainda perturbam quem quer trabalhar.
      Investiguem-se um a um...
      É difícil?
      Pobre Portugal, permissivo que nem daqui a 100 anos vai equacionar este tema.




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    2. Uma casa a arder. Passei por aí e a ideia que tenho é que há muita gente a mandar e poucos a trabalhar.

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  2. Excelente artigo de opinião no qual me revejo a 100%

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