Dizem que os tribunais não são confiáveis
O novo presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) assumiu ontem as manchetes do Correio da Manhã e as opiniões de tantos comentadores que sobre tudo opinam, opinando também em idêntico sentido e contribuindo, ele próprio, para a alegada descrença da Justiça de que falou.
Tomou ontem posse e retratou uma justiça que não é eficiente, não é competente, não é transparente e na qual os cidadãos não podem confiar. Mas disse isto tudo "a contrario": «A paz social e a vida em sociedade dependem em larga medida de um sistema de justiça eficiente, competente e transparente, "em que os cidadãos possam confiar". "Sabemos que a nossa Justiça tem um forte pendor burocrático e garantístico, com impacto direto nos níveis de eficiência e nos tempos de decisão".»
Pasmem-se: "A nossa Justiça tem um forte pendor burocrático e garantístico", características essas que, independentemente de aportar rigor e garantias aos cidadãos, são uma chatice para os "níveis de eficiência e os tempos de decisão", isto é, as garantias dos cidadãos são um empecilho para os dados estatísticos.
«O sentimento de descrença no aparelho de Justiça resulta da expectativa frustrada dos cidadãos na resolução rápida de processos criminais de grande envergadura em que, geralmente, são visadas figuras da sociedade com notoriedade pública. O massivo tratamento mediático desses processos produz no sujeito passivo da informação a urgência de um resultado, de um desfecho. Daí que o arrastamento temporal desse tipo de processos, seja pela sua complexidade intrínseca, seja pelos expedientes usados para tornar mais longínqua a decisão final, crie um dano irreparável na imagem da Justiça infligindo simultaneamente um desgaste na confiança do sistema», acrescentou o novo presidente do STJ.
Quer isto dizer que a redução da Justiça, de todo o sistema e de todo o trabalho diário que todos desenvolvem nos tribunais, todos os dias, se resume, afinal, a um par de processos mediáticos debatidos nas televisões.
Poder-se-á dizer que o atual Presidente do STJ anda a ver TV a mais? Talvez.
O presidente do STJ sublinhou ainda não ter dúvidas que nos próximos tempos se assistirá a um significativo aumento da procura do serviço da Justiça, em resultado dos efeitos da crise social e económica criada pela pandemia mas, apesar de não ter dúvidas deste cataclismo que outros também já anunciaram, disse também que “Apesar das maiores dificuldades que se possam vir a sentir, quero deixar aqui um sinal convicto e claro de que os juízes e os tribunais portugueses saberão estar à altura das circunstâncias".
Ou seja, uma no cravo e outra na ferradura. Está tudo mal mas também está tudo bem, interpreta o presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) e também presidente do Conselho Superior da Magistratura (CSM).
A cada processo mediático surgem logo os comentários sobre a desgraça que grassa na justiça, a necessidade de implementar reformas, reformas estas que se limitam a alterações legislativas, e, passando o sururu mediático, regressa a bonança por algum tempo até ao surgimento do novo caso que há de alimentar comentadores, programas de TV e machetes de jornais.
Os Oficiais de Justiça assistem a estes processos regulares com algum riso mas isto começa a ser triste e triste porque acabam também arrastados no tsunami do mediatismo e do imediatismo.
Henrique Araújo, de 67 anos, não cumprirá o mandato todo porque dentro de 3 anos, cumprindo 70 anos, terá que abandonar a função pública. No entanto, tal também poderá não ocorrer, uma vez que já nasceu a ideia de que o limite da idade dos 70 anos não se aplica a mandatos já iniciados, isto é, afinal o limite dos 70 poderá vir a ser 72.

Fonte: "Advocatus/Eco".
Apenas mais do mesmo! "palavras"
ResponderEliminarSe se retiram meios humanos, materiais e funcionais aos "Tribunais", prática política recorrente já desde 2005, não se pode esperar uma Justiça atempada, forte e, essencialmente, justa.
ResponderEliminarMude-se o paradigma, restabeleça-se a ordem natural do Judiciário, reimplemente-se uma justiça pública e acessível ao cidadão.
Respeite-se, verdadeiramente, a separação de poderes.
O Judiciário dependente do poder político não é autónomo. Pelo contrário, depende dele. E assim, manipulado para fins diversos que não o da verdadeira Justiça.
Uma consequência dos tempos presentes.
P. s.
Poupe-se em solenidades e conversas de circunstância anuais e avance-se no essencial. Só assim seremos prósperos.
Apoiado.
EliminarEstá gente pensa que os OJ são estúpidos, constituintes de uma casta inferior.
A frase que melhor define o que move quem gere a justiça:
ResponderEliminar"Todo o sistema e de todo o trabalho diário que todos desenvolvem nos tribunais, todos os dias, se resume, afinal, a um par de processos mediáticos debatidos nas televisões"
É nesse "charco" que andamos nós oficiais de justiça.
