A revolução na justiça não virá com a IA, mas com os RH

      Fernanda de Almeida Pinheiro é a atual bastonária da Ordem dos Advogados (OA), desde há pouco mais de um ano, e há dias subscreveu um artigo de opinião no jornal "Nascer do Sol", intitulado: "Uma revolução na Justiça".


      Nesse artigo, a bastonária da OA, disserta sobre a alegada revolução e panaceia do tão badalado advento da Inteligência Artificial (IA) na Justiça, considerando, em contracorrente, que a verdadeira revolução na Justiça reside, antes, no investimento nas pessoas, na aposta e reforço dos Recursos Humanos (RH), designadamente, refere, nos Oficiais de Justiça.


      Contra a atual tendência da crescente fé num futuro mais automatizado, como sendo o ideal e desejado, disse assim:


      «Na era da digitalização, da automação, e em pleno advento da Inteligência Artificial, a verdadeira revolução na Justiça será investir nos seus recursos humanos.


      Ainda que muitas vozes augurem (com um entusiasmo até um pouco excessivo) que o futuro da Justiça passará necessariamente pela tecnologia, não nos parece que as funções de Juiz, de Advogado, de Magistrado do Ministério Público e de Funcionário Judicial possam algum dia ser inteiramente substituídas por máquinas.


      A tecnologia desempenhará sem dúvida um papel importante, como ferramenta, como auxiliar para o desempenho daquelas funções, permitindo poupar tempo e recursos, mas nunca como substituto da intervenção humana numa área tão sensível como a da Justiça.


      E isto porque a Justiça não é feita apenas de números ou de dados, nem pode ser decidida com base em algoritmos. A Justiça trata da vida das pessoas. Pessoas com problemas concretos, com histórias de vida próprias, com personalidades e sensibilidades particulares, com receios, anseios, esperanças, etc.


      Advogados, Juízes, Procuradores, não são apenas meros coletores de dados que inserem num programa onde lhes é apresentada uma determinada solução jurídica.


      Numa consulta jurídica, por exemplo, o/a Advogado/a não se limita a informar o cliente sobre a lei aplicável ao seu caso concreto. O Advogado faz também aquilo que nenhuma máquina consegue fazer: fala com o cliente, mostra compreensão, compaixão, percebe a sua história, as suas reais motivações, tenta chegar a uma solução conciliadora, ou pode até perceber que a legislação atual, apesar de aplicável, não oferece uma solução justa para o caso concreto e deverá ser analisada no plano de princípios éticos e morais superiores.


      Da mesma forma, decidir um litígio é muito mais do que coligir argumentos contrários e decidir por uma das partes com base numa determinada solução legal. As pessoas não querem apenas que uma máquina decida quem tem razão. As pessoas querem sentir-se ouvidas, atendidas, querem perceber que as suas necessidades e razões foram tidas em consideração e devidamente ponderadas, que o seu problema foi entendido por outro ser humano, ainda que legalmente a solução até possa não lhe ser favorável.


      É por isso que a Justiça perdeu, quando os processos passaram a ser tratados como números e objetivos que era preciso atingir no final do mês, retirando aos Juízes o tempo necessário para a devida ponderação.


      É por isso que a Justiça perde, sempre que não se dá às pessoas a oportunidade de serem realmente ouvidas, com o tempo e a paciência necessária para se perceber o seu problema, as suas motivações.


      É por isso que a Justiça perderá, se acharmos que a tecnologia será a única solução para resolver os seus problemas.


      A solução está, como sempre esteve, nas pessoas. É preciso coragem, determinação e sensibilidade para fazer o óbvio. Investir nas pessoas.


      É preciso dotar os tribunais de mais Juízes, mais Procuradores, mais Funcionários Judiciais.


      É preciso remunerar condignamente as pessoas que trabalham na Justiça. É inadmissível que Advogados/as que asseguram o Sistema de Acesso ao Direito e aos Tribunais sejam remunerados com uma tabela que não sofre alterações desde 2004.


