A Perda das Fortunas, de Van Dunem aos Oficiais de Justiça

      Em entrevista ao “Expresso” a ex-ministra da Justiça (e também um bocadinho da Administração Interna) Francisca van Dunem, que foi ministra de dois governos de António Costa, governando para todos exceto para os Oficiais de Justiça, disse que o seu marido "perdeu uma fortuna" com a passagem dela pelo Governo.


      A ex-ministra, que é casada com o jurista Eduardo Paz Ferreira, afirmou que o marido “perdeu uma fortuna” com a sua passagem pelo Governo, criticando a “onda populista” criada em torno de uma possível incompatibilidade de funções entre ambos.


      «Estão a criar-se linhas de pensamento que geram unanimismo em torno de posições sem adesão à realidade. Fui nomeada ministra da Justiça e sou casada há 30 anos com um professor de Direito Público que trabalhou em particular para o Estado, na área das finanças públicas. Ele não ficou diminuído por estar casado comigo e era lógico continuar com a atividade.


      Exigir que fosse diferente, significava eu não aceitar ser ministra, o que os populistas defendem, ou ele morrer na miséria. O meu marido perdeu uma fortuna.»


      Francisca van Dunem chegou mesmo a classificar a sua passagem pelo Governo como “uma tragédia” do “ponto de vista económico”.


      «Do ponto de vista económico, a minha passagem pelo Governo foi uma tragédia. Porque se gerou esta onda populista, “se ele é marido da ministra não pode trabalhar para o Estado”. O que levará a que ninguém queira ser padre nesta paróquia, ou seja, que ninguém queira ser ministro nesta República.».


      A ex-ministra considerou ainda que “um ministro não ganha para o que faz”, tendo em conta a exposição pública “tremenda” que afeta estes governantes e as suas famílias.


      «Honrou-me muito ter passado pelo Governo e servir o país, mas foi pesado do ponto de vista moral e financeiro. É só para pessoas com um grande amor à causa pública ou que estão no desemprego. Enquanto magistrada, ganhava mais do que no Governo», notou.


      Os Oficiais de Justiça, perante estas declarações, só podem afirmar que, realmente, a passagem de Francisca van Dunem pelo Governo representou, de facto, a perda de uma fortuna e foi uma tragédia, também do ponto de vista económico, mas para os Oficiais de Justiça.


      Os Oficiais de Justiça viram a sua carreira congelada durante os anos de governação desta ministra e, para além dessa inação – que apenas e abusivamente se verificou para com estes profissionais –, pior ainda, foi o facto de sempre terem sido enganados.


      A ex-ministra mentiu, descarada, sucessiva e periodicamente aos Oficiais de Justiça, prometendo o cumprimento de resoluções para a carreira que foi adiando, desculpando-se com as célebres “vicissitudes”, mas nunca deixando de afirmar que assistia razão nas reivindicações dos Oficiais de Justiça. Um engano e uma hipocrisia.


      Nunca antes nenhum governante deu tantas vezes razão aos Oficiais de Justiça, mas também nunca antes nenhum governante fez nada em relação a tanta razão que conferia a esses profissionais.


      Os Oficiais de Justiça perderam uma fortuna, não medida em milhares ou milhões de euros, mas, à sua escala, dos seus pequenos vencimentos que detêm, uma fortuna de dezenas e centenas de euros que, ao longo dos anos daquela governação, acabam mesmo por chegar à casa dos milhares de euros.


      A pouca fortuna dos Oficiais de Justiça deve-se à má governação exercida por Francisca van Dunem, designadamente, sem ir mais longe, por nunca ter concretizado a integração no vencimento do suplemento remuneratório, pago nas 14 prestações anuais do vencimento, em vez das 11 prestações atuais.


      Recorde-se que só a cerca de um mês de abandonar as funções é que veio acenar com uma proposta de Estatuto em que previa a integração a par da destruição de toda a carreira, chantagem putiniana que, evidentemente, não podia ser aceite, por propor uma paz em troca de uma grande perda de território na carreira.


      Pouca fortuna também na efetivação de Movimentos sem autorizar as promoções. Má fortuna no congelamento de ingressos, a par do aprisionamento dos elementos mais velhos que não libertaram a carreira pela aposentação, para que os mais novos pudessem progredir.


      Enfim, todos os anos em que Francisca van Dunem exerceu as suas funções como ministra da Justiça resultaram numa enorme perda financeira para os Oficiais de Justiça, nesses anos e nos anos seguintes, no presente, perdendo os Oficiais de Justiça, com ela, uma fortuna que, embora comparativamente com a tal fortuna do seu marido, não seja tao grande na dimensão, é, no entanto, suficientemente grande e enorme, para quem vive exclusivamente do seu trabalho e não pode pôr um preço a esse mesmo trabalho.


      Embora o conceito de enormidade e de fortuna seja relativamente diferente, para a ex-ministra e para os Oficiais de Justiça, o que é facto incontornável é que existiu e existe ainda hoje uma perda que ainda não foi nem se prevê que venha a ser recuperável, o que constitui, portanto, uma verdadeira tragédia económica advinda daquela má governação.


      Recorde-se que essa própria ministra não cumpriu sequer a lei da Assembleia da República que impôs, até com datas limite, a integração e o pagamento do suplemento remuneratório.


