Setembro continuará em espera
A campanha eleitoral interna do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ) vem servindo também para espicaçar alguns assuntos, exibir opiniões e despertar discussões. Em face disto, assistimos ontem a uma informação sindical do SFJ que interrompe o longo interregno das férias de verão. Neste despertar, aborda-se o envio de uma carta à ministra da Justiça.
A informação sindical ontem divulgada sintetiza-se no primeiro parágrafo que diz assim:
«O Sindicato dos Funcionários Judiciais solicitou, em 09.09.2020, à Exma. Sra. Ministra da Justiça, a marcação de reunião urgente, com o propósito de (re)iniciar, com urgência, processo negocial referente ao Estatuto Socioprofissional, no sentido de se concretizar a imposição que consta do art.º 38.º da Lei 2/2020, 31.03 (LOE).»
Em síntese, o que se pretende, é, mais uma vez, apenas e tão-só, o cumprimento da Lei, designadamente o citado preceito legal. Esta exigência advém não só da própria determinação legal mas também porque a própria ministra da Justiça referiu na Assembleia da República que até ao final do corrente ano cumpriria o que não cumpriu dentro do prazo legal previsto no referido preceito legal.
A informação sindical prossegue assim:
«Compreendemos que a situação que hoje vivenciamos é complexa. No entanto, não podemos deixar que todo o País fique parado, à custa de desculpas “esfarrapadas”, invocando-se com facilidade as dificuldades resultantes da pandemia, para se postergarem direitos.
Não compreendemos a inércia/letargia do Governo no que concerne ao (re)início da negociação do Estatuto do Oficiais de Justiça/Funcionários de Justiça.
Também é difícil de perceber/alcançar qual ou quais as razões para que o Governo não dê cumprimento a uma Lei da Assembleia da República, estamo-nos a referir, como é óbvio, ao cumprimento na íntegra do artigo 38.º da Lei 2/2020, 31.03 (Lei do Orçamento do Estado 2020).»
Obviamente que este espanto ora relatado advém do não cumprimento do prazo estipulado na Lei que, como se sabe, era até ao final do mês de julho passado, embora antes do termo desse prazo legal já a ministra da Justiça houvesse anunciado que não o observaria.
Recorde-se que o referido artigo 38º, incumprido, refere expressamente que o Estatuto revisto deveria estar publicado, isto é, concluído e publicado, até ao final do mês de julho e ainda a integração do suplemento remuneratório no vencimento e também um regime diferenciado de aposentação para os Oficiais de Justiça.
Na informação sindical do SFJ refere-se o Estatuto, a integração do suplemento e o “Mecanismo de compensação para os Oficiais de Justiça pelo dever de disponibilidade permanente.”
O artigo 38º da Lei 2/2020 de 31MAR refere o tal “mecanismo de compensação” mas já adianta que, entre outros aspetos, deveria ser atribuído um regime de aposentação diferenciado, isto é, entre outros possíveis aspetos, a possibilidade dos Oficiais de Justiça se aposentarem antes da idade geral atualmente prevista.
Recordemos o que diz, textualmente, o incumprido artigo 38º da Lei 2/2020 de 31MAR (LOE):
«Artigo 38.º - Funcionários judiciais
1 - A revisão do Estatuto dos Funcionários de Justiça, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 343/99, de 26 de agosto, deve estar concluída com a sua publicação no Diário da República até ao final do mês de julho de 2020.
2 - No âmbito da revisão referida no número anterior, deve ser concretizada a integração, sem perda salarial, do suplemento de recuperação processual, previsto no Decreto-Lei n.º 485/99, de 10 de novembro, no vencimento dos oficiais de justiça.
3 - No âmbito da revisão referida no n.º 1 deve ainda ser equacionado um mecanismo de compensação para os oficiais de justiça pelo dever de disponibilidade permanente, designadamente a atribuição de um regime de aposentação diferenciado.»
O SFJ refere que, para além destes assuntos mais urgentes, elencou outras matérias, que detalha, embora tais matérias sejam próprias da negociação a encetar pela revisão estatutária.
Os sindicatos, como o SFJ, nesta fase, não precisam de se dispersar em mil e um assuntos mas tão-só nos três números daquele artigo da Lei, porque aí está tudo o que interessa. Elencar isto e aquilo como aspetos que deverão integrar o novo Estatuto é uma perda de tempo, porque antes dessas matérias serem apreciadas, há que marcar o início ou reinício das negociações, nos termos previstos na Lei ainda pendente de ser cumprida.