      É inaceitável que Funcionários Judiciais, que desempenham funções de elevada responsabilidade, sejam remunerados com valores próximos ao salário mínimo.


      É preciso humanizar a Justiça. Perceber que todos os seus intervenientes são humanos, cidadãos de pleno direito, que precisam de locais de trabalho dignos, de tempo de descanso e de lazer, que têm responsabilidades familiares, que têm direito a ficar doentes, a gozar licenças de parentalidade, a poder prestar auxílio a familiares doentes, etc.


      Em pleno século XXI, temos uma Justiça que pára por tudo e por nada, mas não permite que um julgamento possa ser adiado para que um/a Advogado/a preste apoio ao seu filho doente, por exemplo, ou que possa beneficiar de uma licença de parentalidade por um prazo condigno e adequado às necessidades da criança.


      Em vez de investirmos dinheiro e esforços para dotar a Justiça de cada vez mais tecnologia, seria importante que quem Governa parasse um pouco, deixasse de presumir soluções para problemas inexistentes, e ouvisse efetivamente todos os profissionais que trabalham no setor.


      Agora e no futuro, uma Justiça mais próxima do cidadão, mais efetiva, mais respeitada, enfim mais justa, passará necessariamente pela valorização de todas as pessoas que nela trabalham, dotando-as de mais meios e condições para desempenharem o seu trabalho: um trabalho que será sempre de pessoas para pessoas.


      A verdadeira revolução da Justiça é fazer o óbvio e necessário: investir nas pessoas.»


HumanoFrenteRobo.jpg


      Fonte: "Nascer do Sol".

Comentários

  1. Já aqui falei na inevitabilidade do emprego desta nova ferramenta nos serviços públicos, pois que a sociedade civil e as empresas já o fazem, potenciando o seu desenvolvimento de forma vertiginosa.

    Associada a esta evolução, em paralelo, temos a tecnologia quântica e os "mega super computadores" capazes de processar informação que levaria centenas de anos com as ferramentas tradicionais - veja-se a decodificação genética e toda a evolução na área da saúde onde terá um impacto gigantesco.

    Mas na justiça não será tanto assim. Porquê?

    Desde logo pelo imperativo constitucional, pois que nos Tribunais as decisões devem ser proferidas pelos juízes e por eles devidamente fundamentadas - a valoração da prova e a interpretação do direito se bem que possa ser auxiliada por máquinas (é o trabalho invisível da Catarina que está a ser feito) não pode ser substituído por estas.
    Depois, quem se responsabilizaria pelas más decisões (os juízes são nos termos do n.º 216.º n.º 2 da CRP), qual seria o regime de responsabilização de um sistema automatizado, sem intervenção humana - seriam atiradas todas as responsabilidades para o Estado ou para quem desenvolveu o algoritmo?

    Mas a CRP deixa uma porta aberta para a possibilidade de recurso a outras soluções (v.g. o art.º 202.º n.º 4 da CRP), mas será que cabe nelas uma fórmula de silogismo jurídico que consiste na aplicação do método lógico-dedutivo ao saber jurídico - apenas baseada em A.I. e algoritmos, presentemente ainda em forma embrionária pois que se assemelha a um processo de compilação de informação retirada de múltiplas bases de dados, sem filtros, ou seja compreendendo informação que não é correta e que pode inquinar todo o processo.

    O assunto é de difícil resolução, e devendo ser deixado para os entendidos não deve ser obliminado pelos operadores judiciários - de que fazemos parte, nós os oficiais de justiça.

    Deixo um exemplo: num processo crime em que é necessária estabelecer a medida da pena, como é que este cálculo se processa, que pena em concreto deve ser estabelecida, que processo é realizado pelo Juiz ou pelo Procurador?
    É sabido e aceite que, comumente, estes começam pelo meio da pena (por ex.plo numa pena de 2 anos, à partida tem 1 ano garantido que poderá ser agravada ou desagravada conforma as circunstâncias agravantes ou atenuantes) mas terá de ser assim? Não se deverá partir antes do limite mínimo, com a agravação resultante das circunstâncias contempladas na lei para o efeito - por ex.plo a lei já agrava a moldura penal do crime de homicídio em função da relação familiar existente em que as barreiras a ultrapassar são bem maiores e por isso o crime em si mesmo revela uma especial censurabilidade), mas tudo isto é avaliado em factos, uns mais concretos que outros, por exemplo o comportamento do visado aferido pela imediação (contacto direto com a prova).

