O Crhonus dos Colaboradores e a postura do SFJ
Divulgou ontem o Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ) uma nota informativa em que aborda o assunto da plataforma denominada, no seu endereço, como “Portal do Colaborador” e detendo a marca “Crhonus”, vulgar e jocosamente conhecida entre os Oficiais de Justiça como “Cornos” ou “Cromos”.
Na referida nota, o SFJ começa por referir que “continua a acompanhar de perto a implementação do registo de assiduidade” – embora, talvez, não tão “de perto” quanto o façam diariamente os Oficiais de Justiça a quem foi dito que a utilização da plataforma tem caráter obrigatório.
O SFJ indica que “Na sequência do estudo realizado e atentas todas as informações que nos fizeram chegar, o SFJ enviou um ofício à DGAJ a solicitar a negociação coletiva (também já comunicada ao SEAJ), na medida em que entende não se poder aplicar este sistema sem estar devidamente regulamentado, nomeadamente quanto às especificidades dos tribunais e, bem assim, quanto à questão da proteção dos dados clínicos dos trabalhadores.”
O SFJ prossegue dizendo o óbvio: que “A DGAJ, através de ofício de 29-11-2022, respondeu, dizendo que o registo de assiduidade ainda está em fase experimental”.
Ou seja, que todos os Oficiais de Justiça vêm sendo “ratinhos de laboratório” treinados para colaborar com a entidade que vende o programa, colaborando para que o negócio se concretize e possa ser rentável para a empresa privada sem que os Oficiais de Justiça partilhem de tal benefício-lucro, bem pelo contrário e, aliás, como sempre, colaborando a custo zero.
Perante esta situação colaborativa, a postura do SFJ é a de que a colaboração deve continuar, devendo os Oficiais de Justiça continuar a participar nos testes, mas, ao mesmo tempo, continuar a usar o velho livro de ponto.
Diz assim:
«Em face da informação prestada, o SFJ alerta que deverão, em simultâneo, assinar o “Livro de Ponto”. Mais, advertimos de que não devem colocar na referida plataforma documentos referentes a dados de saúde.»
Portanto, é postura do SFJ que “em simultâneo” os Oficiais de Justiça devem realizar o registo de assiduidade obrigatório através da assinatura do libro de ponto e o registo como colaboradores na dita plataforma.
Impressiona o facto da aceitação tácita da denominação do “Portal do Colaborador”, aceitando-se que os Oficiais de Justiça não são trabalhadores, mas colaboradores, e que tal colaboração deve continuar, apenas salvaguardando os documentos relativos a “dados de saúde”.
Ora, os dados de saúde dos trabalhadores são apenas um dos vários e muitos aspetos dos dados pessoais que a plataforma absorve. Limitar o cuidado na utilização da plataforma à apresentação de documentação de faltas relacionadas com a saúde dos próprios ou dos seus familiares é algo muito, muito, curto.
Vejamos, por exemplo, o caso de um Oficial de Justiça que falta para avaliações de adoção ou posteriormente pela própria adoção concretizada, será isto algum dado sensível a proteger do conhecimento de entidades ou pessoas externas, ou apenas a consulta médica?
E por que razão se há de submeter no dito “Portal do Colaborador” o falecimento de um familiar, mas não o tratamento do dente número 53?
E se o Oficial de Justiça faltar para dar sangue, órgãos ou tecidos? E se fizer ou não fizer greve? Ou tão simplesmente for trabalhador-estudante e não “colaborador-estudante”?
O Oficial de Justiça pode pertencer a uma associação de pais ou fazer parte de uma entidade colegial de administração-decisão escolar ou simplesmente ser pai ou mãe, ou nem isso, mas encarregado de educação e ter que faltar para ir à escola; por que razão esta informação não carece da mesma proteção da que o SFJ pretende conferir a um atestado médico que, como bem se sabe, não especifica nunca a doença, apenas diz que a pessoa está doente e ausente do serviço por um determinado período de tempo.
Será que uma consulta pré-natal se enquadra no conceito de “dado de saúde”, uma vez que não está em causa nenhuma doença? E se o motivo for a amamentação ou aleitação?