A informação sindical vem cheia de aspetos diversos para quando se iniciarem as negociações sobre o Estatuto, como: a carreira especial de grau 3 de complexidade; o vínculo por nomeação; o acesso e a progressão na carreira; o regime especial de aposentação; o regime de substituição, com nomeações que preencham critérios transparentes sem o livre arbítrio dos Administradores Judiciários; os instrumentos de mobilidade com fixação de critérios rigorosos; concluindo com o assunto do preenchimento dos lugares vagos, aspeto este que o SFJ comenta assim:
«Lembramos que por incúria, má gestão ou opção política, temos assistido, desde o ano 2002, a uma redução dos Quadros de Oficiais de Justiça em cerca de 26%. Relativamente aos cargos de chefia verificou-se, por exemplo, na categoria de Secretário de Justiça, uma redução na ordem dos 75%, medida esta que mereceu o veemente repúdio do SFJ. Assim, os Tribunais têm um défice de, pelo menos, 1000 Oficiais de Justiça.»
E assim termina a informação sindical que reproduz parte da comunicação enviada à ministra da Justiça, comunicação esta que o SFJ também disponibiliza e da qual extraímos algumas passagens que a seguir reproduzimos, designadamente, o início da carta e o final da mesma.
Consta assim:
«Os estatutos socioprofissionais de todas as profissões (Magistratura Judicial e do Ministério Público), encontram-se devidamente aprovados e em vigor. O processo negocial referente ao estatuto socioprofissional dos Oficiais de Justiça/Funcionários de Justiça foi unilateralmente interrompido, por parte da Tutela, a 30 de maio de 2018.»
E prossegue a carta com a contabilidade em anos:
«Decorridos que estão mais de dois anos e apesar das várias insistências por parte do SFJ para que o processo negocial se (re)iniciasse, o Ministério da Justiça tem, de forma titubeante e oscilante, mencionando que o mesmo se iniciaria em breve.
Pouco mais de um mês após a tomada de posse do atual Governo (26.10.2019), ou seja, em Dezembro de 2019, o Ministério da Justiça informou, a solicitação nossa, que em breve se iniciaria o processo negocial de Revisão do Estatuto, até porque já se encontrava em funções um novo grupo de trabalho, com o propósito de apresentar ao SFJ a nova proposta de Estatuto. Todavia, até à data, o Ministério da Justiça não cumpriu os compromissos.»
E, em face dos dados mencionados na introdução da carta, do incumprimento da previsão legal expressa no artigo 38º da Lei 2/2020 de 31MAR, apresentou o SFJ algum prazo curto pela urgência, como 5 dias? Apresentou desde já um aviso prévio de greve? Referiu ir tomar alguma medida pela falta de cumprimento do artigo 38º e da negociação do Estatuto, da integração do suplemento, do regime diferenciado de aposentação? Referiu alguma ação para a cerimónia de abertura do ano judicial em janeiro próximo ou para a presidência de Portugal ao Conselho da União Europeia no primeiro semestre de 2021? Não, nada!
O SFJ apenas acaba de conceder – aliás em sintonia com o que o outro sindicato (SOJ) também já havia anunciado – mais um prazo de tréguas até ao final deste mês de setembro. Refere o SFJ que fica a aguardar uma resposta até ao final do mês para a marcação de uma reunião que, na carta refere ser urgente.
Consta assim: «Tendo em consideração o supra exposto, vem o SFJ solicitar uma reunião urgente com Vª. Exª. para que se dê início ao tão esperado processo negocial, no sentido de se concretizar a imposição que consta do artº. 38º da Lei 2/2020, 31.03 (Lei do Orçamento do Estado para 2020).»
E consta também assim: «Aguardaremos uma resposta de Vª. Exª. até final do corrente mês, para a concretização das matérias negociais supra expostas.»
Portanto, a reunião urgente, afinal não é assim tão urgente e o mês de setembro fica assim arrumado e descansado.
