A Guerra Fria e a Atávica Carne para Canhão

      Está mais vincada a Guerra Fria já existente entre o Ministério Público (MP) e o Ministério da Justiça (MJ) ou, mais concretamente , o secretário de Estado adjunto e da Justiça (SEAJ).


      Como temos vindo a dar nota estes dias, a divergência fulcral reside na falta de carne para canhão para enviar para a frente da batalha, isto é, a falta de Oficiais de Justiça a exercerem funções no Ministério Público, como alegam as diversas entidades do Ministério Público e também os próprios Oficiais de Justiça. Em oposição, o SEAJ argumenta e insinua que pode haver serviços redundantes, mas o que há mesmo é falta de gestão dos recursos disponíveis.


      A Procuradora-Geral da República (PGR) lançou também, esta semana, umas farpas, relativamente às considerações do SEAJ.


      Na quarta-feira, 06OUT, na tomada de posse do procurador-geral regional de Évora, na cerimónia que decorreu no Tribunal da Relação de Évora, a PGR defendeu “um sério e sereno diagnóstico” sobre a atual situação da justiça em Portugal para se definir “um rumo pensado” para o setor.


      Lucília Gago referiu que o diagnóstico deve ser feito “sem outra agenda que se lhe sobreponha ou colida”, para além do “singelo propósito da melhoria do sistema, da sua eficácia e da sua credibilização”.


      Perante uma assistência constituída, na sua maioria, por magistrados do Ministério Público, a PGR realçou que “a omnipresente escassez de recursos materiais e humanos tende invariável e lamentavelmente a perder significado de relevo”.


      “Apesar da sua invocação pelo MP e das correspondentes e sustentadas solicitações de reforço ao mais alto nível”, essa escassez de recursos é “abafada pela ideia expressa ou implícita de deficiência na gestão processual ou na alocação desses recursos”, argumentou.


      A PGR considerou também o seguinte:


      «A persistência de um certo amadorismo atávico, associada a alguma anomia, apatia ou inércia, bem como a profusão de grupos de trabalho, estruturas e recursos dedicados a conceber estudos, parcerias, protocolos, memorandos e relatórios, acentuam a premência de uma estratégia global, integrada e holística, assente na identificação das áreas carecidas de inadiável intervenção e investimento.» A quem se refere a PGR?


      Lucília Gago expõe que a “inadiável intervenção e investimento” é para ser em “instalações, equipamentos, meios materiais e humanos, para além de cirúrgicas alterações legislativas”, com o propósito de reparar “a confiança dos cidadãos na Justiça e dignificando os que a servem no dia-a-dia dos tribunais.”


      «Neste complexo xadrez os Oficiais de Justiça e os órgãos de polícia criminal que coadjuvam o Ministério Público, em particular a Polícia Judiciária, atenta a sua natureza e competências, mormente a reserva legal que lhe está legalmente conferida, no âmbito da investigação criminal mais grave e complexa, não podem ser esquecidos.»


      A Procuradora-Geral da República dá, portanto, continuidade àquilo que o Conselho Superior do Ministério Público relatou, não sendo, portanto, obviamente, apenas um sindicato a dizê-lo, como afirma o SEAJ:


      «Alguns setores do Ministério Público, designadamente o Sindicato dos Magistrados do MP, há muito que centram o seu discurso em alegada “falta de meios”. Dizem que o número de procuradores é insuficiente. E agora estendem a mesmo discurso aos Oficiais de Justiça afetos ao MP.»


      Não são setores, senhor; são as mais altas instâncias do Ministério Público, que não mais fazem do que repercutir aquilo que a realidade do dia-a-dia lhes leva.


      No meio, a ver a bola ser batida para um e para outro lado, já com os olhos trocados, estão os de sempre, enterrados nas trincheiras da frente da batalha: a carne de canhão.


      Pode ler o discurso da PGR, na íntegra, o que vivamente se aconselha, acedendo por "AQUI".


OlharParaCima.jpg


      Fontes: “Observador” e “Discurso PGR de 06OUT2021

Comentários

  1. DN - 25 novembro de 2015:

    "... Apesar de reservada, a procuradora-geral distrital não poupou críticas à sua antecessora Paula Teixeira da Cruz. Em praticamente todos os relatórios de balanço da PGDL, Van Dunem não deixava de passar recados à ministra, nomeadamente quanto à falta de funcionários judiciais..."?!...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Será que o atual SEAJ ao referir que alguns setores do Ministério Público, há muito que centram o seu discurso em alegada “falta de meios”, também estava a criticar a atuação da antiga PGDL, Van Dunem, uma vez que, também ela,

      nessa qualidade, centrava o seu discurso na falta de funcionários, quando criticava Paula Teixeira da Cruz!...

      Eliminar
  2. Parece-me mais um discurso cheio de palavras caras, incisivo, mas fofinho.
    Tinha que ser com mais força, sem dó nem piedade.
    Assim não vamos lá.

    ResponderEliminar
  3. É incrível o amadorismo e a ingenuidade desta gente.
    Fazer um discurso destes sem 'audiência, sem impacto, sem nada.
    A coisa mais fácil do mundo a qualquer 'player' da nossa sociedade é arranjar tempo de antena nos órgãos de comunicação social, então uma PGR, que até é raro aparecer, consegue quando quiser, onde quiser, uma entrevista numa estação de televisão.
    Todos sabemos como funciona.
    Dá a entrevista numa terça ou quarta feira, larga as bombas e depois é esperar que os trinta comentadores das tv's façam a festa até ao fim de semana e depois ao domingo o Marques Mendes e o RAP arrasam quem tiveram que arrasar.
    Mas não, vai a Évora e manda umas farpas com colegas a assistir.
    Realmente é mesmo fofinha....

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ministério da Justiça já tem novos mapas de pessoal da 1ª instância

A carreira dos Oficiais de Justiça é a terceira mais envelhecida da Administração Pública

Mais um acordo assinado e foi “uma grande vitória” e foi “o que se conseguiu”, diz o SFJ