Relatos intensos que ilustram o estado atual dos Oficiais de Justiça
Chegam-nos, com muita frequência, relatos pessoais que denotam o estado de espírito e da vida dos Oficiais de Justiça.
Hoje vamos reproduzir dois depoimentos que são desabafos pessoais mas que bem ilustram a vida real de dois Oficiais de Justiça que acabam por representar tantos outros.
O primeiro desabafo refere-se ao projeto de Estatuto e o segundo ao dia-a-dia de um Oficial de Justiça.
Se o primeiro relato ilustra o desânimo, o segundo não só ilustra esse mesmo desânimo como também um estado de consciência, perante a crueza da vida, simplesmente arrepiante.
Leiam os dois.
((1)) Depoimento/desabafo/relato:
«Eu dou comigo a pensar!! Valeu-me o sacrifício de andar de terra em terra com as malas sempre atrás de mim, a pagar quartos e casa e estar anos e ANOS longe da família, sempre na esperança de que ia valer a pena os sacrifícios do desgaste que esta profissão nos impõe, da privação de não podermos ver e acompanhar o crescimento dos nossos filhos, o convívio com eles, esposa e restante família e amigos, etc., tudo pelo trabalho. Para depois tudo ruir em duas dúzias de folhas escritas por alguém que não deve gostar muito de nós ou não nos reconhece qualquer mérito. Cansado desta GENTE toda... Que nos usou, explorou, e agora não nos respeita e nos quer ainda “assassinar profissionalmente”.
Nunca nos deram hipótese de progredir na carreira. Congelaram progressões, subidas de escalões, ordenados etc. E agora oferecem-nos estes estatutos como se fossemos LIXO DESCARTÁVEL, dando com irrelevante tudo o que demos de nós à justiça.
Feliz dia. Fico por aqui...»
((2)) Depoimento/desabafo/relato:
«Sou OJ, vivo agora em casa camarária após despedimento (Covid19) da minha mulher. Um filho que amo mais que a mim próprio. Ganho 1054 €/mês e aturo merdeiros e presunçosos mais de 9 horas por dia, desempenhando funções que são desconsideradas, mas sem as quais apregoam que a justiça não existe.
Chego a casa, agarro na mota, e das 19:30 h às 01:00 h faço Glovo.
Janto de 2ª a Domingo, há já 3 anos, no “fast food” com o qual faço mais entregas, a título de compensação.
Nunca esquecerei a solidariedade de um companheiro perante um "merdas" (como me sinto), todo encharcado, a entregar-lhe uma refeição.
Obrigado companheiro, nunca te esquecerei. Pagaste o triplo de gorjeta do que pagaste pela refeição. E o meu rapaz adorou os brinquedos.
P.S.: Claro que quase todos os meses penso numa corda à volta do pescoço e uma tabuleta ao peito escrita a agradecer ao Estado as constantes alterações das "regras do jogo". O sítio, esse, uma janela do meu tribunal.»
Quanto à referência à empresa de entregas “Glovo”, por parte deste Oficial de Justiça, esta é uma das várias que operam no serviço de entregas, mas não é só nesta área que os Oficiais de Justiça atuam. Fora das horas de expediente, é hoje muito comum que muitos tenham um segundo emprego ou uma atividade onde vão buscar um complemento ao seu salário, especialmente em serviços a tempo parcial ou em horário livre, como o serviço TVDE, e muitos também no Alojamento Local, havendo até relatos de alguns que vivem na garagem enquanto arrendam a sua habitação.
E fazem-no por necessidade.
Como o Estatuto não permite e a DGAJ deve autorizar previamente, apesar de muitos estarem perfeitamente autorizados a exercerem outras atividades remuneradas, a maior parte opta por exercer atividades que estão em nome dos cônjuges ou de outros familiares.
Estamos, pois, perante uma profissão que se tornou miserável e sem futuro, na qual, a maior parte detém idades acima dos 50 anos, já não se atrevendo a mudar de profissão, embora diariamente o anseiem.

Pungente. Triste. Vergonhoso. Mas vergonhoso apenas para quem tem vergonha na cara. Quem não a tem, não quer saber de nada disto. Não são apenas as vidas dos OJ´s que estão em perigo. São as dos próprios filhos, que têm que viver em ambientes de incerteza e miséria, de dificuldades constantes e casa onde não há pão...
ResponderEliminarE depois vêm falar de uma profissão digna, obrigando o esfarrapado todos os dias a vestir uma capa negra que mais representa a sua vida do que aquilo que pretendem que represente.
A capa, afinal, é para esconder a miséria.
Não basta falar de dignidade. Há que realmente a sentir.
Exigem dignidade na pobreza, na aflição diária de como pagar contas.
Mas quem o exige não sabe o que é isso e na verdade, está-se muito pouco marimbando para ti e as tuas dificuldades.
BOA! Demonstra a vida e a realidade de alguns "Oficiais de Justiça" . Atualmente estou longe de casa "Ilhas" na qual encontro-me longe do meu agregado familiar "cônjuge e filhos", com uma casa, seguros, e despesas para pagar, na qual não consigo pagar a prestação ao banco, tive que alugar, ter que pagar um quarto por estar deslocado mais despesas e alimentação.
