O Súbito Mini-Movimento Extraordinário

      Está aberto, desde ontem, um Movimento Extraordinário, denominado de “Fevereiro”, embora anunciado em março. Sim, subitamente, em março, é anunciado um movimento de fevereiro.


      Tal anúncio, só por si, acaba por acrescer à demonstração da desconsideração a que estão votados os Oficiais de Justiça deste país, uma vez que nem algo tão básico como um anúncio de um pequeno Movimento é realizado de forma atempada ou antecipada, isto é, pelo menos anunciado em fevereiro para que assim se possa denominar, uma vez que o Movimento de Março que se chama Fevereiro só parece apelar à dimensão curta, tanto do mês como do próprio Movimento.


      É certo que o mês de fevereiro foi mais curto e isso pode bem ser uma boa desculpa, a par da pandemia, para as vicissitudes havidas na divulgação da abertura do dito Movimento Extraordinário de Fevereiro de 2021. Aliás, se fevereiro não fosse um mês assim com estas manias curtas e tivesse 31 dias, como um mês decente, então, o anúncio teria sido publicado ainda em fevereiro, mas não, afinal só tem 28 dias e, por acaso, já há algum tempo que é assim.


      E qual é o propósito deste Movimento Extraordinário? Será o de corrigir as faltas das promoções que não se fizeram até ao final de dezembro do ano passado? Será possibilitar aos Oficiais de Justiça uma colocação mais perto dos seus domicílios de origem e, por conseguinte, dos seus familiares, proporcionando bem-estar, diminuição de despesas, etc.? Não! Nada disso. O propósito deste Movimento é o de tentar suprir aquilo que não se conseguiu nos outros movimentos e mesmo com as colocações oficiosas dos candidatos a entrar na carreira.


      Note-se bem que o estado da carreira é de tal ordem que, apesar das carências generalizadas, o último concurso para colocar uns poucos, apenas uma centena de novos elementos, ocorrido em 2019, conseguiu colocar apenas 78 novos Oficiais de Justiça, desperdiçando-se 22 lugares nos 100, o que é considerável.


      As colocações ora pretendidas com este Movimento Extraordinário do mês passado são para as Comarcas de Lisboa Norte e Lisboa Oeste, e apenas para um total de quatro núcleos destas comarcas: Loures, Vila Franca de Xira, Cascais e Sintra. Ou seja, para localidades onde os arrendamentos são mais elevados do que noutros locais do país, portanto, menos atrativos para os Oficiais de Justiça em geral e em especial para os das categorias de ingresso (Auxiliares) que auferem os vencimentos mais baixos. Por isso mesmo se verifica a carência de preenchimento desses lugares.


      Consta assim no aviso publicado no Diário da República:


      «(…) destinado ao preenchimento de lugares vagos nos núcleos de Loures e Vila Franca de Xira, do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Norte, e nos núcleos de Cascais e Sintra, do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Oeste, núcleos que registam uma falta de funcionários judiciais não suscetíveis de serem colmatados com recurso ao quadro da Comarca.»


      Quer isto dizer que não se mostra sequer viável deslocar Oficiais de Justiça de outros núcleos dessas comarcas para suprir as necessidades nesses núcleos e, por tal motivo, se recorre a este mini-Movimento.


      No despacho da diretora-geral da Administração da Justiça consta ainda assim:


      «Considerando que os Tribunais Judiciais das Comarcas de Lisboa Norte e Lisboa Oeste apresentam neste momento um défice de recursos humanos muito superior à média nacional. Considerando a concreta situação destas Comarcas nomeadamente no que respeita aos núcleos de Loures, Vila Franca de Xira, Cascais e Sintra, cujos elevados défices de Oficiais de Justiça colocam em causa uma resposta atempada em áreas especialmente sensíveis e de caráter urgente».


      A reter: «elevados défices de Oficiais de Justiça colocam em causa uma resposta atempada em áreas especialmente sensíveis e de caráter urgente».


      É este o estado pré-calamitoso de uma carreira que se desfaz.


      Mas será que este pequeno Movimento ora anunciado vai fazer aparecer Oficiais de Justiça para estes lugares? Será que basta abrir um Movimento restrito para solucionar as carências de Oficiais de Justiça, sem qualquer novo ingresso? Claro que não. Aliás, este mesmo método já foi tentado no passado, com resultados ridículos.


      Consta ainda do Aviso publicado no DR o seguinte:


      «A identificação dos lugares a preencher nestes núcleos, bem como outra informação que seja relevante, encontra -se disponível para consulta na página eletrónica da Direção-Geral da Administração da Justiça.»


