O órgão de soberania ao deus-dará e os Oficiais de Justiça de mãos-atadas

      O apagão veio demonstrar as múltiplas fragilidades de Portugal (e da Europa), no sentido dos seus cidadãos se encontrarem desprotegidos de um problema tão grande como o de um apagão elétrico desta dimensão.


      No que diz respeito aos tribunais, verificou-se um significativo espartilho de posturas pelo país fora. Alguns tribunais cedo dispensaram os Oficiais de Justiça, enquanto que noutros ficaram todos, durante todo o dia, a aguardar pelas 17H00, outros havendo que dispensaram quase todos, exceto alguns para uma espécie de serviços mínimos, essencialmente para avisar os utentes de que não havia eletricidade.


      As comunicações entre tribunais foram efetuadas com a utilização precária dos telemóveis dos Oficiais de Justiça, quando funcionavam, uma vez que a rede interna da justiça deixou de estar acessível para quase todos.


      Computadores com acumuladores de energia para continuarem a funcionar é algo inexistente. Acumuladores de energia para todo o tribunal é uma miragem. Geradores de eletricidade para que tudo funcione, é uma utopia.


      Tudo falhou.


      Pela falta de eletricidade, de repente, houve uma espécie de greve geral e sem serviços mínimos. Detidos, internados e outros assuntos urgentes, tudo ficou adiado e mesmo por conhecer, pois os suportes eletrónicos de tais comunicações, participações e processos, ficaram completamente inacessíveis.


      Curiosamente, se de uma greve se tratasse, a imposição de serviços mínimos não escapava, e logo a uma segunda-feira, mas com equipamentos tão modernos a ser instalados nas salas de audiências e com tanta inteligência artificial e tanto dinheiro do PRR, naturalmente, nada funcionou com um mero corte de energia elétrica.


      Era possível abastecer em algumas gasolineiras, era possível fazer compras em alguns supermercados, mas era impossível aceder a qualquer tribunal, ou serviço do Ministério Público em todo o continente, porque nas regiões autónomas a eletricidade não falhou.


      Os Oficiais de Justiça podiam comprar latas de atum, mas não podiam explicar a ninguém o estado de um processo, nem sequer telefonar a ninguém para apurar seja lá o que for.


      Tem de haver um plano B, tem de haver um procedimento de emergência para situações excecionais e os tribunais têm de estar preparados para estas ocorrências, sem que o Estado de Direito fique suspenso, sem que as garantias e os direitos dos cidadãos sejam interrompidos.


      Em cada tribunal tem de haver, pelo menos, um sistema de emergência que se torne disponível para aceder à informação e para estabelecer contactos. É inadmissível que tudo falhe, sem que haja um mínimo. Sempre se exigiu aos Oficiais de Justiça que, pelo menos, assegurassem os mínimos, pois esses mesmos mínimos têm de estar assegurados também pelo Estado, isto é, pelo Governo.


      Há uma rede comunicacional interna da justiça, mas é frágil, é vulnerável e pode ser anulada com esta facilidade, quer seja acidental, quer seja por sabotagem, a rede pode deixar de estar acessível de um momento para o outro e por tempo indeterminado, em face da sua excessiva dependência externa.


      Que esta ocorrência sirva de aprendizagem e que se possa construir um sistema comunicacional e de segurança para casos assim. Que sirva de aprendizagem para corrigir a dependência e a fraqueza deste órgão de soberania. Que se possam comprar enlatados e aceder aos processos com a mesma facilidade.


      O Sindicato dos Oficiais de Justiça (SOJ) publicou ontem uma nota informativa do seguinte teor:


      «Perante a falta de energia no país, o SOJ contactou com a Senhora Diretora-geral defendendo uma decisão que garantisse o encerramento da generalidade dos tribunais. Nessa sequência fomos informados de que a Senhora Diretora-geral já informou todos os Senhore/as administradores judiciários para que contactassem com os Senhores Juízes Presidentes e pudesse ser emitida uma decisão sobre a matéria, sendo do entendimento da DGAJ que os tribunais deveriam encerrar, garantido um quadro mínimo de oficiais de justiça, para garantir serviços mínimos urgentes. Assim, devem os colegas, oficiais de justiça a exercer funções de administradores judiciários, ser céleres e defender essa posição junto dos Conselhos de Gestão, pois a posição da DGAJ parece ser, neste momento, a mais ponderada.»