ResponderEliminarResultado final: Saúde mental com algumas depressões a meio, casamento quase destruído por não estar presente, não ver os filhos a crescer por estar deslocado, não ter dinheiro para as passagens para ir a "casa".
Posto isto a tutela ainda indefere a mobilidade entre carreiras para ir junto da família.
O desespero é tanto que qualquer dia desisto de tudo!
O secretismo dos "arquitetos e pedreiros" deste mundo, que proclamam edificar uma sociedade mais justa e próspera, que nem sequer sabem assentar um tijolo!...
ResponderEliminarMas sabem cuidar dos manos e manas e estragar a vida dos outros, que não têm que pensar como eles.
EliminarVenho aqui manifestar a minha solidariedade para com estes colegas que "desabafaram" a realidade de muitos outros.
ResponderEliminarTambém já estive longe de casa, e na eminência de ter de arranjar um segundo trabalho, na clandestinidade, para assegurar um futuro mais digno aos meus filhos.
Por essas e outras é que os sindicatos, com o muito dinheiro das quotas, deveriam promover, junto de escritórios de advogados consagrados, a propositura de várias ações e providências para expurgar o estatuto de inconstitucionalidades, que até um cego vê.
ResponderEliminarMas não, não querem, preferem o "sim senhora ministra' "pois não sra eminência'. "Gosto tanto de si sua reverendissima'."pode-me dar um chutito no traseiro que eu até gosto, Sr. Dr.''.
Cresçam., Apareçam, façam tudo, não se escondam no já habitual - não pode ser, a altura não e boa, não já dar em nada'etc...
Embora sirva de pouco, eu só quero deixar um abraço forte e a minha solidariedade a todo(a)s as/os colegas que todos os dias enfrentam as mais diversas dificuldades. Força.
ResponderEliminarE um muito obrigado aos autores deste blog precioso.
Valendo o que vale, quero deixar aqui a minha solidariedade para com os colegas que prestaram o seu testemunho.
ResponderEliminarMuita força para eles. Estes desabafos haviam de ser publicados e remetidos à ministra da justiça, bem como ao SEAJ.
Muitas vezes também pensei em deixar a carreira, ainda penso, mas com 56 anos feitos....
Força colegas.
E mais uma vez, muito obrigada a este blog que é ainda o que nos resta para a união desta classe moribunda.
EliminarEstou chocado, irado, revoltado.
ResponderEliminarVou mandar esta publicação e um resumo das ilegalidades praticadas pelos dirigentes do MJ e seus nomes para o "investiga CM".
Basta!
Será que ninguém põe esta "porra" nos eixos?!!!
Estão à espera de uma desgraça?!!!
Por amor de Deus, ajam!!!
Companheiros não sei como poderei mais ajudar, mas estou disposto a tal.
Só me ocorre através de e-mail Gmail o envio de ajuda monetária, ou tendo os autores deste Blog como intermediários.... para ser mantido o anonimato dos necessitados.
Acima de tudo força, muita força e um abraço.
A vida tem muitas dificuldades. Uns só as mascaram!
Pense-se sempre nos filhos, eles são uma força extra. Precisam sempre de nós pais. Ok?!!! Sempre!!!
Estou a disposto a ajudar, se fôr criado um Fundo de Solidariedade para com os colegas que estão a passar dificuldades.
EliminarA Rainha "Santa Van Dunem" que repetidamente tem afirmado ter muito respeito pelos oficiais de justiça e que são legitimas as suas reivindicações, que inclusivamente prometeu no Parlamento "pão" aos oficiais de justiça, interpelada pelo primeiro ministro, mostrou o conteúdo do regaço do seu vestido e nele só haviam rosas, ao contrário do pães que tinha prometido.
ResponderEliminarSão rosas Senhor são rosas!....
Para quando uma associação parasindical que crie a casa do OJ, com protocolos de saúde e outros verdadeiramente interessantes e com lar de idosos e de apoio a colegas com dificuldades?
ResponderEliminarE com descontos em creches e coisas do género?
Por exemplo, um prédio em Lisboa que albergasse umas dezenas de deslocados, outra no Porto e outra em Coimbra, que cobrasse pequenos valores pela estadia.
Estamos a anos-luz da organização dos militares, que têm casas de Oficias e casas de Sargentos e uma forte, inabalável instituição de saúde.
Preferia dar dez euros por mês para isto, do que quotas para sindicatos.
Perdemos o sistema da saúde e ninguém agiu a não ser chorar e revoltar-se. Deu em nada.
E que tal agir??
Uma instituição forte que busque apoios de todos os quadrantes e cobre cinco/dez euros por associado, parece-me uma excelente ideia.
O que acham?
Rob in Madeira
O SFJ mete ao bolso, todos os anos, mais de 700000€.
EliminarCom quase um milhão de euros /ano no bolso, nada faz!!!
No norte usa-se uma expressão para tal,
"Grande mama!"
O mundo gira...
ResponderEliminarDeus é grande...
E a escravatura foi abolida há imensos anos de Portugal e do mundo...