7880 Oficiais de Justiça Preteridos e Silenciosos

      Bradam inúmeras vozes na praça pública pela demissão da ministra da Justiça, por haver sido dito uma coisa, ou duas, que não correspondia à verdade, em relação a um indivíduo. Referimo-nos à polémica nomeação do magistrado do Ministério Público.


      O Ministério da Justiça alega que a falta de verdade se deveu à ocorrência de dois lapsos, precisamente nos dois aspetos que não correspondem à verdade.


      Não se trata de faltar à verdade, isto é, não se trata de mentiras ou de inverdades mas, ao que se diz, de meros lapsos.


      A opinião pública, no entanto, não entende que tais lapsos sejam apenas meros lapsos e, por isso, crê que a ministra da Justiça se devia demitir ou ser demitida.


      Este caso polémico, que ganhou relevo na comunicação social, põe em causa uma nomeação de um único indivíduo, designadamente daquela que foi preterida em favor deste preferido.


      Mas os casos de inverdades, mentiras ou lapsos que afetam, não um, mas 7880 Oficiais de Justiça, não têm sido objeto de nenhum apelo à demissão da mesma ministra da Justiça, designadamente, por parte dos próprios afetados.


      Sem ir mais longe, durante todo o ano passado, um ano inteiro, os Oficiais de Justiça foram sendo sucessivamente enganados.


      Logo a começar o ano, a 20 de janeiro de 2020, a ministra da Justiça, Francisca van Dunem, afirmava no Parlamento que nesse ano de 2020 seria "fechado o dossiê" relativo aos Oficiais de Justiça, respondendo a críticas do deputado José Manuel Pureza (BE) sobre o atraso na aprovação do Estatuto.


      Nesse mesmo dia, durante a audição conjunta das comissões parlamentares de Orçamento e Finanças e de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, no âmbito da discussão na especialidade do OE2020, a ministra da Justiça reconheceu que depois de terem sido já aprovados os estatutos dos juízes, dos magistrados do Ministério Público, da Polícia Judiciária e do corpo da Guarda Prisional, faltava agora o dos Oficiais de Justiça, reiterando que o dossiê das negociações "está fechado" durante o ano de 2020.


      «O Governo não esqueceu, nem esquecerá os senhores Oficiais de Justiça, cuja indispensabilidade ao funcionamento dos tribunais não sofre contestação, tal como é inquestionável o seu dedicado contributo para os resultados já alcançados.»


      Nada aconteceu.


MJ-FranciscaVanDunem-Mascara.jpg


      Logo um mês depois, a 25 de fevereiro de 2020, O secretário de Estado Adjunto e da Justiça, Mário Belo Morgado, publicava na suas página do Twitter a seguinte informação: «No Ministério da Justiça estão em curso e em fase adiantada os trabalhos internos tendentes à revisão do estatuto dos oficiais de justiça. Seguir-se-á de imediato a negociação com as estruturas sindicais.»


      Nada aconteceu.


      Em 17 e 18 de maio de 2020, ambos os sindicatos (SFJ e SOJ) relatam reunião com a DGAJ, informando que haveria promoções no Movimento Ordinário. «Fomos informados de que a DGAJ já solicitou autorização ao Ministério das Finanças para a realização de promoções de Auxiliar para Adjunto. O SFJ defendeu que a DGAJ deveria pedir urgência nessa resposta, e que deveria aguardar a resposta até final de maio para que, de imediato, se possam realizar as promoções. Entretanto, já enviámos ofício ao SEAJ a solicitar a agilização deste requisito formal para que se possa dar cumprimento ao retomar das progressões das carreiras, conforme consta da LOE/2020.»


      O SOJ refere nessa mesma altura que «pese embora a DGAJ tenha afirmado que já solicitou autorização ao Ministério das Finanças para efetuar promoções para a categoria de adjuntos – permanece na consideração de que devem ser realizadas promoções, também, para as categorias de escrivão de direito, técnico principal e secretário de justiça.»