      Houve tribunais com decisões imediatas e houve tribunais sem decisão alguma, desde logo porque não foi possível contactar todos os núcleos, tendo ficado muitos Oficiais de Justiça retidos, por falta de comunicação, até às 17H00.


      Não houve decisão célere dirigida aos Oficiais de Justiça, nem houve meios comunicacionais funcionais. Os tribunais não podem estar dependentes da boa-vontade das comunicações privadas de cada um. É inadmissível que, por todo o país, uns tenham saído às 15H00, outros às 16H00 e outros às 17H00 e isto por não haver um meio próprio de contactar com alguns elementos de alguns núcleos que, em face disso, ficaram na ignorância esperando pelas 17H00.


      Muitos serviços públicos, logo a seguir ao almoço começaram a encerrar, os filhos dos trabalhadores ficaram sem aulas e as escolas começaram também a encerrar, mas os pais não os podiam ir buscar, porque ficaram retidos por problemas relacionados com a simples falta de comunicação pelos telemóveis.


      O país, que já desde a primeira hora da manhã assistia a uma das greves mais massivas de sempre no transporte ferroviário, com a falta de energia, começou a ver outros transportes públicos também a parar, não só o Metro, como até os táxis ou os TVDE, paulatinamente começaram a encostar por falta de combustível. Perante este panorama e sem nenhuma previsão de reposição da energia, o primeiro-ministro acabou por fazer declarações públicas, ao final do dia, afirmando que o povo se portou de forma serena, mesmo quando irresponsavelmente teimou em manter todos os trabalhadores retidos nos seus trabalhos de mãos nos bolsos.


      Mas, sim, num aspeto tem razão: o povo é sereno; enjoativamente sereno.


CabecaLampadaMartelo.jpg


      Fonte citada: “SOJ-Info-Fb”.

Comentários

  1. Mal equipados mal pensados e sobretudo mal geridos por quem nada percebe de gerir coisa nenhuma! Vejamos o tribunal de sintra, chove la dentro, nao tem aquecimento nem ar condicionado, cai literalmente aos bocados, quando deveria ter painéis solares e geradores para assegurar os serviços mínimos! Já chegamos ao ponto de estar um dia inteiro sem água e  não termos dispensa de serviço...

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  2. Ribeiro da Silva29/4/25 09:54

    Bom dia,
    Li o texto de hoje com atenção e fui procurar as razões do apagão e das nefastas consequências que teve.
    Eis então o que apurei: 
    - na altura do apagão a REN importava cerca de 30% da energia, e esta era provinda de Espanha (de 8 megawatts injetados na rede, cerca de 3 MW eram importados).
    - e assim acontecia porque a determinada altura se achou ser mais económico importar que produzir (o termo correto é gerar) energia elétrica em Portugal;
    - mas, a ser assim, isto queria dizer que se tratava de uma mera opção económica, esta a da importação de energia, por ser mais barata, o que significava que a qualquer momento se podia injetar energia (tensão) na rede com a geração própria;
    - mas não é bem assim, pois que ao que parece os sistemas redundantes, os chamados "back start" que o Eng. Mira Amaral mencionou, não foram suficientes e, por outro lado, não existia e não existe um programa de contingência - que aquele Eng. designou de deslaçamento da rede, o mesmo é dizer de  desligamento de ligações não prioritárias e de manutenção apenas de ligações à rede vitais para o funcionamento das mínimo de um país numa situação crítica (como o pode ser uma catástrofe, uma guerra, ou um ataque informal);
    - tentei perceber e apurei que em 26/10/2019 o primeiro-ministro António Costa do PS anunciava com grande pompa e circunstância  que o seu Governo estava preparado para encerrar a central termoelétrica do Pego no final de 2021 (notícia do DN), e em 2021/01/15  o Observador publicava a notícia do fecho da central em Sines que chegou a abastecer 1/3 da eletricidade consumida em Portugal (e que funcionava a Carvão).
    - A solução da transição para a energia verde é inevitável e tinha sempre de acontecer mas não devia ter sido precipitada sem que o país estivesse preparado para uma situação como a ocorrida esta segunda feira.
    - com efeito, sabendo-se que a transição tem de ser acelerada, não pode nunca colocar em causa o funcionamento de uma economia, de um Estado, em termos de o colocar em causa ou colocar em causa a segurança dos seus cidadãos.


