"Não posso ser obrigado a trabalhar e não ser pago por isso"

      No Jornal de Notícias de ontem (15OUT), encontra-se uma entrevista a António Marçal, presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ), que a seguir vamos reproduzir.


      «JN [Jornal de Notícias] – Que problemas encontraram ao fazer a “Caravana da Justiça”?


      AM [António Marçal] – O que já estávamos à espera. Ou seja, um parque edificado a necessitar, em muitos locais, de obras de intervenção muito urgentes, principalmente a nível das coberturas. Alguns edifícios continuam a não cumprir as acessibilidades a que os edifícios públicos estão obrigados. E, cada vez mais, tribunais instalados em edifícios que não são condignos para o órgão de soberania tribunal e que não servem as funções: alguns não têm salas de testemunhas, nalguns juízos de família e menores não há sala para crianças. Muitos equipamentos estão desajustados das necessidades. Não falo só dos computadores: falo da falta de digitalizadores, impressoras, leitores de códigos de barras nas secções centrais.


      JN– E a nível de meios humanos?


      AM– Primeiro, temos uma classe envelhecida e comarcas onde a idade média ultrapassa os 59 anos. Isto é incompreensível. Nenhuma organização pode ter futuro, projetar um desenvolvimento, com uma faixa etária deste tipo. A própria DGAJ [Direção-Geral de Administração de Justiça] aceita que, pela força da idade, até 2028, mais de um terço [dos Oficiais de Justiça] se vai aposentar. E a DGAJ está a esquecer que o envelhecimento traz problemas de absentismo e de doença. Outra realidade é o problema do absentismo presencial: pessoas que são mandadas regressarem ao trabalho depois de períodos de baixa, mas que não reúnem o mínimo de condições para estarem lá. Quando dizemos que faltam mais de mil Oficiais de Justiça, sabemos do que falamos.


      JN– Que vos faz acreditar que, desta vez, serão ouvidos?


      AM– Hoje há cada vez mais, da parte da opinião pública, a ideia de que a Justiça não funciona, porque interessa a alguns setores do poder político que ela não funcione. E os políticos têm de contrariar esta perceção. É preciso um investimento de qualidade em recursos humanos, em meios técnicos. Estou em crer que a pressão da opinião pública vai levar a que o poder político tenha de dar uma resposta cabal, sob pena de se virar contra eles próprios esta ideia. A questão da falta de meios tem sido muito abordada, mas sobretudo em relação a magistrados.


      JN– Sente que os Oficiais de Justiça têm sido esquecidos?


      AM– Nós somos muitas vezes os esquecidos da Justiça, somos os invisíveis. Aliás, só se nota a nossa falta quando há paralisações. E isso é muito triste e desmotivante, quando hoje a chefia do Governo está nas mãos de um homem que foi um bom ministro da Justiça, quando a ministra da Justiça [Francisca van Dunem] é uma magistrada. O que me parece é que há um discurso demagógico de que os computadores e os algoritmos podem resolver tudo. Por muito que lhes custe, a justiça é uma justiça de homens para homens, feita por homens e pelos homens. Não basta dizer: “vamos ter máquinas”. Nós falamos tantas vezes de sermos os bons alunos da Europa: é pena que nesta área não sigamos essa orientação.


      JN– Que modelo tem sido proposto?


      AM– Um em que os Oficiais de Justiça possam ser os técnicos do processo. Temos de arranjar forma para que quer os juízes quer os procuradores tenham na sua equipa gente que possa fazer o trabalho de preparação para que eles possam proferir a sua decisão final. A questão é aflorada na proposta de revisão EFJ apresentada pelo Governo.


      JN– Do que discorda?


      AM– Aquilo que nós precisávamos de fazer era evoluir como carreira, e essa não está lá. Aquela não é a solução, porque manda fora todo o valor acrescentado, todo o saber que existe nos tribunais e que não está a ser devidamente utilizado e recompensado. As pessoas, ao fimde 20 anos [de trabalho], estão a ganhar 900; 900 e poucos euros.


      JN– Há 20 anos que esperam pelo EFJ. Mas, deduzo, este projeto não é de todo suficiente.


      AM– Não é solução para nada. Poderia não servir apenas para o sindicato e seria uma questão corporativa. O problema é que não serve o país, não serve a Justiça. Mexer por mexer, não vale a pena.


      JN– O não pagamento de horas extra, reforçado no atual projeto, é um dos grandes diferendos?


      AM– Claro. Isto não era um problema até um passado relativamente recente. Podemos ter duas formas de abordar a questão: o acerto ser feito mês a mês, em termos de trabalho que eu faço a mais, ou fazermos uma perequação [distribuição] que me permita, ao fim da minha vida contributiva, acertar contas com o Estado. Quando defendemos uma idade especial de aposentação [como vigorou em pleno até 2005] tem que ver com isso. Aquilo que eu não posso ser é obrigado a trabalhar e não ser pago por isso. É trabalho escravo.


