“Um pilar essencial do arquétipo judiciário”

      Na Visão desta semana, consta um artigo de opinião subscrito pelo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), Adão Carvalho, o qual a seguir vamos reproduzir:


      O tema do artigo é óbvio: a greve: «Sindicato dos Funcionários Judiciais convocou uma greve de uma hora diária de trabalho, entre as 10:00 e as 11:00 horas de cada dia, com início no dia 17 de maio e pelo período de 30 dias.»


      E prossegue assim:


      «As razões para a convocação da greve prendem-se com o desajuste salarial face às funções e exigências próprias da profissão, regularização da progressão da carreira (promoções) com o preenchimento das vagas existentes, a falta de um regime de reforma adequado a uma carreira especial, a desvalorização total da dignificação da carreira profissional, entre muitas outras.»


      E confunde-se quando continua assim: «Reclamam um estatuto profissional próprio», não se reclama um estatuto próprio, porque tal já existe, reclama-se é a sua atualização, tal como o Estatuto dos Magistrados do Ministério Público também já existia, sendo foi revisto e atualizado.


      «Todas as reformas judiciárias empreendidas têm ignorado um pilar essencial do arquétipo judiciário e que são os oficiais de justiça.» Esta afirmação também não corresponde à verdade, uma vez que ocorre precisamente o contrário, isto é, todas as reformas judiciárias não têm ignorado este pilar essencial, bem pelo contrário, tem sido nesse pilar essencial que se têm apoiado para tudo conseguir fazer e resolver.


      Não fosse o empenho e brio dos Oficiais de Justiça em resolver todas as situações, por mais complexas que se apresentem e se apresentaram realmente, e nenhuma reforma judiciária se concretizaria. Por exemplo: foram os Oficiais de Justiça que resolveram os problemas com a reforma de 2014 e os problemas foram mais do que muitos. Toda a gente se recorda.


      Como diz Adão Carvalho: o “pilar essencial do arquétipo judiciário” não tem sido ignorado para encontrar soluções para os demais e para tudo mas tem sido escandalosamente ignorado para encontrar soluções para as suas próprias carências.


      Prossegue o presidente do SMMP, abordando outros aspetos:


      «Os funcionários judiciais são o primeiro rosto de contacto dos cidadãos com a justiça. São eles quem, em primeira linha, gere o descontentamento, a frustração, as dúvidas e inquietações daqueles que se deslocam aos tribunais e aos serviços do Ministério Público, muitas vezes alterados e fazendo recair sobre aqueles os seus desagravos pelo funcionamento do sistema.


      O papel dos Oficiais de Justiça é essencial ao funcionamento do sistema judiciário, desempenhando funções de grande complexidade e responsabilidade. No entanto, temos assistido por parte dos sucessivos governos a um total desinvestimento nos Tribunais e, especificamente, nos Oficiais de Justiça.


      O quadro de funcionários em exercício de funções é manifestamente insuficiente face às necessidades, tendo sofrido a redução de 1/3 face ao existente em 2000, e em consequência da ausência de concursos para admissão ou com vagas em número insuficiente, é uma classe cada vez mais envelhecida.


      Por outro lado, a carreira tornou-se pouco atrativa, não só pelos baixos salários, mas também pela lenta progressão na carreira, pela redução dos cargos de chefia e pelo excesso de trabalho que lhes é acometido em decorrência do insuficiente quadro de funcionários e com claro prejuízo para a sua vida pessoal e familiar.


      As exigências decorrentes de um serviço público em área essencial do Estado de direito democrático e da necessidade de obter, como resultado final, a prestação de um serviço de qualidade, impõem que se aposte na dignificação da carreira dos funcionários judiciais e na sua qualificação e especialização.


      A necessária qualidade do sistema de justiça exige uma harmónica interdependência e complementaridade de funções de todos os que nela se integram, magistrados judiciais, do ministério público e funcionários judiciais.


      A qualificação e dignificação da carreira dos funcionários de justiça permitiria conferir-lhes maior autonomia no exercício das suas funções em relação aos magistrados, libertando estes para o núcleo essencial da sua atividade, com elevados ganhos em termos de produtividade e celeridade e constituiria fator motivacional para os mesmos.


      O caminho não pode ser o da confusão dos funcionários judiciais com os demais servidores do Estado, ignorando as especificidades do serviço prestado nos tribunais, o dever de reserva que sobre os mesmos impende, a exigência de competências próprias e diversas dos demais serviços do Estado, a necessária independência dos tribunais e a autonomia do Ministério Público.


      Pelo contrário, devia aproveitar-se o momento de revisão dos estatutos, para dotar o Ministério Público de um corpo de funcionários próprio, adequado à especificidade das suas funções, devidamente qualificado e em número suficiente para responder às exigências de qualidade e celeridade.


      O recurso à greve decorre de uma falta de diálogo por parte do Ministério da Justiça que recusa discutir com os Oficiais de Justiça o respetivo estatuto a que têm direito e que se impõe após revisão dos estatutos dos demais participantes do sistema de justiça.


      Os Oficiais de Justiça são essenciais ao funcionamento dos Tribunais.


      Apelamos, pois, a que exista por parte do poder executivo capacidade para ouvir as revindicações dos Oficiais de Justiça e abrir o caminho para o diálogo e a negociação do respetivo estatuto, assegurando-lhes uma carreira digna, adequada às importantes e específicas funções que desempenham, atrativa e devidamente remunerada.»


Acrobacia.jpg


      Fontes: “Visão” e “SMMP”.

Comentários

  1. Tempos houve em que tivemos um governo liderado por um individuo apelidado por muitos de Pinóquio. Esse individuo construía a sua narrativa, grande parte de nós acreditava, e nada se fazia no governo sem o seu consentimento e inserido na sua narrativa.
    Hoje temos um primeiro ministro que, na sua narrativa e relativo à classe dos oficiais de justiça, referiu, NO PARLAMENTO, que o estatuto dos oficiais de justiça estava em CIRCUITO LEGISLATIVO e que seria aprovado m conselho de ministros até ao final do passado mês de Março.
    Estamos em Maio e, nada, nem sequer uma resposta ou tentativa de diálogo para com os representantes da classe. Mas, a NARRATIVA, (onde é que eu já ouvi isto) lá está, afirmada, no parlamento, sem gaguez ou pestanejar.
    Muda o cheiro mas...........

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  2. ... mas a merda é a mesma!

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