E se a ausência se dever a uma assistência a filhos, tenham eles mais ou menos de doze anos, mas sejam portadores de uma deficiência, essa ausência já pode? E se for a um neto?
E se o Oficial de Justiça se casar, esse dado já pode ser do conhecimento geral?
Parece-nos claro que há todo um rol de ausências que não devem ser do conhecimento, nem de registo, de entidades e pessoas alheias aos serviços de justiça, tal como hoje sucede, pelo que o dito acompanhamento “de perto” que o SFJ diz fazer, soa bem mais a um acompanhamento longínquo ou distanciado.
O SFJ, enquanto sindicato que tem por obrigação legal a defesa dos trabalhadores, distancia-se, desde logo, pela cumplicidade da admissão da injuriosa apelidação de “colaboradores” aos seus trabalhadores representados e depois confunde a visão geral com a visão particular, isto é, como se diria numa consulta de oftalmologia ou de optometria, confunde a visão ao longe com a visão ao perto.
Continua a nota informativa afirmando que o SFJ recebeu “dezenas de informações” transmitidas pelos Oficiais de Justiça, participando “erros da aplicação”, acabando por recomendar “que as anomalias detetadas sejam dadas a conhecer aos secretários ou a quem os substitua, passando apenas a registar a assiduidade da forma convencional”. Quer isto dizer que a colaboração deve continuar, com a comunicação das anomalias, para que o negócio da empresa privada possa ir a ser exitoso, apesar do prejuízo do dia-a-dia dos Oficiais de Justiça.
Por fim, deixa ainda o SFJ um compromisso, ou uma ameaça, nos seguintes termos: “Segurem-me, senão vou-me a eles”.
«Na eventualidade do registo de assiduidade não sofrer as devidas adaptações, em face das anomalias detetadas, o SFJ ver-se-á obrigado a tomar as medidas necessárias à sua conformidade com o legalmente previsto, sem prejuízo de outros eventuais problemas que ainda se façam sentir de acordo com o que nos vier a ser reportado.»
Neste último parágrafo podemos ler expressões como: “Na eventualidade” e “outros eventuais”, bem como “que nos vier a ser reportado”, isto é, possibilidades; coisas que podem ser, mas que também podem não ser, e “medidas necessárias” que poderão vir a ser tomadas nesse tal futuro incerto que nada tem a ver com o presente certo que deixa por acautelar ou assegurar, perniciosamente aceitando a continuidade de mais este abuso.

Fonte: “SFJ-Info”.
Quer dizer que agora a DGAJ esta a fazer criação de ratos de laboratorio em parceria com uma empresa privada, e claro, com bons lucros para esta e à nossa custa.
ResponderEliminarTirem me desta alucinação.
Sem duvida, estamos a caminho de uma sociedade copiada da República popular da China. Esta era a hora de um sindicato a serio ter uma posição de força e nao admitir uma tamanha desconsideração destas aos trabalhadores que diz defender. Mais uma vez, parece que vai optar por uma linha de colaboração com a entidade patronal. Estou destroçado com tudo isto. Que passem depressa os cinco anos que me faltam para a reforma. Quero sair deste mundo de controle que querem impor.
SFJ é muito fraquinho.....
ResponderEliminarForça Marçal.
São mesmo uns co... moles...
ResponderEliminarO registo de assiduidade dos Tribunais, como todos vínhamos dizendo, era arcaico-rudimentar.
ResponderEliminarQue o Ministério/DGAJ/Administração andam desorientados, disso não temos a menor dúvida e que tudo tem corrido mal, são factos incontornáveis.
Agora, em artigo de opinião, utilizar termos como “Cornos” ou “Cromos” para significar os próprios oficiais de justiça é de uma má educação que não tem explicação.
Quem escreve também é oficial de justiça.
Não tem pudor de utilizar esses adjetivos para a sua pessoa?
Elegância, também na escrita, exige-se.
Seja mais exigente consigo próprio( "CROMOs").
