Votados ao Abandono
Na última edição do Expresso, deste fim de semana, pode ler-se um artigo intitulado "Um Estado a Cair aos Bocados".
Destaca o Expresso que a "máquina da Administração Pública está cada vez mais velha e lenta. Instalações degradadas e atrasos tecnológicos afetam a saúde dos funcionários".
«Salas sem luz natural nem ventilação, infiltrações e mofo, tetos e elevadores que já caíram, baratas, ratos e outros bichos que mordem os funcionários, instalações para atendimento ao cidadão sem privacidade.
Agressões verbais, funcionários sem consultas de medicina no trabalho, casos de “burnout” que já terão contribuído para tentativas de suicídio no local de trabalho. Computadores com mais de 15 anos, programas informáticos lentos e que não funcionam em rede, equipamento novo que se avaria poucos dias depois.
Nas últimas semanas, estes problemas foram relatados ao Expresso por funcionários administrativos do Estado espalhados pelo país. O retrato é de uma Administração Pública lenta, arcaica e envelhecida: alguns serviços correm mesmo “o risco de desaparecer” nos próximos anos, devido ao ritmo de reformas e saídas.
“Perdeu-se muito tempo desde 2015. O crescimento económico que houve não foi aplicado na Administração Pública”, resume José Abraão, secretário-geral da Federação de Sindicatos da Administração Pública (FESAP).
O setor mais envelhecido do Estado é o dos oficiais dos registos e notariado, com uma média de idades de 56,1 anos.
Há duas décadas que não entram novos funcionários, o processo de formação demora dois anos, mas “todos os anos as Finanças chumbam pedidos de recrutamento externo”, lamenta Arménio Maximino, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores dos Registos e do Notariado.
De 2021 para 2022, o orçamento do Instituto dos Registos e do Notariado (IRN) perdeu € 12 milhões.
Os Funcionários Judiciais são outra das carreiras mais envelhecidas. Fizeram greve há duas semanas, afetando a retoma dos tribunais após o verão. “As entradas não compensam o ritmo das saídas e não há ninguém que queira entrar”, lamenta António Marçal, presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ).
Mais de 2500 funcionários vão reformar-se até 2028. Destes, cerca de 300 vão sair já no final do ano.
O último concurso foi em 2019: 100 vagas, com salários líquidos abaixo dos € 800,00 que não foram preenchidas.
No Tribunal de Sintra, por exemplo, todos os candidatos desistiram – a mesma comarca (Lisboa Oeste) onde há um défice de 35% de funcionários em relação ao estipulado na lei. Além disso, há cada vez mais Oficiais de Justiça a sair para outros setores estatais, como a Segurança Social ou a Autoridade Tributária. “Vão ganhar mais”, lembra Marçal.
No início de setembro havia 289 concursos abertos na plataforma Bolsa de Emprego Público. Descontando instituições do ensino superior, autarquias, juntas de freguesia e outras entidades locais, só 10 concursos disponíveis eram para a administração central – 3,46% do total. Nenhum oferecia um contrato de trabalho sem termo, apenas ligações de dois anos ou regimes de substituição.
Em junho de 2015, poucos meses antes de António Costa ser empossado primeiro-ministro, menos de 70 mil pessoas tinham um vínculo precário com o Estado, segundo a Direção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP). Hoje são mais de 96 mil.
“Perguntam-me quando iremos chegar a uma situação de rutura, mas a rutura já está a acontecer”, afirma Gonçalo Rodrigues, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos. “Não há funcionários, os serviços funcionam de forma deficiente e não há estratégia.”
Em junho, o Governo assumiu que é necessário simplificar o processo de recrutamento centralizado para a Administração Pública, dado que desde 2019 desistiram 21% dos técnicos colocados.
Nas Finanças de um concelho do Alentejo com quase cinco mil habitantes há apenas dois funcionários a trabalhar. Têm os dois mais de 60 anos e “quando se reformarem não fica ninguém”.
“Não se permitiu a transmissão de conhecimento intergeracional e vamos pagar muito cara essa fatura”, diz Arménio Maximino, que acusa o Governo de “laxismo”. Está em curso a segunda edição do programa de estágios na Administração Pública para jovens licenciados até aos 30 anos. Os estágios duram nove meses, mas a lei não permite que as pessoas sejam contratadas no final.
Na edição de 2021 nem todas as 500 vagas disponíveis foram preenchidas.