      Essa falta, em termos gerais, representa uma perda remuneratória anual de cerca de, em média e em números redondos, 300,00, para cada Oficial de Justiça. Ora, se considerarmos esse valor médio-baixo-arredondado por cada ano e levando em consideração que o Partido Socialista está na governação da República desde 2015, portanto, há 7 anos, a fortuna perdida, apenas neste aspeto da carreira, é de 2100 euros.


      Claro que não é um valor dessa dimensão que a ex-ministra considera uma fortuna perdida, quando refere tal perda nas suas declarações, mas para a dimensão de uma carreira pobre e empobrecida como é a dos Oficiais de Justiça, esse valor representa muito, tanto que todos o classificam, sem dúvida nenhuma, como uma verdadeira fortuna.


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      Fontes: “Expresso” e “Notícias ao Minuto”.

Comentários

  1. Bom dia! Muito bom artigo, parabéns ao seu autor. Tal como o anúncio publicado pelo SOJ há dias atrás num jornal, este post também merecia ser publicado num jornal de grande tiragem, como direito de resposta á entrevista concedida pela antiga ministra.
    No fundo, ela sempre viveu num mundo á parte.
    Bom fim de semana a todos os OJ e família.

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  2. Peço ao autor deste blogue que faça chegar este texto aos meios de comunicação social! Tem a sua pertinência neste momento, a ex-ministra merece esta resposta!

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  3. O legado de desrespeito de Francisca Van Dunem para com os Oficiais de Justiça!

    Visão saúde:

    "Covid-19: Oficiais de justiça queixam-se à Provedoria de discriminação na vacinação

    Lusa
    O Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ) alertou a Provedora de Justiça que estes profissionais estão a ser "discriminados no âmbito do plano de vacinação covid-19 que se encontra a decorrer, e no qual apenas juízes e procuradores estão a ser vacinados"

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  4. Só se lamenta a comunicação social continuar a dar tempo de antena a essa sra, assim como a outros membros da cambada governativa atual e pretérita, para permitir proferir tanta alarvidade pela boca fora!

    Quanto ao artigo, nada mais há acrescentar, pois reproduz integralmente a realidade de quem exerce uma função, que apesar de nobre, é cada vez mais desprezada....
    Sem dúvida, que este sim, deveria ser elegível para publicação num órgão de informação de destaque, não que acrescente algo perante a opinião pública, pois esta também já está de tal forma minada, que qualquer manifestação proveniente de um funcionário público, ou que retrate a realidade de uma classe profissional que exerça funções públicas, é imediato alvo a abater!

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  5. Ao invés, veja-se o exemplo de sua excelência, o então Presidente do Supremo Tribunal de Justiça

    Público:

    " CORONAVÍRUS
    Covid-19: lista de vacinação do Supremo Tribunal de Justiça integra 25 pessoas. Apenas três são juízes
    Supremo Tribunal de Justiça decidiu que os funcionários judiciais devem ser considerados prioritários na lista dos que devem ser vacinados contra a covid-19, uma vez que estão na linha da frente do trabalho. Presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses também defende que o critério de escolha das pessoas tem de atender ao risco da função que desempenham e não ao seu título ou posição hierárquica

    Sónia Trigueirão
    27 de Janeiro de 2021, 19:08"

    Para Francisca Van Dunem o título ou a posição hierárquica prevaleceram sempre até em questões de saúde!...

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  6. Gostava de ver uma representação dos Sindicatos dos Oficiais de Justiça junto da Assembleia da República no dia da apresentação do Orçamento de Estado para 2023 (na próxima segunda-feira), com um cartaz a recordar que as Leis dos Orçamentos de Estado de 2020 e 2021 continuam por cumprir!...

    Estejam presentes, para denunciar, junto da casa da democracia, este ilusionismo legislativo que não pára de surpreender e de indignar os Oficiais de Justiça!...

    Está na hora dos servos dizerem basta e que as leis são para cumprir.

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  7. Subscrevo inteiramente.

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  8. Subscrevo integralmente.
    Parabéns ao blog, mais uma vez.

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  9. Isso queria eu!

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  10. APOIADO! Sindicatos, vamos lá levantar a cabeça e começar a "vergar a mola", deixarem-se de caravanas, de encontros e reuniões sem resultado algum, de jogadas e combinações de bastidores. Não se pode pedir só aos trabalhadores que façam greve e esperar que algo se dê. Toca a mexer.

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  11. Execrável.
    Uma mercenária que se serve do Estado.
    Vive na sua bolha, no fundo deve pensar que é a última bolacha do pacote.
    Seria curioso perceber onde e como o marido ganha os tais milhões com o Estado.
    Quem lê com atenção esta entrevista percebe como é que o país chegou a este estado.
    No fundo, todos nós devíamos agradecer a está personagem o facto de simplesmente existir.
    Olha de cima para baixo.
    Miserável.....
    FF

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  12. E o mais triste é que houve colegas que até bateram as palmas, pois com esta sra tudo ia melhorar, pois até era magistrada.

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  13. Se o marido deixou de ganhar uma fortuna em SEIS anos quantas fortunas ganhou no passado e ganhará no futuro?

    Este Estado... só neste estado...!


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  14. Está senhora enquanto ministra só fez asneiras, menos uma. Conseguiu que mantivéssemos o estatuto, se calhar não vamos dizer o mesmo da atual ministra.

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  15. Não sei qual o interesse da comunicação social numa figura destas, com tanto assunto interessante. Ao menos confrontaram-na com o facto de, sendo um magistrada, enquanto ministra, por duas vezes não ter feito cumprir a lei. Assim como o facto de ter beneficiado os seus pares e ela própria.

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