Mais um relatório intitulado “Reforma da Justiça” que também afeta os Oficiais de Justiça

      A Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES), uma organização cívica com 51 anos que terminou o seu congresso no passado fim-de-semana, apresentou mais de 60 propostas para, como diz, melhorar a eficiência, a qualidade e a transparência da Justiça.


      Esta Associação propõe, entre outras, uma fusão geral de todos os conselhos, extinguindo todos os atuais conselhos superiores, das magistraturas judiciais e do Ministério Público, dos tribunais administrativos e fiscais e também o Conselho dos Oficiais de justiça.


      Lê-se assim no relatório:


      «Unificar num só órgão os atuais Conselho Superior de Magistratura, Conselho Superior do Ministério Público, Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais, Conselho dos Julgados de Paz, Conselho Superior dos Oficiais de Justiça e Conselho Superior da Ordem dos Advogados.»


      A SEDES denomina esse novo super-conselho como o “Conselho Superior Judiciário (CSJ)”, porque, como consta no relatório, considera que os problemas da justiça não se devem fundamentalmente à falta de meios, mas a “um sério problema de gestão” aliado a uma cultura judiciária “anquilosada” e a uma classe política pouco corajosa.


      Quanto à composição, lê-se assim no relatório “Reforma da Justiça”:


      «A composição do CSJ deve assegurar uma paridade entre Juízes/Magistrados do Ministério Público, por um lado e não Magistrados, por outro, devendo a nomeação dos respetivos membros competir: ao Presidente da República (20%), à Assembleia da República (25%), às Magistraturas (20%), à Ordem dos Advogados (6%), Defensores Públicos (2%) e aos Oficiais de Justiça (2%) e ainda (25%) a organizações da sociedade civil.»


      Associada ao Conselho Superior Judiciário (CSJ), mas a funcionar de forma autónoma, a “Comissão Judiciária de Avaliação” seria o novo órgão de disciplina e avaliação de todo o setor, composto por juízes, procuradores, advogados e pessoas de reconhecido mérito, com formação não jurídica, requisitados em regime de exclusividade.


      O grupo de trabalho da justiça, coordenado pelo advogado Jorge Bleck, propõe ainda a criação da carreira do defensor público, recrutados através de provas públicas entre os advogados com mais de cinco anos de prática, que assegure a defesa dos direitos dos cidadãos mais carenciados e um corpo de advogados do Estado exclusivamente responsáveis pelo apoio jurídico e defesa dos organismos que integram a administração direta do Estado.


      Os juízes presidentes das 23 comarcas veriam o seu papel reforçado, “nomeadamente quanto à triagem dos processos entrados e aos bloqueios na evolução processual, permitindo-lhe que zele por uma adequada distribuição e divisão de trabalho em função da quantidade, complexidade e especialidade dos processos”.


      Tal implicaria uma revisão do princípio do juiz natural que na sua atual configuração, considera o grupo, constitui “um entrave anacrónico à produtividade e, logo, à eficiência e eficácia nos tribunais que julgam matérias cíveis”.


      Quanto aos Oficiais de Justiça, propõe-se ainda colocá-los sob a jurisdição do juiz presidente de cada comarca. Lê-se assim:


      «Retirar os Oficiais de Justiça da alçada do Ministério da Justiça, colocando-os sob a direção, poder disciplinar e avaliação do Juiz Presidente de cada Comarca, com possibilidade de recurso para o CSJ.»


      Também os administradores judiciários, um dos três membros que integram os órgãos de gestão das comarcas, deveriam ter mais competências, de forma a otimizar os recursos disponíveis.


      Já o Ministério Público deveria reorganizar as suas competências, concentrando-se no seu papel essencial e libertando-se de tarefas que são acessórias, sugere a SEDES. Propõe-se a manutenção das responsabilidades na área criminal e de menores, para se prescindir das competências na área laboral e da representação dos interesses difusos.