    Resumindo, em 2018/2019, aquele Governo do PS, todo ele virado à esquerda, precipitou-se numa decisão que teria sempre de ser tomada mas que ainda era cedo para ter sido adotada, pois não tínhamos nem temos ainda capacidade instalada e meios redundantes para a substituir e por isso ficamos inteiramente dependentes de Espanha e à espera de ligações a França entre outros países.
    Mandava a cautela que a transição fosse devidamente assegurada acautelando-se situações como esta com o desenvolvimento de sistemas redundantes e de resposta a emergências pontuais como a sucedida.
    Quanto às comunicações o caso é ainda mais gritante, pois que o SIRESP, que tanto deu que falar pela altura dos incêndios em 2016/2017, e que sofreu ajustamentos no seu funcionamento pelo Governo do PS, parece ter ficado quase na mesma e, também ao que parece, não existe uma rede interligada para dar uma cabal resposta a situações de crise como a que se viveu.
    Agora atiram-se culpas para o atual Governo - e muito bem - mas esquecem-se dos principais culpados - o que é muito mau.
    Por fim notar que um sistema de defesa importa também o desenvolvimento de um sistema de resposta a situações críticas como a sucedida e para defende que não é preciso investir ficou bem patente e desmentido pela realidade dos factos.

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  3. É realmente um tribunal piloto...

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  4. Na minha opinião, e desde 2015 que assim o penso, a criação das 23 Comarcas a nível nacional deu nisto!


    Estas "coisas" deviam ser geridas apenas e só pela DGAJ!


    Tantos recursos que estão afetos à gestão destas Comarcas que poderiam estar uniformemente centralizados na DGAJ  com um décimo desses recursos!


    Mas claro que muito "tacho" ia desaparecer, e muitos iam ter de "dar no duro"!


    É a minha opinião.

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  5. Ribeiro da Silva29/4/25 10:05

    Pois é. É como diz.
    Vamos agora procurar os culpados.
    Buscas no google e eis que salta o seguinte:
    - Inauguração em 2005 por Santana Lopes, enquanto PM demissionário;
    - Julguei ser obra do PSD mas não. Não foi. Com efeito em notícia do Público datada de 18 de janeiro de 2005, o então ministro da Justiça à data, José Aguiar-Branco, notava que o lançamento da obra coube ao ministro socialista António Costa e ali se falou de inúmeros constrangimentos na derrapagem dos custos e das apreciações negativas do Tribunal de Contas.
    Tratou-se de mais uma obra que era para ser emblemática - o Tribunal do século XXI - e afinal é apenas mais um edificado decadente e disfuncional que não levará muito tempo importará mais um enorme investimento na sua remodelação.
    Neste dias que se fala tanto em seriedade e em idoneidade e se se falasse também em competência para governar?!
    Veja-se o exemplo de instituições que foram a correr substituir toda a frota para carros elétricos, sem curar de assegurar que uma parte dela deveria funcionar com sistemas alternativos (híbridos ou com energia fóssil - GPL, gasolina ou gasóleo)  para que numa situação como a ocorrida houvesse um mínimo de viaturas disponíveis, como redundância, para acudir Às situações emergentes e urgentes.
    Enfim é o país que temos ...