      Desconhecem-se quantos lugares vagos estão disponíveis para este Movimento. A DGAJ não indica nada sobre isto mas, obviamente, não são apenas quatro lugares, um em cada núcleo. No entanto, se este Movimento movimentar apenas quatro Oficiais de Justiça, como se desconhecem quantos lugares vagos existem e vão ao Movimento, não se poderá saber, no próximo Movimento, quantos são os lugares vagos a que podem concorrer aqueles que não detêm ainda dois anos de permanência na atual colocação.


      A omissão da indicação do número de lugares vagos que se pretende preencher agora constitui mais uma desconsideração pelos Oficiais de Justiça, para quem se considera ser desnecessário informar de forma completa, clara e transparente.


      As decisões do passado e do presente deste Governo, ignorando os Oficiais de Justiça nas suas justas reivindicações e atentos alertas, designadamente, com uma revisão do Estatuto que permita o acesso a mais candidatos, vem provocando estes problemas e todo este mal-estar na carreira, carreira esta que cada vez é menos apelativa com o congelamento das promoções, o estrangulamento de ingressos por requisitos desatualizados e o súbito aumento na idade de aposentação em mais de uma década.


      Atualmente, os ingressantes na carreira têm um único propósito: conseguir o vínculo à função pública para poderem concorrer a tantos outros lugares de outras carreiras mais apelativas e às quais o Governo não presta este mesmo tipo de desconsideração. De todos modos, tal vínculo não é tudo na vida e, por isso mesmo, o concurso de entrada de 2019, em vez de colocar os 100 autorizados só conseguiu colocar 78, sendo este número obtido à custa de forçadas colocações oficiosas.


      O Governo e os governos anteriores vêm desgraçando a carreira e as pessoas que a compõem, numa morte lenta que é já tão visível desde fora que os candidatos preferem desistir da carreira a suportar aquilo que antes se suportava porque havia outros motivos para isso, designadamente, na existência de um regime de aposentação diferenciado e numa mobilidade entre categorias em permanente atualização, a cada Movimento com uma verdadeira movimentação alargada em vez de uma movimentação tão restrita a nem uma meia-dúzia de lugares.


      Este Movimento Extraordinário de Fevereiro ou de Março tem todos os condimentos para ser um fiasco.


      Outro dos aspetos controversos é saber quando termina o prazo de dez dias para apresentação das candidaturas ao Movimento. Por um lado há que considere que esse prazo só se deverá contar após o termo da atual suspensão de prazos, o que poderá atirar o prazo para abril mas, por outro lado, há quem considere que este prazo poderá não ser suspenso, suspendendo-se, no entanto, o prazo para a audição prévia dos interessados com a divulgação do projeto do Movimento.


      Seja como for, a rapidez que se pretende implementar acabará sobrepondo este Movimento Extraordinário ao Movimento Ordinário deste ano, correndo prazos em simultâneo e podendo fazer suceder com que haja Oficiais de Justiça a concorrer a ambos Movimentos, ao mesmo tempo, o que é algo verdadeiramente anormal e só acrescenta problemas, problemas estes que, como é sabido, resultam em atrasos e em eventuais buracos nas colocações previstas que, assim, ficam por preencher.


BorboletaPresaPedra.jpg


      Fontes: DGAJ: “Despacho”, "Ofício Circular” e “Aviso DR”.

Comentários

  1. Anónimo4/3/21 08:51

    Como é possível existir défice de auxiliares nestes tribunais e existirem destacamentos feitos por auxiliares que estão colocados nestes mesmos tribunais que são deferidos, para serem colocados em outros tribunais que segundo diz a dgaj tem excesso de funcionários. Alguém me consegue explicar?

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    1. Anónimo4/3/21 08:59

      Incrível. Nesses mesmos núcleos?

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    2. Anónimo4/3/21 17:56

      Sim, nesses núcleos eu sei de casos que se passaram e não tem muito tempo por isso cada vez mais na minha opinião a dgaj e quem lá está no comando não tem noção do que os ofíciais sofrem e os sacrifícios que fazem eles e as suas famílias anos e anos longe da família muito triste...

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  2. Anónimo4/3/21 12:22

    E evidente que vai ser uma fiasco. Mas quem é que quer ir para serviços atulhados de processos atrasados, em tribunais localizados em locais onde o custo de vida é mais caro. Ainda se fosse para promoção , talvez alguém estivesse interessado.
    Por outro lado, retirar funcionários de um tribunal para outro não resolve qualquer défice de funcionários. A manta é curta, tapa-se de um lado e destapa-se do outro.
    É urgente dotar os serviços do número de funcionários que são necessários e quanto mais tarde pior.
    E , assim vamos andando nesta alegre tristeza.