      A SEDES defende a introdução de indicadores de performance adequados à realidade de cada comarca em termos de qualidade e quantidade para juízes, procuradores e para os próprios tribunais, bem como a possibilidade de os cidadãos poderem seguir a evolução do seu processo judicial numa plataforma digital.


      Sugere ainda a criação de um sistema de alertas automático que avise as várias partes, juiz, secretário e o juiz presidente da comarca sempre que um processo esteja sem movimento há mais de três meses.


      Numa lógica de aumentar a transparência e melhorar a eficácia sugere-se a publicitação anual das estatísticas de cada comarca, que permitam uma monitorização pública do trabalho dos tribunais, que deveriam ser listados num “ranking”.


      O grupo quer que o acesso às magistraturas e às carreiras de defensor público e de advogado do Estado seja feito através de um tronco comum de dois anos de formação, após a licenciatura/mestrado, ministrado pelo Centro de Estudos Judiciário, cujo diretor deveria ser eleito pela Assembleia da República a partir de uma lista de três nomes apresentada pelo Governo, para um mandato único de sete anos.


      Defende-se ainda o reforço na formação contínua dos profissionais desta área e a criação de juízes especialistas em determinadas áreas. Magistrados, advogados do Estado e defensores públicos deveriam ter uma parte da remuneração fixa e outra variável (entre 10% e 25% do total), em função da avaliação e formação.


      Consciente da resistência que concretizar grande parte destas medidas iria implicar, Jorge Bleck desabafa: “Somos um país avesso à mudança. Parece que o 25 de Abril não chegou à justiça.” Insistindo que a SEDES não propõe nada que não exista noutro país europeu, o coordenador do grupo exemplifica: “A Holanda tem 14 milhões de habitantes e possui um Conselho Superior Judiciário com apenas cinco pessoas, três das quais magistrados. Somos pobres e ineficientes. Eles são ricos e eficientes.”


      Para produzir este relatório, o grupo de trabalho – composto por cerca de dez pessoas entre advogados, académicos e juízes – reuniu-se quinzenalmente durante cerca de um ano, tendo ouvido ex-governantes da área da justiça e os presidentes das duas associações sindicais representativas de juízes e procuradores, entre outros.


      Esta Associação SEDES possui um histórico de um relevante pendor de “Bloco Central”, embora mais tendente a alinhar com a linha ideológica do PSD, sendo muito apropriada a relevância dada à mesma nos tempos que correm, onde se perfila, cada vez mais, a futura união Costa/Rio; união esta que a ambos interessa e salva.


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      Fontes: “Relatório SEDES: Reforma da Justiça” e “Público”.

Comentários

  1. Preocupado o articulista com o teor do relatório da SEDES? Sim, parece, mas mais numa lógica sindical do que de melhoria para a classe. Vejamos, quanto à proposta de unir todos num só Conselho, discordo, e discordo apenas na parte dos magistrados do MºPº, pois esses, entendo, até porque têm a chamada “autonomia” e o paralelismo com a magistratura judicial, devem ter um órgão próprio autónomo do dos juízes. No entanto, entendo que a atual composição CSMP está mal, e está mal porquê? Porque o CSM (órgão de disciplina e que aprecia o mérito dos juízes) tem uma composição em que os não magistrados estão em maioria, ao contrário, o CSMP tem na sua composição uma maioria de magistrados, o que torna este órgão demasiado próximo aos interesses do sindicato; ora, se o MºPº tanto fala em paralelismo de carreiras com a dos juízes porque não mudar a atual composição, passando a ter a maioria de não magistrados? Se os juízes que são independentes, não autónomos, como os do MºPº, e não foi a composição maioria dos não juízes do CSM que traiu os seus anseios ou acham que sim? Como defende o sindicato do MºPº?
    Agora, realmente não percebo porque não integrar o Conselho Superior dos TAF,s no CSM, criando, no seu seio, um órgão próprio com a composição apropriada. Aliás, tem sido, a meu ver, uma cultura defensiva, integralmente corporativista, que tem pululado a justiça administrativa e fiscal que, neste momento, toda a gente, até Marcelo Rebelo de Sousa, e este é PR, e por isso maior responsabilidade, diz á boca cheia que o verdadeiro problema na Justiça em Portugal é com a justiça administrativa e fiscal!
    Dos OJ, devo dizer que defendo que deviam sair da lógica da administração do estado, passando a ter como tutela o CSM, como aliás acontece em vários países civilizados da Europa, ganharíamos muito mais em ter como0 negociadores o Presidente do STJ e, por inerência, presidente do CSM, e não os sucessivos ministros da justiça, e os inarráveis secretários de estado que até hoje, e assim vão continuar, nesta inação e os OJ têm sido distraídos por manobras de diversão dos sindicatos que protestam e protestam e não conseguem nada…e sabem porquê? Porque quem manda na justiça e em todos os ministérios, sobretudo quando está em causa aumentos de despesa, são as finanças. Por isso é que leio às vezes alguns OJ contra o atual governo e a insinuar que votem noutro, só pode ser no PSD, nesta lógica de governas tu, governo eu, quando o que está em causa é muito mais do que esta pobreza da discussão do voto e ganhar-se-ia incontavelmente muito mais se começamos a lutar, até para pressionar os governos e os ministérios, para integrarmos o CSM. Claro que nesta lógica de mudança muito dos OJ que estão na DGAJ teriam que regressar aos tribunais; paciência, mas eles não escolheram ser OJ?

