“Os Juízes e os que se julgam Juízes”

      «O que uma pessoa atenta não pode deixar de constatar é que, à magistratura judicial, começam a aportar não apenas indivíduos com a vocação de juiz, mas também doutrinadores, funcionários públicos e, pasme-se!, pobres soberbos a quem não se pode dar a chave de um palheiro.


      Nasci numa família de juristas. O meu avô foi advogado e notário, o meu pai delegado do Ministério Público, a minha mãe foi juiz, eu e a minha filha somos advogados. Enfim, apesar de todos termos cursado Direito, a família acabou por não se especializar em nenhuma profissão específica do ramo. Talvez, por isso, nunca me tenha reconhecido naquela rivalidade tão típica que hoje existe entre advogados e magistrados. Aliás, nasci e cresci num ambiente completamente avesso a qualquer suspeição, por mínima que fosse, sobre a idoneidade dos magistrados judiciais.


      E para além de poder contar hoje, no meu apertado círculo de amigos, com juízes de reconhecido mérito, tenho felizmente a honra de pertencer a uma família onde todos aqueles que seguiram a magistratura judicial chegaram a juízes conselheiros: o meu primo e ilustre penalista Lopes Maia Gonçalves, o meu primo direito Leonardo Dias, a minha mãe e o marido da minha mãe.


      É, por isso, natural que hoje me doa, particularmente, quando constato que a degradação do sistema judicial a que todos vimos assistindo (e para a qual, diga-se, todos temos contribuído), também já atingiu duramente a classe dos magistrados, que eu, desde o berço, aprendi a reverenciar.


      Mas afinal o que é que os meus avós e os meus pais me fizeram ver de especial num juiz para que eu os tivesse em tanta conta?


      A resposta é simples e evidente: porque é o juiz quem faz justiça. E essa responsabilidade enorme está obrigatoriamente ligada a duas qualidades indispensáveis ao exercício da função: o bom senso e a preocupação em ser justo. Como costumava dizer, com uma certa graça, o meu primo Maia Gonçalves, “um juiz tem de ser necessariamente um homem bom e sensato. Ponto final. E, se possível, letrado.”


      À magistratura judicial, começam a aportar, como acima se disse, não apenas indivíduos com a vocação de juiz, mas também doutrinadores, funcionários públicos e, pasme-se!, pobres soberbos a quem não se pode dar a chave de um palheiro.


      Qual é a diferença entre um juiz, um doutrinador e um funcionário público? É que, ao contrário do juiz que procura fazer justiça, o doutrinador procura fazer doutrina e o funcionário público procura despachar processos. Ou seja, do doutrinador sai sempre a solução mais inesperada (para ser inovadora) e do funcionário público a solução mais fácil (para não dar muito trabalho). Qualquer das duas hipóteses só serve para fazer abalar a fé do cidadão na justiça e nos tribunais. A justiça para ser justiça tem de ser justa. E para ser justa tem de ser inteligível aos olhos do cidadão.


      Quanto àqueles a quem não se pode dar a chave de um palheiro, são um caso típico português que, infelizmente, também já chegou à magistratura com a complacência dos senhores inspetores e do Conselho Superior da Magistratura. Até porque aqueles que têm este perfil são tão servis relativamente àqueles que consideram seus superiores como despóticos e prepotentes relativamente aos que consideram seus inferiores.


      O poder transforma-os e alucina-os, não respeitando ninguém, nem as testemunhas, nem os funcionários, nem os advogados, nem os militares da GNR, nem os agentes da PSP. No fundo, nem a si próprios se respeitam. »


JuizesCartazManifSeculos.jpg


      Fonte: reprodução (com ligeira adaptação) do artigo de opinião subscrito por Santana-Maia Leonardo publicado no jornal O Mirante.

Comentários

  1. Na mouche !!

    ResponderEliminar
  2. Ora aí está! «o bom senso e a preocupação em ser justo»

    Onde mora isso nos dias de hoje?

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ministério da Justiça já tem novos mapas de pessoal da 1ª instância

A carreira dos Oficiais de Justiça é a terceira mais envelhecida da Administração Pública

Mais um acordo assinado e foi “uma grande vitória” e foi “o que se conseguiu”, diz o SFJ