A Reunião Zero e o Parecer do COJ

      Afinal a primeira reunião ocorrida ontem, entre o Ministério da Justiça e os Sindicatos, não foi ainda a primeira reunião negocial mas a reunião número zero. A primeira reunião ficou agendada para 15 de setembro.


      Os Oficiais de Justiça leram e recordam-se bem do despacho datado de 04 de junho, do secretário de Estado adjunto e da Justiça, que saiu publicado no BTE com o projeto de estatuto, onde se lia assim:


      «O prazo de apreciação pública do projeto é de 20 dias, a contar da data da sua publicação, a título excecional e por motivos de urgência, tendo em consideração o procedimento legislativo a que se encontra sujeito bem como a necessidade da sua publicação se efetuar no prazo mais curto possível.»


      Vinte dias a título excecional por motivos de urgência para que a sua publicação se efetue no prazo mais curto possível e, tal urgência, está perfeitamente à vista: a primeira reunião fica marcada para 15 de setembro.


      Dirão os leitores que se trata de mais uma incongruência mas não; não se trata de nenhuma incongruência porque está dentro daquilo que é a atuação normal deste Ministério da Justiça, portanto, não é mais uma, é apenas a continuidade da normalidade anormal.


      Na reunião ressalta o facto de terem estado presentes a ministra da Justiça e o secretário de Estado adjunto e da Justiça, não tendo estes anunciado a sua demissão, nem no curto prazo nem noutro prazo, pelo que, de momento, até outubro parece que continuarão em funções.


      De acordo com a informação veiculada pelo Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ), é referido que “logo no início da reunião”, a ministra da Justiça “esclareceu que o projeto apresentado é “apenas” o primeiro “passo” de um caminho a trilhar em sede de negociação”.


      É referido que o “documento, ainda na sua fase embrionária, contará com os vários contributos, nomeadamente das entidades que legal e obrigatoriamente são consultadas, bem como dos contributos que se vierem a mostrar relevantes em sede do período de audição pública. E, claro, que no âmbito do processo de negociação coletiva será a vez de os sindicatos, enquanto representantes dos trabalhadores, se pronunciarem e contribuírem no sentido da sua melhoria, para que seja possível obter-se um estatuto que dignifique a justiça e os Oficiais de Justiça.”


      Estamos, portanto, perante um projeto que não é para considerar porque um outro projeto será apresentado; é isto que se pode concluir. Aliás, é isso mesmo que o SFJ também conclui quando diz: «A próxima reunião ocorrerá no dia 15/9/2021, pelas14h30, esperando este SFJ que seja apresentado um novo documento que não esteja eivado de inconstitucionalidades.»


      Nesta reunião número zero, ficou acordado que na reunião número 1 “será feita a calendarização de todo o processo negocial”.


      Ora, se este projeto apresentado vai ser, porque tem de ser, profundamente alterado, o novo projeto, porque é novo, outro e diferente, terá que voltar a ser colocado em audiência pública e terão que voltar a ser ouvidas as mesmas entidades que, para este, se pronunciaram.


      Ou o projeto persiste nas suas linhas gerais já apresentadas, apenas com pequenos retoques, ou, sendo coisa diferente, seria abusivo que não fossem ouvidas as entidades que obrigatoriamente têm que ser ouvidas.


      Assim, a primeira reunião a realizar em setembro poderá ser novamente adiada para momento posterior à audição pública e caso não o seja nada de excecional ocorrerá porque, como se sabe, esta normalidade constrói-se das incongruências e também das inconstitucionalidades.


      O SFJ refere ainda, a final, na informação sindical de ontem, que “tem marcadas, para esta semana, reuniões com outras entidades”, das quais, diz, dará “notícia oportunamente”.


      Entretanto, divulgamos ainda o Parecer do Conselho dos Oficiais de Justiça (COJ) relativamente ao projeto de revisão do Estatuto. Este parecer, embora desalinhe com o projeto apresentado, na sua generalidade, também aceita aspetos nele contidos que não fazem qualquer sentido e vão mesmo em contramão com a demais estrutura legal da Função Pública, como, por exemplo, o disparate de aumentar o prazo de prescrição dos processos disciplinares que é de 18 meses para toda a função pública mas para os Oficiais de Justiça pretende-se que seja de 24 meses. Um excelente sinal de retrocesso, aliás, como diz o CSM no seu parecer:


      «Ora, o artigo 75.º, n.º 1, vem agora prever que o prazo de prescrição, ou a garantia do cidadão contra intervenções desfavoráveis na sua esfera jurídica, seja alargada, para os oficiais de justiça e contrariamente à restante administração pública, de 18 meses para 2 anos. Tal disposição é instituída ao arrepio do regime geral estabelecido para a função pública – o artigo 178.º, n.º 5, da LGTFP, configurando um regime menos garantístico e que defrauda a tutela dos direitos e interesses legalmente protegidos dos oficiais de justiça comparativamente aos restantes trabalhadores da administração pública.


      Um regime que se mostra desproporcional e violador do princípio da igualdade, sem fundamento em qualquer motivo objetivo, premiando apenas a inércia da administração pública.


      Ademais, parece-nos que quando a administração pública e o poder judicial pretendem caminhar para a celeridade e cumprimento do princípio da boa administração, este diploma parece retroceder sobre essa tendência evolutiva.»