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    Respostas
    1. bem dito! mas acha que o CSM queria que nós fizéssemos parte "deles"??

      somos carne para canhão, sem capacidade reivindicativa porque não somos unidos nisso! olhem para os camionistas ou para os franceses quando querem fazer-se ouvir e conseguir algo justo!

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    2. Acho? Acho, tenho a certeza...comece a penar nisso e mobilize os próximos e vai como todos vamos ganhar! E sabe, as funções dos OJ são funções que se estabelecem, se ligam e são conexas, com titulares de órgãos de soberania, por isso em qualquer luta sindical não se pode perder o chinelo e essas lutas de pancada e berraria, nas ruas, acabou há muito, ou ainda não percebeu isso?
      Cumprimentos e bom trabalho

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    3. "Votar no PSD nesta logica de governas tu, governo eu"!
      Curiosamente não foi Rui Rio que defendeu a alteração da composição do CSMP?..

      Curiosamente o colega tem a mesma opinião de Rui Rio que se propôs a pedir a alteração da composição do CSMP.

      Expresso:
      "Rui Rio vai propor alteração do Conselho Superior do Ministério Público na revisão constitucional
      PSD insiste na necessidade de alterar a composição do órgão de disciplina e de avaliação dos procuradores e na forma como são nomeados os membros do Conselho Superior do Ministério Público"!....

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  2. E a maçonaria onde entra?

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  3. É só interesses ocultos por detrás desta linguagem demagógica !!
    Meus amigos...isto é simples. Somos uma causa perdida, sem futuro e todo o sistema está condenado a nunca sair desta neblina que a tantos interessa.

    A JUSTIÇA NESTE PAÍS ESTÁ CONDENADA A SER O QUE É PORQUE NINGUÉM REALMENTE A QUER MUDAR, SEM INTERESSES OCULTOS !!

    Niguém consegue gerir e governar tantos interesses, seja CSM, seja CSMP, seja sindicatos, seja advogados, seja solicitadores... não há hipótese !!

    Um dos maiores pilares da democracia de qualquer país civilizado está refém de interesses instalados há décadas e não consegue evoluir, melhorar. Isso nunca acontecerá!!
    A mudança obriga a cedências. E alguns simplesmente não sabem o que "ceder" quer dizer.

    Ainda hoje vemos, de forma vergonhosamente descarada, advogados de corruptos condenados ou em vias disso, mandar bitaites criticando a justiça em todos os canais e a cada hora!!

    E com direito de antena sem contraditório durante horas por semana !!

    Acham isto normal??

    Como pode a justiça ser independente e isenta???

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