Em conversa com alguns colegas sobre este assunto do cronus, as opiniões dividem-se. A grande maioria está revoltada, pois somos pessoas responsaveis e cumpridoras, que muito deram e continuam a dar do seu esforço para o bom andamento do serviço. Nao havia necessidade de mais esta afronta.
ResponderEliminarPor outro lado, ha aqui por parte do ministerio da justica, em relação aos funcionarios dos tribunais uma intencao de chantagem psicologica meia encapuzada. Criando a divisao entre nós, ou aceitas o cronus nas condições impostas pelos servicos da direção geral e és um bom menino, ou então se não aceitas e criticas é porque não cumpres o horario e és um baldas.
Ora, isto nao é assim, a submissão nao é sinonimo de competencia, pelo contrario.
Já agora, o título tem um erro! O nome da aplicação está mal escrito!
ResponderEliminarEnquanto nome de aplicação estava com as letras trocadas no título. Já está corrigido. Obrigado pelo alerta
ResponderEliminarNinguém está a designar os OJ como "cornos" ou como "cromos", apenas se está a dizer o que ali está escrito e que corresponde à realidade das conversas entre OJ.
ResponderEliminarA aplicação é jocosamente apelidada assim.
Por exemplo: ouvem-se coisas como esta: "Já foste picar no cornos?" enquanto outros lhe chamam "cromos" ou "cromus"...
Trata-se de uma brincadeira relacionada com a similitude fonética e, reitera-se, não se dirige a ninguém, mas à coisa.
ResponderEliminarCoitado... nem ler sabe...
Se eu soubesse o que sei hoje, tinha emigrado para Paris de France como os meus primos...
ResponderEliminarMas então todos os colaboradores da justiça assinam "cromos"?
ResponderEliminarAté os magistrados. Certo?
Ou não são funcionários públicos sem isenção de horário?
Dois pesos duas medidas, será?
Ora aí surge discriminação laboral, infracção laboral grave.
Mas que grande confusão vai nessa cabecinha...
ResponderEliminarSerá que tambem vão começar a chamar colaboradores aos magistrados?
ResponderEliminarOs dados pessoais não podem ser objeto de negociação coletiva.
ResponderEliminarO que o SFJ podia e devia ter feito era apresentar queixa a responsável da proteção de dados do Ministério da Justiça que pode ser contactada através do endereço de e-mail encarregado.protecao.dados.mj@dgpj.mj.pt.
Já agora, qualquer OJ que tenha dúvidas sobre a conformidade desta plataforma com o regulamento da proteção de dados, pode-o fazer.
Até porque esta plataforma é gerida por uma empresa privada!
ResponderEliminarA cerimónia de abertura do ano judicial de 2023 foi agendada para o próximo dia 10 de janeiro, a partir das 15h, no Salão Nobre do Supremo Tribunal de Justiça, em Lisboa.
Só espero que os Sindicatos representativos dos OJ, não atrelados ao poder, agendem uma jornada de luta para o mesmo dia e convoquem todos os OJ para se manifestarem no local onde se vai realizar a cerimónia.
Não percam mais esta oportunidade.
Vamos recordar memórias do passado, em que sua Excelência o Presidente da República dirigir-se ao então presidente do SFJ pedindo-lhe que lhe faça chegar um "papelinho" com as reivindicações e em que a anterior Ministra da Justiça, no seu discurso convidou os OJ, que se manifestavam lá fora, a entrarem porque aquela casa também era deles.
Não percam mais esta oportunidade!...
Para recordar:
ResponderEliminarhttps://sicnoticias.pt/pais/2019-01-15-Marcelo-ouviu-queixas-dos-oficiais-de-justica-durante-manifestacao
Para recordar.
ResponderEliminarhttps://www.rtp.pt/noticias/pais/abertura-do-ano-judicial-oficiais-de-justica-viraram-costas-a-van-dunem_v1123004
Sim sim, magnífico.
ResponderEliminarVirar as costas foi uma atitude inteligentíssima, viu-se o resultado....até hoje.
Quem luta, luta de frente, olhos nos olhos!
Olhe que não!
ResponderEliminarSerá visado no assunto?
Pelo arrojo, parece que sim.