Marçal Escreve Carta Justificativa da Greve

      Em artigo de opinião publicado ontem no Diário de Notícias, António Marçal, presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais, escrevia aquilo que dava título ao artigo: “Carta aos Portugueses”.


      Depois da carta remetida aos conselhos de gestão das comarcas e aos magistrados (judiciais e do Ministério Público), Marçal escreve agora um artigo que é também uma “carta aos portugueses”, na qual repete alguns dos argumentos já endereçados aos magistrados dos tribunais e dos serviços do Ministério Público.


      Diz assim:


      «Se todos somos partes fundamentais na engrenagem da justiça, nós, os Funcionários Judiciais, somos o rosto da justiça, quando se entra num tribunal. Temos, como alguns, as injustiças de um estatuto não aprovado, de uma carreira subvalorizada, de uma ausência inexplicável de respeito por quem administra a justiça em nome do povo, em nome da máquina que é o Governo, em nome de todos nós.


      Nós, que trabalhamos nos tribunais, órgãos de soberania, suportamos várias dificuldades, e não frequentemente o cidadão confunde-nos no papel dos magistrados, judiciais e do Ministério Público, resultado de um desconhecimento da nossa profissão.


      A sociedade vê-nos como funcionários soberanos e detentores de privilégios e mordomias atribuídos pelo Estado. A sociedade também nos julga bem remunerados, autónomos e donos do nosso tempo. A sociedade atribui-nos vantagens patrimoniais e salariais como subsídio de habitação, sistema privado de saúde, dois meses de descanso anual, entre outros exemplos.


      A sociedade pressupõe-nos com uma carreira próspera e vantajosa. E esta confusão, que bem aproveita aos governantes, traduz-se na dificuldade de receber apoio social e aceitação na nossa luta, que cremos ser justa.


      Tudo isto somado, resulta na ausência de pressão sobre e do próprio Governo, na determinação em resolver os problemas da classe.


      As tomadas de decisão populistas para transmitir uma ideia de ataque a privilégios que nunca tivemos, com más intenções, acalmando a opinião pública, mas que acabam por prejudicar o verdadeiro funcionamento quotidiano da justiça.


      O fim dos direitos e benefícios, como foi o exemplo das férias judiciais (turnos), férias conquistadas de três dias por cada ano de idade, enfrentando, ainda, a violação de próprios direitos: desajuste salarial face às funções e exigências, a não integração do suplemento, assédio moral, desvalorização total da dignificação da carreira profissional. A maioria dos funcionários com quase 20 anos de carreira ganha menos de mil euros. Um país que se quer desenvolvido não deveria ter, nos Funcionários Judiciais, a franja da pobreza funcional.


      Integramos uma carreira especial que desempenha funções num órgão de soberania. Consciente dos deveres e direitos, mas acima de tudo da responsabilidade num dos pilares fundamentais do Estado de direito democrático, esta classe profissional contribui com o esforço, em detrimento da vida pessoal e familiar, trabalhando horas e horas, e muitos sábados, e muitos domingos, de forma inexorável para a melhoria do sistema de justiça.


      Um Oficial de Justiça, no início da carreira, sem suplemento de compensação processual, ganha líquidos menos de 800 euros, estando a maioria deslocada, a pagar segundas casas ou quartos. E longe da família anos e anos.


      A constante redução dos recursos humanos subsiste há mais duas décadas e só se agrava. Em 19 anos, somos menos 2431 funcionários.


      É notório o envelhecimento da nossa classe e estamos ainda na defesa de um estatuto profissional. A compreensão da injustiça é um passo enorme.


      Apelamos, por isso, a todos vós, que entendam esta nossa posição e esta nossa luta pelo que é justo na carreira e no reconhecimento de anos de entrega e de promessas adiadas, pois não é de ânimo leve que convocámos uma greve de uma hora diária, entre as 10 e as 11 da manhã.


      São 30 dias que começam a 17 de maio. A greve não é contra nenhuma classe, mas sim em nossa defesa, Funcionários Judiciais.


      A Justiça, neste caso, não pode ser cega nem surda.»


Escrita1.jpg


      Fontes: “SFJ” e “Diário de Notícias”.

