A carta de António para Rita
António Marçal escreveu uma carta a Rita Júdice, pelo menos assim a designou, como sendo uma carta, mas daquilo que vimos na coluna do Correio da Manhã, não era mesmo uma carta, mas apenas um bilhetinho. No entanto, o bilhetinho contém uma análise introspetiva e reflexiva tão profunda que bem pode crescer à categoria de carta.
António está desanimado com Rita e de tal forma é o seu desalento que tornou o tal bilhetinho público naquela coluna do Correio da Manhã, mostrando ao Mundo que está de coração partido e que se sente traído.
Diz assim o António à Rita:
«A sensação de injustiça nas negociações salariais e relações laborais é reforçada pela falta de sensibilidade dos governos, que não apresentam uma estratégia clara para responder às demandas dos trabalhadores.»
Começa assim com essa indireta generalista para ver se ela enfia a carapuça e logo de seguida tem uma tirada ao nível das conferências que vem organizando. Diz assim:
«Como observou Deutsch (1975), sem uma abordagem transparente e dialógica, aumenta o sentimento de desvalorização e de que os processos de negociação carecem de transparência e diálogo real.»
E desenvolve:
«A demora em responder às necessidades dos funcionários mina o espírito de cooperação e faz com que as decisões pareçam unilaterais, sem consideração pelo impacto na vida das pessoas em concreto.»
E, caso Rita ainda não tivesse captado tanta indireta, prossegue assim:
«A falta de comprometimento com uma abordagem empática e estratégica nas negociações gera um ciclo de frustração e resistência, enfraquecendo, assim, a relação de confiança necessária para promover uma administração pública que respeite e valorize quem dela faz parte, construindo um ambiente laboral mais harmonioso e produtivo.»
Notem bem que António usa na mesma frase expressões como “frustração”, “resistência” e “enfraquecendo”, depois de ter dito que “a demora” “mina o espírito de cooperação”.
Conclui a dita missiva assim:
«A justiça distributiva, não é apenas uma questão de distribuição igual, mas depende do contexto e das expectativas sociais de quem está envolvido.»
É, pois, fácil notar a frustração de quem teve fé, muita fé, tal como é fácil começar a ver o dedo no ar, ainda que tremelicoso, a avisar a Rita de que as coisas não estão a correr nada bem, apenas faltando dizer-lhe que as manhãs das segundas, terças e quartas-feiras ainda estão livres para que possa convocar uma greve tipo bomba atómica para essas três manhãs.
A cada quarta-feira, no Correio da Manhã, o mal-estar de António tem vindo ao de cima, mas ainda não propriamente como uma dor, mas tão-só uma comichão, porque ainda não perdeu o fiozinho de fé de não ter de vir dizer ao Mundo que, afinal, as críticas dos Oficiais de Justiça eram apropriadas e que errou quando decidiu não ouvi-los.

Fonte: artigo intitulado “Carta a Rita Júdice” subscrito por António Marçal no Correio da Manhã, acessível em “CM” e em “SFJ”.
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