Muitos dos locais onde trabalham os serviços burocráticos do Estado estão num elevado estado de degradação.
No serviço de Finanças de Vila Nova de Gaia há “graves problemas na estrutura do edifício”, “já caíram varandas e [parte do] teto”, e as infiltrações e problemas de mofo são recorrentes há anos. A Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) já recebeu pelo menos duas queixas sobre estas instalações, a última das quais no mês passado.
Nesse documento, que o Expresso consultou, foram denunciadas as condições de cerca de 50 espaços por todo o país.
Há cadeiras partidas, salas sem piso, elevadores sem manutenção, que colapsam, problemas de esgotos. O pó e a sujidade são dificuldades diárias. Há arquivos em várias conservatórias que não são limpos “há mais de 15 anos”.
Em vários serviços da Justiça “proliferam baratas” e as casas de banho não têm condições sanitárias ou não existem de todo. Num concelho do distrito de Santarém o edifício que alberga um dos principais serviços públicos está coberto por amianto. “São precisas obras em muitos edifícios [da Justiça] ”, constata António Marçal.

O problema também é tecnológico. Tanto ao nível de medidas como de discurso político, o foco do Executivo nos últimos anos tem sido facilitar a interação entre o cidadão e os serviços públicos, sobretudo durante a pandemia.
Os bons resultados estão plasmados em relatórios da OCDE e da UE, mas não mostram tudo: a casa do Estado tem hoje um telhado renovado, mas as fundações em ruínas.
Os computadores públicos são velhos, alguns com mais de 15 anos, “não aguentam” tarefas simples e têm “velocidades de internet verdadeiramente jurássicas”. “Desliga e volta a ligar" é a solução mais repetida pelos técnicos informáticos que apoiam os tribunais”, conta um funcionário judicial em Lisboa.
Nas Finanças, há administrativos que ligam o computador de manhã e “meia hora depois” ainda estão à espera que arranque.
A plataforma dos Tribunais Administrativos e Fiscais (SITAF) chega a bloquear “10 a 15 vezes por dia”, não num único tribunal, mas a nível nacional.
“Os funcionários perdem o trabalho que estavam a fazer e começam de novo”, aponta António Marçal.
Em julho foi notícia o apagão informático de tribunais e conservatórias durante várias horas, após uma atualização do sistema.
As polícias e os tribunais nem sempre comunicam de forma digital: os despachos chegam muitas vezes em papel, são digitalizados e só depois inseridos no Citius. “Mas também há falta de digitalizadores”, a que se juntam os telefones.
Devido a alterações recentes no sistema informático, os inspetores tributários têm de colocar relatórios na plataforma “parágrafo a parágrafo”, em vez de introduzir o documento todo de uma vez.
Em alguns processos, os trabalhadores das conservatórias têm de inserir os mesmos dados em três ou quatro aplicações diferentes. “Devíamos ter uma única interface para todas as aplicações. Poupávamos horas de trabalho”, queixa-se Arménio Maximino. O IRN é a entidade detentora dos dados pessoais afetos ao Cartão de Cidadão, mas não consegue migrar essa informação internamente: os dados são copiados manualmente de uma aplicação para outra.
“Sempre que há um constrangimento tecnológico, temos de pedir ajuda ao Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça (IGFEJ). Mas as intervenções nunca acontecem ou são deficitárias”, exemplifica Arménio Maximino. E como as entidades estatais não conseguem resolver os problemas, a solução é só uma: “outsourcing”.
Só no primeiro semestre deste ano o Estado gastou € 100,2 milhões em contratações externas de serviços tecnológicos, incluindo a subcontratação de tarefas como imprimir ou digitalizar documentos oficiais.
Há vários exemplos recentes destes serviços subcontratados disponíveis no portal Base, que publica todos os contratos públicos: a Direção-Geral do Tribunal de Contas gastou mais de € 38 mil no final de agosto para garantir cópias e impressões durante 60 meses; os serviços administrativos do INEM fizeram o mesmo por € 18 mil, e a DGS também, por quase € 80 mil. “Não é nada certo que seja mais barato e eficaz gastar dinheiro com "outsourcing" e há atividades que não podem estar dependentes de agentes externos”, aponta Ricardo Paes Mamede, economista especializado em políticas públicas.
Esta dependência não é desejável por duas razões: questões legais, como a proteção de dados pessoais, que já falhou em casos como o “Russiagate” ou o acolhimento de refugiados ucranianos, e a interligação que tem de existir (ou deveria) entre muitos serviços. “É um investimento inglório porque perpetua os problemas”, indica José Abraão.