    O que se pergunta e se trata de saber é se a A.I. e os algoritmos podem fazer este caminho. Será que podem?

    Hoje temos sistemas desenvolvidos que avaliam a temperatura corporal - até conseguem saber se as mulheres estão naquela fase difícil da menstruação - mas também a expressão dos comportamentos corporais, da transpiração e ritmo de respiração, do tom de voz por forma a aferir da veracidade do depoimento.

    Será que os juízes são tão capazes de elaborarem este processo -para passarem de convincentes a convencidos - como são as máquinas que comportam um a dose de falibilidade? Veremos.

    Uma coisa é certa, esta ferramenta será inevitável nos tribunais.

    E nós, seremos necessários, isso é uma certeza, mas quantos de nós e quais de nós? Talvez menos, mas talvez mais qualificados.

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  2. (cont.)
    Só para dizer que o capital humano (a sua qualificação), nos tribunais e não só, será de extrema importância, e se já há tarefas que são realizadas em tempos absolutamente impensáveis há 10 anos atrás - veja-se a transcrição das gravações, ou a transposição para texto em tempo real, os sistemas de gravação de som e imagem e também em vídeo - hoje cada um de nós anda com um no bolso - os motores de busca de informação e as bases de dados partilhadas.

    Aquilo que eu antes fazia no Word com a intercalação de variáveis, e também no Excel, por exemplo com a ferramenta "concatenar" , hoje está potenciado nas plataformas usadas nos tribunais - Citius - e conheceu desenvolvimentos monstruosos - vejam-se os algoritmos do Excel (Solver) e a possibilidade de análise de informação e produção de dados em ordem a tomar decisões.

    O mundo está em mudança e quem não reconhecer isto é falta de largura de banda cognitiva para não falar outra coisa.

    Mas neste processo, de transformação da justiça, num dos seus eixos - o de auxilio aos magistrados para a tomada de decisões - os oficiais de justiça deveriam ter um papel maior e este está a ser ocupado pelos técnicos superiores.

    Falta visão a muita gente e os nossos líderes sindicais são "caquéticos" !

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  3. Despeçam as pessoas todas e ponham-nas no rendimento mínimo

    assim o pais fica mais produtivo


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  4. Pelo contrário - pergunte antes qual será o emprego humano para o futuro.

    Eu não tenho dúvidas que terá de ser mais qualificado, ao mesmo tempo que terá de ter um conteúdo funcional completamente diferente - pelo menos diferenciado.

    Indo um bocadinho aos absurdos, não se pode ter um carro elétrico e optar ou querer continuar a querer andar numa carroça puxada por burros. Não se podem acabar com os semáforos para dar emprego aos sinaleiros.

    Os tempos que as tecnologias libertarão irão permitir-nos ter outra qualidade de vida e direcionar-nos para outras atividades.

    E, em todo este processo de transição, será o capital humano o motivo e motor de transformação.

    Talvez tenhamos semanas de 4 dias de trabalho, melhores salários e melhores soluções para o cotidiano - ao nível de transportes ou, por exemplo, nas interações com os prestadores de serviço, de forma telemática e à distância, sem deslocações com claros benefícios económicos e ambientais, etc.

    É preciso pensar o futuro e , atuando sobre a realidade, percebendo os problemas do passado, antever os do futuro.

    Sempre ouvi dizer que é preciso olhar para a frente, caminhar em frente, pois parar é morrer, e viver é ter ambição.

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  5. Um mundo governado por maquinas estilo Terminator ou Cyborg.