      Releva ainda o assunto do Estatuto:


      Refere assim o SFJ: «Fomos informados que, durante os próximos quinze dias, o Sr. Secretário de Estado da Justiça convocará o SFJ para uma reunião com o intuito de se dar início ao processo negocial referente ao estatuto socioprofissional.»


      Por sua vez, o SOJ diz o seguinte:


      «A Senhora Diretora-Geral informou que o Senhor Secretário de Estado Adjunto e da Justiça irá, brevemente, apresentar a sua proposta de estatuto dos Oficiais de Justiça, vinculando este Governo à mesma».


      Não houve promoções nenhumas e o referido prazo de 15 dias ainda não terminou.


      Nada aconteceu.


SecretarioEstadoAdjuntoEDaJustica=MarioBeloMorgado


      No mês seguinte, a 25 de junho de 2020, a ministra da Justiça, na Assembleia da República, confirma que não vai cumprir a LOE2020, no que diz respeito ao artigo 38º, afirmando, perentoriamente, que "em julho não estará" cumprido; apontando, no entanto, a resolução até ao final do ano 2020.


      Disse a ministra assim:


      «Quanto ao estatuto dos funcionários, eu, já agora, relativamente a estatutos, queria dizer aqui o seguinte: Este Governo reviu o estatuto dos magistrados judiciais e do Ministério Público, o que o governo anterior não tinha conseguido fazer. Este Governo reviu o estatuto da Polícia Judiciária; este Governo fez uma intervenção no estatuto do corpo da Guarda Prisional; este Governo, de facto, em matéria de estatutos; teve também intervenção no que diz respeito às carreiras dos registos; basicamente, em matéria de estatutos, aquilo que o Governo tem, neste momento, referir-se-á aos Senhores Oficiais de Justiça que têm inteira razão para reclamar.


      Há, efetivamente, a norma orçamental que prevê que até ao final de julho estejam prontos os estatutos dos Oficiais de Justiça.


      Senhores deputados, eu tenho que dizer que não vão estar. E não vão estar por uma razão muito simples: nós tivemos dois meses e meio de paragem e nesses dois meses e meio não foi possível estabelecer, tivemos uma reunião só; só para estabelecer a negociação e, eu diria mesmo, da parte do Governo, houve alguma dificuldade em lidar com esses dossiês, uma vez que havia uma grande concentração de dossiês relacionados com a Covid e, portanto, em julho não estará.


      O compromisso que faço aqui é que, até ao final do ano, o compromisso é de trazer aqui o estatuto dos Oficiais de Justiça.»


      A ministra da Justiça diria ainda, interpelada para o efeito, que a hipótese de integrar já o suplemento e negociar a regime de aposentação não corresponde à vontade do sindicato maioritário.


      «Quanto à questão do suplemento, nós tivemos, aliás, nesta questão do tempo da pandemia, a propósito de outras questões, dos meios de contingência, com os dois sindicatos; as duas estruturas sindicais dividem-se nesta questão: uma delas entende que quer a questão da integração do suplemento de recuperação processual, quer a questão do regime de aposentação, devem ser tratados no quadro da reunião do estatuto. Depois há o segundo sindicato que acha que podíamos tratar agora apenas dessas duas questões, retirá-las, e tratá-las separadamente. Mas o sindicato, que eu penso que é maioritário, tem uma posição contrária a essa.»


      Ora, como bem se sabe, o ano 2020 já terminou e, portanto, estas declarações na Assembleia da República, constituíram, pela segunda vez, declarações vãs, porque nada aconteceu.


      A 09 de novembro de 2020, novamente no Parlamento, os deputados do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, e do PCP, António Filipe, interpelaram a ministra da Justiça sobre a falta do Estatuto dos Oficiais de Justiça, lembrando que “os problemas estatutários dos magistrados, mais bem remunerados, foi resolvido” e que não há a mesma disponibilidade para os Oficias de Justiça.


      Em resposta, a ministra da Justiça, a mesma e a própria Francisca van Dunem, disse que “o Estatuto está em fase de anteprojeto”, que o dossiê não está ainda fechado e não está fechado “por vicissitudes a que o Governo foi alheio”.