Já no passado dia 04SET aqui publicamos o artigo intitulado: “A Suspensão da Atividade Sindical em Setembro”, no qual anunciávamos este período de inação reivindicativa dos dois sindicatos. Na altura baseávamo-nos na afirmação do SOJ: «O SOJ sinalizou, ainda hoje, que durante o mês de setembro têm de ser dadas respostas aos Oficiais de Justiça e, a não serem dadas, agirá em conformidade, na defesa dos interesses da Justiça e dos seus representados.» e alegávamos que o SFJ estava ocupado nas suas eleições internas até ao final do mês e, de facto, assim é e com esta carta à ministra da Justiça fica também o resto do mês salvaguardado, sempre se podendo dizer que nada se faz porque se aguarda a tal resposta.
Assim, quanto a setembro, estamos conversados. O Ministério da Justiça não tem pressa e os sindicatos também não, pelo que continuaremos à espera.

Fontes: “Informação sindical do SFJ” e “Carta do SFJ à ministra da Justiça”.
A inércia/letargia não são só apanágio do governo. O SFJ é o primeiro a sofrer de tal. Continua a não reagir, a não antecipar, a não lutar, a não estabelecer metas. Em suma, continua a ser tudo o que a ministra quer.
ResponderEliminarDesgraça de representantes que nos haviam de calhar.
Despacho n.º 8732/2020 - Diário da República n.º 178/2020, Série II de 2020-09-11 142487145
ResponderEliminarPresidência do Conselho de Ministros - Gabinete do Primeiro-Ministro
Atribuição de subsídio de alojamento a João Veloso da Silva Torres, Secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor
Despacho n.º 8733/2020 - Diário da República n.º 178/2020, Série II de 2020-09-11 142487146
Presidência do Conselho de Ministros - Gabinete do Primeiro-Ministro
Atribuição de subsídio de alojamento a Rita Baptista Marques, Secretária de Estado do Turismo
Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada...
EliminarEm 27 de Julho o sfj, procurando "anestesiar" os colegas e afastar o descontentamento, veio prontamente referir que o chefe de gabinete do SEAJ tinha informado que as negociações se iniciaram em Setembro. O soj nada referiu mas recentemente o seu presidente veio dizer que foi dito que seria em Setembro, Outubro ou depois. Surge agora o sfj corrigindo o tiro, procurando anestesiar novamente o descontentamento, falando no art. 38, mas colocando tudo no pacote. Sabe perfeitamente ser imposdivel termos o estatuto com todas essas matérias em tempo. No fundo nunca destaca as duas matérias que importa redolver neste orcamento: aposentação e integração do subsídio. O tempo vai passando, nós entretidos com as camisolas do clube envergads e a ministra satisfeita, pois sabe que tem um sindicato muleta sempre disponível.
ResponderEliminarMas os colegas não se preocupem com este penar, porque os que estiveram no sindicato nos últimos anos irão continuar após as próximas eleições.
ResponderEliminarSerá esta a realidade do suposto "inconformismo" de todos!
Mais um informação sindical, para despertar o entretenimento, após um longo periodo de silêncio, que se pode resumir nos versos da seguinte canção infantil:
ResponderEliminar"Fui ao jardim da Celeste ou do (MJ) giroflé, giroflá,
fui ao jardim da Celeste ou do (MJ) giroflé, flé, flá.
O que foste lá fazer?
giroflé, giroflá,
O que foste lá fazer?
giroflé, flé, flá.
Fui lá buscar uma rosa 😀,
giroflé, giroflá,
Fui lá buscar uma rosa😂,
giroflé, flé, flá.
Para quem é essa rosa😅,
giroflé, giroflá,
Para quem é essa rosa😆,
giroflé, flé, flá."
Toda a gente sabe que o estatuto está pronto há muitos meses ... Está pronto e todos sabem bem o que lá está escrito. E nem reuniões vai haver. Se as houver serão apenas circunstanciais por que já está tudo decidido!
ResponderEliminarClaro que vão haver reuniões!
EliminarSenao no MJ ninguém iria conhecer os seus novos camaradas!
Este deve ter alguma demência, vive a afirmar coisas que a realidadé contesta. Mas todos os sistemas têm de ter um idiota útil. ..
ResponderEliminarNa verdade a realidade tem vindo a desmentir a existência de bombas inteligentes que alguns idiotas acreditaram!
EliminarEles aí andam, pelas comarcas a espalhar charme. Quando se trata de assuntos da classe, nada dizem, desaparecem e assim permanecem. Quando se trata de preservar o seu lugar na direcao, para novo mandato, para preservar o se status, eles fazem milhares de km. Espalhando o seu saber, que como sabemos e pouco e com pouco vontade.
ResponderEliminarÉ o que temos.