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  6. Nunca vi um país com tanto especialista em gestão de recursos humanos e eng electrotécnica, agora até neste blogue aparecem.
    E trabalhar não?
    Não bastou estar a coça-los o dia de ontem?

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  7. Nunca pensei ser censurado neste espaço. Queria referir o que se passou em Sintra e não me deixaram 
    Não faltei ao respeito a ninguém 

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  8. O comentário continha também alegações de desprestígio dirigidas a pessoa concreta e só por isso não foi publicado. Diga o mesmo, mas escolha as palavras e não conclua coisas como que estão à margem da lei, portanto, marginais, etc. É possível dizer o mesmo sem arriscar processo-crime.

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  9. Chegamos a um ponto em que quem manda não sabe se tem poder para mandar.
    A DGAJ manda para os conselhos de gestão...os conselhos de gestão dizem que não tem notícias da DGAJ. E assim assistimos a maior aberração criado no seio dos tribunais.
    Das duas uma ou acaba a DGAJ ou os O.de Gestão. Este último foi a maior asneira criada nos tribunais. Existem secções a funcionar ( carregados de serviço) com menos colegas dos que estão no órgão de gestão.
    Mais os que estão nos órgãos de gestão concorreram para lugares longínquos porque sabiam que não iam para os lugares para os quais concorreram....pois permaneciam no órgão de gestão.
    Mas enfim cuidado com esses colegas dos órgãos de gestão.... Eles são como a formiga
    A formiga carrega para comer no inverno mas os colegas conseguem ser ainda pior que carregam em todas as estações do ano.
    Acabem com essa gentalha 

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  10. Para o das 11.32 horas. Tu deves estar a trabalhar muito, deves, para andares por aqui a ler comentários, alguns até extensos e às 11.32 horas produzires o teu brilhante comentário.  

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  11. O Povo é sereno.


    OJ é manso.


     

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  12. pobre da cuca29/4/25 14:14

    A maior asneira.....
    Só agora constatou? Logo em 2014 percebemos que íam ser não ser quantos mais a mandar, acrescidos aos que já havia, e isso só podia trazer confusāo.
    Para trabalhar mesmo nos processos, cada vez menos!

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  13. Houve tribunais que não foram afetados pelo apagão, nomeadamente na comarca do Porto, onde tudo decorreu com normalidade até às 15:00 horas, com exceção do lapso de tempo das 11:33 às 11:35, em que o gerador do tribunal iniciou o seu trabalho assegurando o acesso ao Citius e à continuação das audiências, mesmo após o almoço.

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  14. o costa deixou isto tudo estoirado, serviços todos rebentados,


    foi só show off e aproveitou logo que pode para se por ao fresco, com a agravante de depois deitar culpas no presidente da republica.


    palhaçada, gente sem carater
    oportunistas

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  15. não diria melhor

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  16. Usando o "enjoativamente" do artigo e devolvendo-o para caracterizar mais um artigo.
    Houve diligências que se realizaram sem eletricidade durante a manhã e a tarde . 
    Houve detidos a serem apresentados de manhã e de tarde.
    Os tribunais cumpriram a sua função dentro da complexidade da situação, mas o que importa foi o pessoal não ter ido logo embora para casa, seja por causa da DGAJ, da Gestão das Comarcas ou até do Governo.
    É nestas alturas que uns sobem ainda mais as mangas e dão o triplo para manter o que é possível a funcionar, outros, ainda antes da hora do almoço, já tinham ido aos supermercados açambarcar com medo, com receio.
    Muitos ficaram incomodados de o apagão só ter durado umas horas e de hoje terem ido trabalhar, uns não conseguem disfarçar e outros nem com isso estão preocupados. Que jeito que dava ter ficado o resto da semana em casa! 

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  17. Lá isso dava, foi uma óptima tarde e ainda por cima com bom tempo ( pese embora o mau motivo) .

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  18. Quebraram a vontade e a abnegação do OJ.


    Agora é tarde!


    Deminuiram a carreira, mas ficaram também com piores funcionários !...


    É justo!

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