      O facto do Governo ser alheio e a culpa ser das vicissitudes é algo que todos deixa de boca aberta. E nada aconteceu.


      Nesse mesmo dia 09 de novembro de 2020, a ministra da Justiça levava um discurso escrito no qual constava que "A proposta de Estatuto dos Oficiais de Justiça foi enviada para publicação no BTE, com vista ao início da negociação sindical.". Depois de termos aqui divulgado o discurso escrito nesta página e o tal suposto envio para publicação da proposta de Estatuto, as reações dos Oficiais de Justiça e dos Sindicatos fizeram com que o Ministério da Justiça viesse a dizer que o que constava naquele discurso era um lapso e que não havia proposta nenhuma enviada para publicação.


      O nada continuava a acontecer.


      Depois de tudo isto, só no ano 2020, lapsos, vicissitudes e palavras vãs irreais, não seria dos Oficiais de Justiça, os tais afetados, os tais 7880, reclamarem a demissão da ministra da Justiça e do secretário de Estado e Adjunto da Justiça?


      O que é que se passa com estes 7880 profissionais da Justiça?


      No ano passado, 2020, durante todo o ano, apenas esta página expressou de forma concreta e inequívoca a necessidade de demitir a ministra da Justiça e fê-lo no dia seguinte ao termo do prazo que a Lei da Assembleia da República impunha ao Governo (no artigo 38º da LOE2020), Lei que não foi cumprida, nem nessa data nem em qualquer outra até ao presente (cfr. artigo de 01AGO2020 intitulado: “O incumprimento da Lei e a necessidade de demitir a ministra da Justiça”).


OJ-TotaisAnuais-Grafico2019.jpg

Comentários

  1. Anónimo4/1/21 08:21

    Vamos todos ajudar a Sra a ir embora, mas, por favor, que leve o sr. Belo com ela.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Anónimo4/1/21 08:49

      Cartão vermelho para esses senhores. Concordo.

      Eliminar
  2. Anónimo4/1/21 12:53

    "Mas os casos de inverdades, mentiras ou lapsos que afetam, não um, mas 7880 Oficiais de Justiça, não têm sido objeto de nenhum apelo à demissão da mesma ministra da Justiça, designadamente, por arte dos próprios afetados."

    Desculpe mas não é exatamente verdade. Faz agora em janeiro 2 anos (sim já lá vão 2 anos) e eu juntamente com vários milhares de oficiais de justiça dissemos presencialmente no terreiro do paço que estava na hora de a ministra ir embora, virámos-lhe as costas e acenámos-lhe com lenços brancos.
    É pena é que os srs. dos sindicatos tenham desbaratado e ignorado este autentico grito de revolta dos Oficias de Justiça e depressa tenham desistido de lutar. Pode ser que agora também já tenham coragem para o fazer...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Anónimo4/1/21 13:21

      Verdade!
      Terá sido a maior manifestação de OJ de todos os tempos!
      Os sindicatos não souberam o que fazer com tal demonstração.

      Eliminar
    2. Pois, mas há 2 anos... No ano passado (2020), perante as situações relatadas no artigo, nada sucedeu, tal como até ao presente.
      Referir que há 2 anos, há 5 anos ou há 20 foi de outra forma, é história, serve para aprender e recordar mas se não tem efeito/consequências no presente ou no futuro, então é apenas uma curiosidade histórica.

      Eliminar
  3. Anónimo4/1/21 16:21

    excelente trabalho deste blogue! parabéns e não se deixam abater nunca! obrigado e bom ano 2021

    ResponderEliminar
  4. Anónimo4/1/21 16:51

    © Fornecido por SIC Notícias

    "O diretor-geral da Política de Justiça, que se demitiu esta segunda-feira, garante ter recebido instruções da ministra Francisca Van Dunem para elaborar a carta enviada ao Conselho da União Europeia e que tinha informações falsas sobre o curriculum de José Guerra, o magistrado escolhido pelo Governo para Procurador Europeu.