      JN– Será então difícil o SFJ chegar a entendimento com o Governo?


      AM– Acho que não. Em 2019, nós estávamos no bom caminho com a senhora ministra e, portanto, estranhei bastante a proposta feita pelo secretário de Estado adjunto [Mário Belo Morgado]. Continuamos convictos de que, se retomarmos aquele que era o andamento do processo negocial até 2019, será um caminho fácil de trilhar.»


JN-20211015.jpg


      Fonte: "Jornal de Notícias".

Comentários

  1. Palavras, palavrinhas e palavretas. Há anos com o mesmo discurso e ..... Nada
    Mudem o discurso, neste momento a tutela ey INIMIGA da classe, quer acabar com ela, quer reduzi-la, quer ridiculariza-la.
    Só há um caminho que teimam em não compreender GUERRA

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  2. Ser obrigado, não pode.
    Mas que o é, é !!
    Quando chegamos ao ponto em que escrivães pedem pessoal a administradores para a as suas seçõese a resposta é a de que não arranjam ninguém porque o pessoal da seção até nem fica até mais tarde...
    Dá bem para ver o calibre de muitos que ai andam com pele de cordeiro.
    Mesmo no seio dos Oficias de Justiça, há a tradição e o entendimento de que tem que se ficar até mais tarde !!
    Eu até diria metade.
    Estado e privados entendem que funcionários públicos devem trabalhar por amor à pátria e à camisola, isso já o sabemos.
    Mas muitos colegas tambérm.

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    1. donzilia santos16/10/21 11:51

      Custa a crer que administradores de comarca, com a formação que era suposto terem, nomeadamente jurídica, possam invocar (para não movimentar ninguém para uma secção a pedido do escrivão) o facto de aí não se trabalhar para além do horário.
      O escrivão deverá fazer esse pedido por escrito, fundamentando-o com factos: falta de pessoas por doença, por apoio a filhos menores, aumento pontual do serviço, nomeadamente de caráter urgente e por aí ....
      De igual forma a resposta deverá ser escrita e fundamentada, nunca pelo motivo referido, mas, por exemplo, pela deficiente gestāo e planeamento do serviço por parte do escrivāo, que também o deve executar (de acordo com o estatuto).
      Só assim compreendo a boa gestāo dos poucos recursos humanos existentes e "conversas da treta" a mim nāo me dizem nada.
      Se temos razāo, tudo por escrito, fundamentado, é o meu mote. Assim temos meios de superiormente fazer valer os nossos motivos.
      Palavras leva-as o vento e quem comentou aqui o que terá sido dito pelo tal "administrador", pode escrever isso e o seu contrário que cada um fica no que lhe parece.
      Nem parece que trabalham com processos.
      Tenham noção!!!!

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    2. Concordo plenamente.
      Assim deve de ser.

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  3. Pois é foi em 2005!..

    Dec Lei 229/2005.

    E os seus autores têm nome e um partido que curiosamente são os mesmo que atualmente estão no poder e que têm desprezado a classe dos Oficiais de Justiça.

    Dec Lei 229/2005

    Artigo 7.º
    Entrada em vigor
    O presente decreto-lei entra em vigor em 1 de Janeiro de 2006.

    Visto e aprovado em Conselho de Ministros de 3 de Novembro de 2005. - José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa - António Luís Santos Costa - Fernando Teixeira dos Santos - Alberto Bernardes Costa - Francisco Carlos da Graça Nunes Correia - Manuel António Gomes de Almeida de Pinho - Luís Medeiros Vieira - Mário Lino Soares Correia - José António Fonseca Vieira da Silva - Francisco Ventura Ramos - Maria de Lurdes Reis Rodrigues - José Mariano Rebelo Pires Gago.
    Promulgado em 21 de Dezembro de 2005.
    Publique-se.
    O Presidente da República, JORGE SAMPAIO..


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    1. Cai por terra, finalmente, a conversa de que foi em 2014. A mudança ocorreu em 2005 e foram responsáveis, até pela inercia, o sfj e os seus dirigentes. Até hoje há um manto de mentira, que continua a insistir, com o sfj na linha da frente, que a mudança ocorreu em 2014. Não, em 2014 anteciparam-se 2 ou 3 anos. Nunca interessou ao sfj a reforma aos 55 anos, pois interessa manter os associados mais anos. O resto é conversa da treta.

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  4. Já é conhecido o chefe de cozinha agraciado pela caravana "boa cama boa mesa" com a "estrela Michelin"?...

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  5. Este sfj é só 'fofinho'.

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  6. Deixaram que chegassemos a este ponto, carne para canhão! só resta fazer o minimo dos minimos porque também é isso que nos pagam e querem continuar a pagar e, assim, devemos pasar passar mais tempo desligados do serviço

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