Do Chafurdar na Lama e da Reverência
Em artigo publicado esta semana no "The Sydney Morning Herald", com o título: “How Germany closed its coal industry without sacking a single miner”, aborda-se o fenómeno alemão de encerrar toda a indústria do carvão na Alemanha sem despedir um único mineiro, explicando o processo que concluiu neste fenómeno com o qual cumpre aprender.
No blogue “Edições PQP” este assunto foi abordado da seguinte forma:
«Li este artigo acerca da indústria do carvão na Alemanha que chegou a empregar 607’000 trabalhadores e fechou as portas no ano passado sem despedir ninguém. Porquê e como? Isso é que é interessante.
Nos anos 50 a Alemanha estava tão determinada a tornar-se uma força para o bem que desenvolveu uma forma distinta de capitalismo, chamado o capitalismo renano, marcado pela aversão ao conflito. Isto significa que os sindicatos trabalham com as direções das empresas e participam, são consultados, nas grandes decisões de negócios. [chamam a isso, a este tipo de gestão, "Mitbestimmung" – sistema consensual que permite aos trabalhadores terem um papel ativo nas decisões de gestão das empresas e que lhes permite ter lugares no conselho fiscal]. Quer dizer, os alemães preferem o consenso e não deixam as situações chegar a conflitos.
É claro que isto implica levar em conta os interesses dos trabalhadores e não vê-los apenas como números que potenciam lucros, mas como pessoas, com direitos.
Isto é um exemplo muito interessante que podia ser seguido por governos: em vez de construírem estradas de abuso de poder, sonegação de direitos, ódio, de maus-tratos, de depreciação e, consequentemente, conflito, construírem estradas de consenso.
Em Portugal, os últimos governos construíram o seu poder sobre conflitos que os próprios governos iniciaram contra classes inteiras de trabalhadores. Como é sabido até houve ministros que se gabaram de terem destruído irreversivelmente as relações com os trabalhadores, “perdi os professores mas ganhei os pais”. Mas quem é que pode pensar que a educação ou a saúde ou outra atividade ganha quando se perdem, por hostilidade, os seus profissionais?
Calculo que as estratégias de hostilizar trabalhadores sejam a pensar na boa produtividade: é evidente que trabalhadores vítimas de abusos, calúnias, injustiças e atiçados uns contra os outros permanentemente em conflito têm maior produtividade e são um sintoma de uma democracia robusta que se quer melhorar a si mesma...»
Pois é, o exemplo alemão que gera inveja passa precisamente por isso: pela assunção de que os trabalhadores são parte fundamental e de sustentação de qualquer empresa/entidade, integrando-os na gestão e decisão a um nível desconhecido em Portugal e ainda pelo esforço, também desconhecido em Portugal, de não conflituar, hostilizar e muito menos desprezar os trabalhadores.
Em Portugal temos inúmeros casos de litígios laborais, sindicais, sociais… Extremamente gravosos para a sociedade no seu todo que, ainda assim, não merecem a atenção dos governos, dedicando-se estes, em alternativa, a confrontar os trabalhadores, a resistir a todas as lutas e encetando ações de descredibilização e de embuste.
Aqui, os trabalhadores são tidos como o inimigo a combater, assistimos a um número de greves nunca antes visto, temos os trabalhadores de muitas profissões completamente desavindos e desagradados com a profissão e com os seus decisores. E o confronto continua e as lutas sucedem-se e, ainda assim, todos os trabalhadores parecem invisíveis, sendo considerados apenas dados num formulário de Excel.
Os Oficiais de Justiça compreendem bem isto e são um excelente exemplo de como não se devem tratar os trabalhadores.
Mas é isto que temos: cargos eleitos e cargos de eleição, pedestais cheios de excelentíssimos senhores e de excelentíssimas senhoras que fedem como porcos que chafurdam na lama que lhes é comum. Tudo, obviamente, com a devida reverência de tantos trabalhadores.

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