Estes fatores afetam a saúde dos funcionários, sublinham os sindicatos. Independentemente da área governativa, todos os administrativos que falaram com o Expresso disseram o mesmo: não têm acesso a consultas de medicina no trabalho, obrigatórias por lei. Nos tribunais, as baixas prolongadas estão a aumentar “exponencialmente”, sobretudo nos núcleos mais envelhecidos.
A maioria dos oficiais dos registos e notariado estão em “burnout” devido à carga de trabalho, estima Arménio Maximino.
Ansiolíticos e antidepressivos são frequentes neste e noutros serviços. “Os utentes culpam quem lá está. Há muitos funcionários que vão trabalhar com medo.” “Dizem que no Estado ninguém atende o telefone. Não fazemos outra coisa. Só no meu serviço ficam 120 chamadas por atender numa hora”, diz um funcionário de uma conservatória em Lisboa.
“Não conseguimos dar aos cidadãos um serviço essencial em tempo razoável, e isso tem impacto na economia. São projetos e investimentos que não avançam”, lamenta Arménio Maximino.
“As pessoas queixam-se. Querem ser atendidas e não conseguem”, conta um trabalhador de um serviço público no Alentejo, acrescentando que os funcionários mostram “vergonha” quando são confrontados na rua pelos utentes.
“Com as saídas a aumentarem, há um evidente risco de o Estado ficar sem pessoas [nos próximos anos]”, sublinha Paes Mamede. Se este ritmo continuar, a AP terá de contratar mais 150 mil pessoas até 2030 para responder às necessidades atuais, indica um relatório do ISCTE de 2020.
As negociações entre Executivo e sindicatos começam este mês. António Costa já prometeu aumentar os salários, mas a Função Pública vai ter a maior perda de poder de compra desde 2010 (6,5%) e também quer melhores condições de trabalho.
“A legislatura vai ser longa, e em 2023 teremos o primeiro Orçamento 100% deste Governo. Queremos acreditar que a aposta na Administração Pública será diferente a partir do próximo ano”, vinca José Abraão. Caso contrário, entrar-se-á num período “de grande agitação social”. A Função Pública já entregou 14 avisos prévios de greve desde o início de agosto.»

Fonte: "Expresso".
Parabéns ao jornalista do Expresso.
ResponderEliminarÉ um retrato fidedigno o que foi relatado na peça transcrita.
Excelente artigo jornalístico que resume o estado geral dos serviços públicos.
Será que alguém conseguirá elaborar um relatório tão simples -e tão preocupante, mas tão sério e real que não encontramos paralelo nos organismos citados?
Não, porque o que está aí para ficar é o DIGITAL.
Mas a vida, a impressão dos dias diz-nos que é preciso mais, diz-nos que é preciso olhar para as pessoas
Acho que a pergunta se deve fazer é se é intenção do governo em manter ou não a classe de oficiais de justiça? Se não é, deixa arder!!!
ResponderEliminarQuarta-feira é que é. Á pois é. De Quarta não passa e a quinta não chega. Á pois é.
ResponderEliminarCuidado, bomba atómica a caminho, nos aviões do SFJ e SOJ. Á pois é.
Sinceramente, o que eu queria era um artigo no Expresso só sobre todos os problemas que afligem, afetam os OJ! Ah, sem falar dos edifícios, porque para isso estão os sindicatos! No meio dos problemas enumerados são sempre os mesmos a receberem mais benesses. Para os OJ, nada! Isto porque há os que são mais bem representados que outros! Só pode ser!
ResponderEliminarE já agora, os sindicatos que proponham ao Expresso que se debrucem só sobre os problemas dos OJ! Façam-no!
ResponderEliminarAproveitando a pausa fornecida pelo sistema informático:
ResponderEliminarMais uma vez, estamos a desaproveitar toda a expectativa e vontade criadas com a greve dos dias 01 e 02 de Setembro.
Para aquela greve e todos os sacrifícios que a mesma acarretou, ser frutífera, outra greve, por período de tempo mais longo, já deveria ter sido marcada.
A não ser assim, mais uma vez andámos no folclore e a "brincar" às greves só para os sindicatos fazerem prova de vida.
Podemos atribuir culpas à tutela, que as terá certamente, mas a visão da tutela é uma e, porventura no oposto, encontra-se a nossa visão, representada pelos sindicatos.