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  3. Anónimo4/3/21 12:47

    SOJ:

    (...) compete ao Parlamento Português dignificar o Estado de Direito Democrático e, evitando mais delongas, alterar o DL n.º 4/2017, de 6 de janeiro e o DL n.º 485/99, de 10 de novembro, de acordo com o determinado na Lei de Orçamento de Estado.

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  4. Anónimo4/3/21 13:32

    Ouvi dizer que se não houver candidatos suficientes para os lugares vagos, haverá colocações/transferências oficiosas de auxiliares colocados em núcleos e comarcas do interior.


    Aceita quem quiser, quem não aceitar vai para as listas da mobilidade e ao fim de certo tempo é-lhes cortado o vencimento.

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    1. Anónimo4/3/21 13:42

      estalinismo não. embora haja quem goste, como parece.

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  5. Anónimo4/3/21 16:40

    NÃO SERÁ BEM ASSIM. QUEM LHE DIS?SE

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  6. Anónimo4/3/21 17:12

    Os oficiais de justiça têm muitas queixas da tutela mas a tutela não tem culpa de existirem quase 1500 em baixas prolongadas. A tutela deu cabo da profissão mas os oj e os seus sindicatos ainda ajudaram. A profissão não tem futuro. Basta ver o comunicado do SFJ de hoje para se perceber que continuam a tocar uma guitarra que ninguém ouve.

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    1. Anónimo4/3/21 18:41

      Não?
      A Tutela não tem culpa da situação?
      O mais provável que é que a maioria desses 1500 OJ tenham dado "tilt".
      Deram à profissão tudo o que tinham. A compensação era a reforma aos 55 anos e 36 de serviço.
      Quem mudou as regras a meio do jogo? Foram os OJ?
      Tanta falta de conhecimento...

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  7. Anónimo4/3/21 17:32

    Ahhh caneco, a partir de 2022 eu Oficial de Justiça já me reformo com 65 anos e por inteiro, mas todo roto!

    Mas já lá estaria há 10 anos atrás se não fosse o Sócrates!!!

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    1. Anónimo4/3/21 17:37

      É verdade! E quem era o ministro da justiça, quem era?

      Pois, o Sr. Costa.

      Não tenham memória curta.

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    2. Anónimo4/3/21 18:28

      Errado.
      Costa foi M. da Justiça no governo de Guterres! (1999-2002).
      Daí Costa saber bem que o subsídio de recuperação é vencimento!

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    3. Anónimo4/3/21 18:32

      Apoiado a 100%

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    4. Anónimo4/3/21 19:01

      Errado?

      Informe-se.


      Alberto Costa era o ministro.

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    5. Anónimo4/3/21 19:03

      .... Já diz o povo , "a Maria vai com as outras" !

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    6. Anónimo4/3/21 19:13

      Alberto Costa e NÃO António Costa!
      Os ministros da justiça de Sócrates foram Alberto Costa e Alberto Martins!

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    7. Anónimo4/3/21 19:34

      Ou seja, o "Sr. Costa".

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  8. Anónimo4/3/21 20:19

    Um movimento de fevereiro anunciado em Março!

    Mas vamos lá dar uma ajudinha à DGAJ que tem andado muiti distraída em matérias relativas aos Oficiais de Justiça.

    No organograma do portal da DGAJ ainda consta como subdirectora a Senhora Dra. Armanda Moura que já cessou funções.

    Quanto ao movimento extraordinário podem esperar sentados.

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  9. Anónimo5/3/21 11:41

    " A DGAJ tem meios gestionários suficiente para acautelar com tempo estas situações, ou seja, dispor de uma estratégia para que situações destas não ocorram. Ou será que a estratégia do Ministério da Justiça é a de depauperar de tal maneira os quadros de oficiais de justiça, para poder desjudicializar?"

    Ora aqui está a verdade. A classe dos Oficiais de Justiça está em vias de extinção que passa pela desjudicialização de várias áreas.
    Magistrados, Assessores e administrativos serão o futuro da nossa justiça.Por isso o Governo já não perde tempo com a nossa Classe.
    Este é o futuro que nos espera. Os mais velhos para a reforma e os mais novos integrados noutros Serviços. Até lá vão-se tapando os buracos.

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  10. Anónimo5/3/21 11:43

    Acredito que sim.

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