Subsidio de renda de casa (875,00) pasme-se, 14 meses por ano, livre de impostos, mesmo após a Jubilação, ou seja para toda a vida!...
ResponderEliminarOs servos, disponibilidade permanente, com um suplemento de recuperação processual de 10%, 11 meses por ano sujeitos a impostos!...
A equidade e proporcionalidade deste Ministério da Justiça!...
É o desmembramento total da carreira.
ResponderEliminarAcabaram os Adjuntos.
Extrato da publicação neste blogue de 27-06-2020 a propósito da audição da Senhora Ministra da Justiça no Parlamento.
ResponderEliminar"... Recorde-se que a ministra da Justiça desculpou-se para o não cumprimento da Lei, desde logo por causa do vírus e apresentou ainda outra desculpa na qual alegava que os dois sindicatos que representam os Oficiais de Justiça não se entendiam e tinham opiniões diferentes. Enquanto um queria negociar já a integração do suplemento e a aposentação, deixando o estatuto para depois, o outro queria negociar tudo em pacote, portanto, para mais tarde, referindo ainda que era o sindicato maioritário o que queria tudo ao mesmo tempo. Desta forma, sem precisar a opção do Governo, todo o discurso apontava para que essa seria a opção do Governo, isto é, relegar para o final do ano a negociação do estatuto, do suplemento e da aposentação, porque essa era também a vontade do sindicato maioritário... "
Aguardamos agora com expetativa que a Senhora Ministra da Justiça cumpra finalmente as suas promessas e que em sede de revisão de estatutos integre o suplemento no vencimento e aprove o regime diferenciado de aposentação.
Se essa era a vontade do sindicato mais representativo da classe, chegou o momento de cumprir aquilo que afirmou no Parlamento e que serviu de desculpa para o não cumprimento da Lei do Orçamento de Estado para 2020.
Esperamos sinceramente, que não surjam mais vicissitudes!...
Se estas matérias não forem finalmente integradas no estatuto, será "decretada a morte da decência e elevada as falsas promessas à categoria de virtude”!...
EliminarNunca gostei daquilo que faço. É uma actividade que nunca me deu qualquer prazer. Apesar disso, sempre exerci as minhas funções com dignidade, seriedade, com zelo, com isenção, com o sentimento de entrega à causa pública. Nunca faltei, nunca meti atestados, sempre dei horas para lá do horário sempre que se mostrou necessário.
ResponderEliminarNeste momento sinto-me completamente enganado. Sinto uma revolta enorme dentro de mim. Revolta por ter acreditado numa vida melhor, por acreditar que os sacrifícios mais tarde seriam recompensados.
Anos e anos de entrega e sacrifício que agora redundam numa enorme desilusão.
A partir de hoje vou passar a ODIAR a triste profissão que tenho.
Quem vive bem com a mudança das regras contratuais, unilateralmente, a meio do contrato?!
EliminarPor muito menos vemos as decisões punidoras que contra semelhantes factos são proferidas no nosso dia a dia laboral contra empregadores prevaricadores.
É verdade. Esta só entra com vaselina.
EliminarEnfim.
Verdade! REVOLTANTE E DESMORALIZADOR MESMO!
EliminarCaro anónimo
EliminarSubscrevi, integralmente, o seu comentário.
Desalento é o sentimento que me ocorre.
Espero que não seja com areia....
EliminarCaro colega:
EliminarConcordo em absoluto e partilho os seus sentimentos, mas, sem ofensa, estes sentimentos não "lhes" interessam para nada desde que continuemos a trabalhar da mesma forma e a verdade é que já estamos derrotados em todos os aspectos, sobretudo psicológicamente...As "conversações informais" com sindicatos é o que fazem!
A leitura que faço do projecto do novo estatuto:
ResponderEliminarQuerem acabar com a separação entre técnico de justiça e escrivão.Ou seja, de acordo com este novo estatuto a mudança de uma secção do MP para uma secção do judicial fica ao livre critério do administrador judiciário.
Acabam com a categoria de escrivão auxiliar e adjunto e metem tudo no mesmo saco. Exactamente com o mesmo conteúdo funcional.
Os lugares de chefia passam ser em regime de comissão de serviço.E com a possibilidade de dirigir mais do que uma unidade orgânica.Já se está mesmo a ver o que vai acontecer.Uma maneira bastante simples de extinguir lugares de chefia.
Chama-se racionalização de meios.
EliminarNós os técnicos de justiça, não estúpidos, também percebemos destas coisas e também que o modelo nórdico não se aplica à cultura latina.
Prova está no "des"governo que criou o modelo económico, neoliberal, imposto a título experimental, durante a legislatura de Passos Coelho.