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  6. E quem é que vai para a fábrica e para os campos para lhe dar de comer ? A IA ?

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  7. Saiba que, no futuro não sobreviremos sem essa tecnologia.
    Vou-lhe dar um exemplo:
    - na vizinha Espanha, na Galiza, aqui mesmo ao lado, as técnicas de produção agrícola estão desenvolvidas de tal ordem que conseguem medir a precipitação, a humidade e qualidade dos solos, as temperaturas verificadas durante todo o dia e com isso melhorar a eficiência em teros de produtividade e de gastos por exemplo de fertilizantes e de água - concentrando-a em períodos ou horários em que as perdas por evaporação são menores e a concentração ao nível dos solos são maiores.
    Por outro lado, nas colheitas, os produtos perecem menos, porque são colhidos no seu grau de maturação ideal, por vezes com a força braçal outras vezes da maquinaria.

    Por outro lado, a A.I, no auxílio da descodificação genética vai possibilitar combater as pragas e desenvolver uma nova forma de pensar as culturas, por exemplo na seleção dos melhores solos e climas para cada produto potenciando o aparecimento de outras variedades - fruto da globalização que começou com as conquitas e os descobrimentos, lembro que foram os povos indígenas das Américas que nos deram o milho, a abóbora e a batata assim como o feijão e o pimento, entre outros.

    A visão que parece ter do mundo é da de um miúdo da primária, mas de há mais de 20 anos ...

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  8. Uiii, a IA vai ajudar o homem, vai libertar o trabalhador do serviço braçal, a jornada de trabalho vai ser menor, etc etc, essa lenga lenga onde é que ja ouvi.
    A jornada de trabalho de 8 horas dia pouco mudou desde os anos 50 apesar da exponencial evolução tecnológica e mecânica da sociedade desde então.
    Era prometida essa redução de horas nos anos 70 por alguns utopicos mas nada se concretizou. Pelo contrario nos dias de hoje cada vez se exige mais a quem trabalha com essa narrativa capitalista da eficiencia e produtividade.
    Já nada justifica uma jornada de 40horas semanais no séc XXI a não ser a ganancia insaciável do lucro, a produtividade em 50 anos aumentou muito mais do que salarios ao contrario do que querem fazer entender.
    Portanto o salto civilizacional que poderia advir da redução de horas de trabalho está cativo e não acontece por falta de vontade de quem governa e de quem tem os factores de produção.
    Portanto meus amigos, se acham que a IA significa melhor qualidade de vida é um engano. Vai apenas trazer mais eficiencia e mais lucro que nao se vão traduzir em beneficio ao trabalhador.

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  9. Caro Colega, existem ainda muitos que negam a realidade e tb porque lhes dá jeito. Parabéns pela visão que não está assim tão distante no tempo.

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  10. Se assim pensa então vá viver para as cavernas ...
    (PS: não deixando de concordar com algumas considerações que fez, todavia não chego às mesmas conclusões)

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  11. Tanta treta só para dizer que que é mais qualificado que muitos Oficiais de Justiça.
    Naturalmente está auto incluído naqueles que ficam....

    Anda-se a perder muita inteligência parda nos corredores dos Tribunais.....

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  12. Quem conduz um automóvel a combustão também conduz um eléctrico...
    E como no fundo o nosso serviço é e sempre será o de motoristas dos senhores magistrados pouco interessa as qualificações, desde que conduza bem e saia para abrir a porta ao senhor juiz, está tudo bem....
    Não perceber isto é ser ignorante...
    Pode ter a sapiência toda mas ainda não percebeu quem é que manda e a quem interessa que se mantenha tudo mais ou menos na mesma....

    Por favor.. é só ler os Pareceres do CSM e do CSMP relativos aos últimos projetos de estatuto...
    Está preto no branco o que pensam os senhores e senhoras que realmente mandam....

    Mas pronto..... já deu para brilhar aqui um bocadinho....

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  13. E brilhou com muita pinta!

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  14. 1850 elementos da GNR pomovidos. E nós ???

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