    A carta foi enviada em novembro e o antigo dirigente assegura que a ministra da Justiça tinha conhecimento de todo o conteúdo.

    Num comunicado a que a SIC teve acesso, Miguel Romão assume os erros administrativos, mas afirma não ter sido ele nem os seus serviços, os responsáveis pelas informações erradas."

    ResponderEliminar
  5. Anónimo4/1/21 17:39

    Tenham em atenção uma coisa: poderão não gostar desta senhora ministra, é compreensível. No entanto, se for substituída por outro(a), serão mais uns dois ou três anos só para estudar os dossiers. Ou seja, é o que resta da legislatura o que significa que absolutamente nada será feito até ao fim da mesma!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Anónimo4/1/21 17:57

      Com ela não estou a ver jeito nem vontade.

      Eliminar
    2. Anónimo4/1/21 20:33

      Há ainda quem gosta de ser enganado!...

      Eliminar
  6. Anónimo4/1/21 19:13

    SOJ, pede a demissão da Ministra, por esta e todas as outras mentiras.

    E o SFJ, consultada a página... está ainda na passagem do ano.

    Tristeza de vida a nossa.!!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Anónimo4/1/21 20:49

      Não basta pedir a demissão, é preciso agir!

      Apresentar queixa à Provedora de Justiça Europeia,

      Pedir audiências aos deputados eleitos para o Parlamento Europeu,

      Estar presente no Parlamento no dia em que a Senhira Ministra aí se deslocar para justigicar os lapsos,

      Estar presente no dia da cerimónia solene da abertura do ano judicial,

      Apresentar de uma vez por todas "a bomba inteligente".

      Está a demorar mais tempo, muito mais tempo, que demorou a desenvolver a vacina para combater a Covid-2019!...

      Os nossos cientistas da política sindical, de prazo em prazo e de mais prazos, vão adiando a apresentação da "bomba inteligente" e da luta dura e longa!...

      Já não há "tubo de ensaio" que resista!....

      Eliminar
    2. Anónimo4/1/21 21:03

      Com a estrutura escolhida do SFJ não vamos lá.

      Para além da incompetência presente muitos deles estão ligados ao partido do governo habituados a mentir e a omitir

      Os sócios devem exigir a defesa da classe... e não servir apenas para pagar quotas.

      Eliminar
    3. Anónimo4/1/21 22:18

      Há dois anos também estive no Terreiro do Paço... estive na Assembleia da República, estive e tenho estado sempre que somos chamados a mostrar o nosso descontentamento pela forma indigna como os Oficiais de Justiça têm sido tratados e esquecidos...
      O que não entendo é este silêncio ensurdecedor por parte de quem devia gritar aos quatro ventos o que se tem passado e as inverdades, mentiras e falta de lealdade com que temos sido tratados. Onde estão os nossos Sindicatos, onde estão aqueles que deveriam estar na primeira linha para nos fazer ouvir?... Se calhar afastados à demasiado tempo do "terreno" para compreenderem o que custa dar tudo sem nunca receber nada em troca...

      Eliminar
    4. Anónimo4/1/21 22:21

      Temos uma janela de oportunidade de, talvez, uma semana, 10 dias. Se não a aproveitarmos agora, não sei quando vai ser.
      Amanhã tem que começar a ser feita pressão a sério.
      SFJ há que agir agora.

      Eliminar
    5. Anónimo4/1/21 22:25

      Concordo plenamente. Sugiro a anularem a inscrição como sócios dos sindicatos e veremos quantos aderem. Meia dúzia !!!!

      Eliminar
    6. Anónimo4/1/21 23:33

      Na abertura do ano judicial seria uma bomba, mas vai haver cerimónia com a covid?

      Eliminar
  7. Anónimo4/1/21 22:21

    Esta pseuda magistrada não tem palavra nem verdade.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ministério da Justiça já tem novos mapas de pessoal da 1ª instância

A carreira dos Oficiais de Justiça é a terceira mais envelhecida da Administração Pública

Mais um acordo assinado e foi “uma grande vitória” e foi “o que se conseguiu”, diz o SFJ