      O COJ mostra-se genericamente desfavorável às linhas gerais do projeto mas aceita alguns conceitos, assim dando “uma no cravo outra na ferradura”.


      Veja o Parecer do COJ acedendo através da seguinte hiperligação: Parecer COJ.


      Falta agora conhecer apenas o Parecer do Conselho Superior do Ministério Público. De todos modos, com os pareceres já conhecidos, persistir o Ministério da Justiça num Estatuto como o apresentado será um perfeito disparate.


IntrigadaComMascara.jpg


      Fontes: “SFJ”, “BTE” e "Parecer COJ".

Comentários

  1. ehehe! para negociar os tais 10% já lá vão mais de 20 anos. talvez num setembro daqui a mais 20 anos esteja tudo na mesma ou parecido com o diferente

    ResponderEliminar

  2. Razão tem o SOJ ao manter-se focado na integração do subsídio e no regime diferenciado de aposentação junto dos grupos parlamentares.

    A urgência do MJ era de abrir a negociação. Já está. A urgência acabou. Novo Estatuto só lá para as calendas gregas...

    A.P.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. SEM DUVIDA! APOIADA A ESTRATÉGIA DO SOJ!

      Eliminar
  3. Os Colegas que foram movimentados já começaram a receber as SMS's.

    Quem não recebeu, paciência.

    Para o próximo ano há mais ...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Isso é verdade? E que ligaram para a dgaj e disseram que ninguém está a receber sms

      Eliminar
    2. É verdade sim de andarem a mandar sms a quem foi movimentado.

      Eliminar
  4. Mais um ano a aguentar esta vida! Tanto esforço para que ? Porra de movimento!!

    ResponderEliminar
  5. E como vai ser com os Secretários promovidos inconstitucionalmente?
    Vamos continuar a não ter promoções? Ou vão abrir concurso para promoções a secretários?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois é, alguns secretários e escrivaes de direito promovidos com a formula inconstitucional desde 1999 ja devem estar aposentados.
      Nao vai ser facil resolver isto.

      Eliminar
    2. Esses são os mais fáceis de resolver. O mais complicado é o que vão fazer com as pessoas que foram promovidas. Em que categoria ficam, etc.
      É preciso ver que elas não têm qualquer responsabilidade no problema.

      Eliminar
  6. Alguém sabe se já saiu o movimento?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O movimento em princípio sai amanhã, há quem diga que vão haver promoções.. Não acredito muito.

      Eliminar
    2. Confirmam-se algumas promoções a Adjunto.

      Atenção Cascais!!

      Eliminar
    3. Para haver promoções é preciso sair gente para a reforma.

      Eliminar
  7. Isto doa movimentos anuais é uma bosta! estar À espera um ano! quem deixou aprovar isto dos movimentos anuais, bem sei o que merecia!!!!

    ResponderEliminar
  8. Um ano ? Já estou a espera de ser movimento a anos e nada....

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. mas isto de se concorrer anualmente quando antes eram 3 vezes por anos, não é nada! quem deixou passar esta alteração ao estatuto ???

      Eliminar
    2. Ambos os sindicatos.

      Se uma secção de 6 ficar com 2 lugares desertos os restantes 4 que se amanhem com o trabalho de 6 pelo menos durante 1 ano...

      Foi o que arranjaram!

      Eliminar
    3. CAMBADA

      Eliminar
    4. Não se esqueçam de fazer horas extra não remuneradas para ficar bem na fotografia!

      Eliminar
  9. O SOJ já devia ter dado nota da reunião de ontem.

    Acredito que já o tenha feito aos seus associados.

    Mas quando toma uma iniciativa de luta, greve p/ex., é só para os seus???

    Não se compreende!

    ResponderEliminar
  10. Mais uma história da carochinha, nao acredito nestas negociações e só para ganhar tempo

    ResponderEliminar
  11. E ainda se queixam que não existem promoções a adjunto!

    Existem sim, desta vez são só mais 29, mas a Procuradores-Gerais Adjuntos, a acrescentar às 30 que ocorreram no primeiro trimestre deste ano!

    Os recursos são escassos e os Oficiais de Justiça têm que ter paciência, que um dia a "caridade" do Estado (Ministério da Justiça) há-de chegar!

    O carro de vassoura, deste circuito legislativo, de um Ministério que se diz da Justiça!

    Para quem tem muito respeito pelos Senhores Oficiais de Justiça está tudo dito.

    As vicissitudes das prioridades.

    Mas não existe ninguém na bancada Parlamentar do Partido Socialista com coragem de interpelar a Senhora Ministra da Justiça ou o Senhor SEAJ acerca desta discriminação social e profissional a que os Oficiais de Justiça estão sujeitos?!...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Subscrevo!

      Eliminar
    2. A Justiça precisa de mais 30 PGA para quê???

      Para serem colocados em ministérios a dar pareceres que qualquer jurista dá?

      Quanto custa isto ao erário público?

      Eliminar
  12. Se a mulher e companhia estão já de malas aviadas, estavam à espera do quê estes santos do pau oco!!!

    Negociações....

    "Bota pra lá e vira".

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ministério da Justiça já tem novos mapas de pessoal da 1ª instância

A carreira dos Oficiais de Justiça é a terceira mais envelhecida da Administração Pública

Mais um acordo assinado e foi “uma grande vitória” e foi “o que se conseguiu”, diz o SFJ