Comentários

  1. TUDO DITO"

    " maioria dos funcionários com quase 20 anos de carreira ganha menos de mil euros. Um país que se quer desenvolvido não deveria ter, nos Funcionários Judiciais, a franja da pobreza funcional."

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    1. Um Magistrado, só de subsídio de renda de casa, recebe muito mais, em termos liquidos, do que um Oficial de Justiça aufere de vencimento no inicio da carreira, ou mesmo do que um Oficial de Justiça irá receber, se requerer a pensão de aposentação antecipada, com 61 anos de idade e 40 anos de carreira!..

      Porque será?....

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    2. Caro colega:
      Certamente já reparou que em Portugal, actualmente, é uma grande desvantagem ser Português, branco e católico, mas sobretudo ser Português...Se o colega fosse do Nepal, da India ou do Paquistão, escurinho e muçulmano ou hindu, trabalhasse em Odemira e pagasse 120 € por um quarto, em vez de ser Português a pagar 600 € por uma renda no Algarve, sendo do Norte e indo a casa 1 ou 2 vezes por mês, a esta hora já tinha toda a sociedade civil, Presidente da República, Mamadou Ba, Bloco de Esquerda e quejandos a fazer barulho...Azar o seu (o nosso...)

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  2. Não devia haver uma explicação sobre terem sido pedidos os nºs. de utentes de saúde e os contactos telefónicos para efeitos de vacinação e até hoje, nada? O que é que se passou?

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    1. Tal como noticiamos nesta página, essa lista foi usada e alguns Oficiais de Justiça foram logo vacinados como prioritários. Foram muito poucos mas foram alguns. Do conhecimento que obtivemos de alguns locais no país e de um simples cálculo aritmético, estamos em crer que foram vacinados algumas dezenas, talvez uma centena como máximo.
      Tendo o SNS/Task Force optado por acabar com grupos prioritários e avançar pela idade, tendo em conta que a maior parte dos Oficiais de Justiça têm já uma idade considerável, está essa maioria a ser vacinada, havendo notícia de algumas zonas do país onde já estão vacinados todos acima dos 50.

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  3. Somos o OLHO DO CU de todo o sistema judiciário/judicial!!

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  4. Muito bem, António Marçal e SFJ! Tem-se conseguido estrategicamente espaço mediático e é assim que se sensibiliza o Povo! É tb uma forma de pressão sobre os que nos (desgovernam) e, ao mesmo tempo, com as várias iniciativas que se tem vindo a desenvolver, a dignificação da Classe.

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  5. Não poderia estar mais de acordo com tudo com o que aqui é escrito neste blogue. Os meus prestigiosos parabéns ao Ilustre responsável pela sua redacção!

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    1. Muito obrigado pela apreciação mas note que muito do que se escreve e que aprecia são citações e estão entre aspas, como é o caso do texto deste artigo, quase todo uma citação do presidente do SFJ.
      Ora, apreciando os escritos que colocamos está a apreciar também os escritos daqueles que citamos.

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  6. "... e muitos sábados, e muitos domingos, de forma inexorável para a melhoria do sistema de justiça."

    Mas porquê?

    Cá eu nunca, e já mais.

    Sim, sou arrogante, eu sei.

    Sem dinheiro em troca não há sábados e domingos para ninguém.

    Venham com a converseta da avaliação e lá vai processo por assédio.

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    1. Concordo.

      Não devo nada ao Estado para trabalhar de borla.

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    2. Infelizmente sei de uma colega nossa ter trabalhado no dia 25 de abril e que se vai reformar em 2022. São merdas destas que mina a classe. Haverá muitas mais.

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  7. O SOJ em comunicado de hoje, declara pública e inequivocamente, total adesão à greve decretada pelo SFJ, e apela à adesão de todos os Oficiais de Justiça.

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    1. Greve Aleatória. Já.

      Finalmente, muito amiúde, mas vá lá. Finalmente!

      No período da tarde deveria coexistir com a greve anunciada a das 14h às 15h.

      Maior leque de escolha, maior efeito.

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    2. Maior efeito seria das 9h às 10h, certamente, porque adia efetivamente o horário de entrada.
      Ou por algum motivo não é possível neste horário?

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