Sobre a tutela já todos nós estamos esclarecidos, mas a mesma não tem que responder pela inércia sindicalista, que até lhe convém.
Fazemos uma greve com uma adesão histórica.
ResponderEliminarTemos os colegas mobilizados.
A seguir é o silêncio.....
Perdeu-se o élan...
Não se deve criticar os sindicatos por criticar.
Mas o que anda a fazer o SFJ??
O que andam a fazer os colegas (dizem que são para aí uns 7 ou 8) a tempo inteiro no SFJ??
Andam a atender telefonemas com queixinhas de secretários??
Andam a resolver a vida deles??
Não deviam ser mais proativos??
Alguém sabe quem são??
Vem aí o orçamento de estado, é agora ou nunca.
Pergunto mais uma vez; o que andam a fazer??
FF
Apoiado!
ResponderEliminarComo diria o Abrunhosa: talvez ...
ResponderEliminarSe calhar andam a ver de que forma podem aproveitar mais subsídios a formações no âmbito das inflo-exclusoes, etc.
Como é costume
ResponderEliminarO prazo terminou há 5 longos dias...
ResponderEliminarEm matéria de greve não podemos fazer como a Guarda Prisional???
"Greve ao Serviço de Diligências do Corpo da Guarda Prisional no período compreendido entre os dias 19 a 25 de Setembro"
Greve apenas e só às diligências???
Então não andam em Berlim? Até o Fernando Jorge foi.
ResponderEliminarInstalações para atendimento ao cidadão sem privacidade?!..
ResponderEliminarUm verdadeiro imbróglio com a implementação dos balcões + para atendimento ao público.
Os locais onde foram instalados não garantem a privacidade dos utentes nem a confiabilidade dos dados e da informação que lhes é prestada.
"Uma casa dos segredos" ou um "Big Brother" com os outros utentes da Justiça, ali presentes, a assistirem!..
Os responsáveis da proteção de dados do Ministério da Justiça têm que estar mais atentos a estes projetos e passar a emitir parecer prévio a instalação destes novos "serviços".
Não causem mais problemas aos OJ porque são eles que diariamente "dão a cara" no B + e ouvem as reclamações.
Uma "disfunção" reivindicativa resultante de "castração política"!...
ResponderEliminarComunicado do SOJ:
ResponderEliminar"....Outrossim, outras formas de luta terão de ser exercidas, até que se alcancem os objetivos da carreira. O SOJ vai cumprir o compromisso, como invariavelmente o faz, assumido em Plenário e, assim, ainda este mês serão apresentadas outras ações.
Lisboa, 2022-09-09"
Continuamos a espera!....
Ir para o Sindicato é porta aberta para um lugar político na áurea da cor política vigente. Que o diga o ex Presidente da Junta de Freguesia da Charneca da Caparica.
ResponderEliminarQue almejava à Direção da CGTP. Faltou-lhe o tamanho de um...danoninho
"..ainda este mês serão apresentadas outras ações". O mês de setembro ainda não acabou.
ResponderEliminarEsta palermice diária ignora o seguinte: o SOJ fixou um prazo que se esgotou no dia 15, mas isso não significa que logo a 16 aconteça uma greve ou outra coisa qualquer, significa que, depois de 15 tem o SOJ que reagir em obediência ao decidido no Plenário; Plenário só do SOJ, apesar do SFJ ter sido convidado e ter comparecido. E o SOJ já anunciou que - até ao fim do mês - anunciará algo. O mês é este, de setembro, e ainda não acabou. Para já o "timing" está bom. Caso acabe o mês de setembro e o SOJ nada diga, então terá falhado.
ResponderEliminarClaro que não. É uma das carreiras especiais a extinguir até 2026, segundo visita de governante á Comarca de Aveiro.
ResponderEliminarMuito bem observado. Deverá ser sugerido ao utente a existência de um livro de reclamações quanto às condições do atendimento.
ResponderEliminar
ResponderEliminarCoitado do senhor. Nem o deixam ser político a tempo inteiro.
Oupa mas é pra secção que estão lá os montes à espera.
E até ao lavar dos cestos é vindima ... mas este ano as vindimas vieram mais cedo. O tempo assim ditou.
ResponderEliminarTambém se exigia uma ação vigorosa e atempada pelas exigências das circunstâncias atuais, mas ... o tempo para os Sindicatos é outro, mas ainda não sabemos qual é ...