O conformismo com a ilegalidade de todos os dias

      O humorista Ricardo Araújo Pereira comentou há dias, após a sua presença em audiência de julgamento, como testemunha, no Palácio da Justiça de Lisboa, que estivera numa sauna, embora prefira jacúzi, comentou à comunicação social, a propósito do calor que se verificava dentro do edifício.


      «O depoimento é feito numa sauna, preferia depor num jacuzzi.»


      O humorista comentou, com o mesmo espanto que os jornalistas que vêm assistindo à mesma audiência já haviam comentado: o excesso de calor e a existência de uma ventoinha que nada resolve.


      Já aqui abordamos o problema do calor excessivo e a obrigação legal dos trabalhadores necessitarem de pausas ou horário reduzido, uma vez que os locais de trabalho estão com temperaturas fora dos limites que a lei estabelece.


      Existe há quase 40 anos o Decreto-Lei n.º 243/86 de 20AGO, diploma que aprovou o Regulamento Geral de Higiene e Segurança do Trabalho e no seu artigo 11º consta o seguinte:


      «.1- Os locais de trabalho, bem como as instalações comuns, devem oferecer boas condições de temperatura e humidade, de modo a proporcionar bem-estar e defender a saúde dos trabalhadores.


      .a) A temperatura dos locais de trabalho deve, na medida do possível, oscilar entre 18º C e 22º C, salvo em determinadas condições climatéricas, em que poderá atingir os 25º C.


      .b) A humidade da atmosfera de trabalho deve oscilar entre 50% e 70%.»


      Ora, atentem lá bem na temperatura fixada: “entre os 18º e os 22º C”. Esta faixa de temperaturas raramente se consegue sem equipamentos de ar condicionado, pelo que, nos casos de temperaturas muito altas, ou muito baixas, impõe o mesmo diploma citado que os trabalhadores tenham pausas extraordinárias ou o seu horário de trabalho seja reduzido, o que, como se sabe, também não sucede nos tribunais, a não ser que se desmaie em plena sala de audiências.


      Estabelece assim o artigo 13º do mesmo diploma:


      «Sempre que os trabalhadores estejam submetidos a temperaturas muito altas ou muito baixas, em consequência das condições do ambiente de trabalho, devem ser adotadas medidas corretivas adequadas ou, em situações excecionais, ser-lhes facultadas pausas no horário de trabalho ou reduzida a duração deste.»


      Mas há ainda outra ilegalidade cometida todos os dias em todos os tribunais e serviços do Ministério Público por todo o país: a falta de água potável e gratuita à disposição dos trabalhadores.


      Não, não é normal que cada um carregue garrafões ou pacotes de seis garrafas de litro e meio para o seu posto de trabalho, nem é normal que tenha de ir à máquina de venda de bebidas comprar água. É obrigação legal disponibilizar água aos trabalhadores.


      Consta assim no artigo 45º do mesmo diploma que acima citamos:


      «.1- Deve ser posta à disposição dos trabalhadores, em locais facilmente acessíveis, água potável em quantidade suficiente e, se possível, corrente.


      .2- Devem ser distribuídos copos individuais aos trabalhadores ou instalados bebedouros de jato ascendente.»


      Os Oficiais de Justiça devem reivindicar, ou melhor: devem exigir, e exigir algo tão simples como que se cumpra a lei e que em cada edifício de cada tribunal ou serviço do Ministério Público se instalem máquinas de água, designadamente, das que hoje existem ligadas à rede com filtragem de água, porque é uma necessidade e uma obrigação legal.


      E não, a água da chuva que às vezes cai do teto ou se infiltra nas paredes não conta para o cumprimento desta obrigação legal, tal como a água acastanhada da torneira dos quartos-de-banho, que passa pela velha canalização que se vai desfazendo a cada dia, tantas vezes jorrando com variadas tonalidades acastanhadas, entre outras características que facilmente são entendidas como não correspondendo a água potável.


      Os Oficiais de Justiça não se podem conformar com o hábito, desde logo quando o hábito é contrário à lei, portanto, ilegal.


      Sempre foi assim e é assim todos os dias, mas há que dizer basta!


SedeSalaAudiencias(DDOJ).jpg


      Fontes: “CM#1”, “CM#2” e “JN”.

Comentários

  1. Anónimo7/7/25 08:48

    As imagens, criadas por AI, acompanham bem os artigos!

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  2. Quim Ferno7/7/25 09:21

    Fico espantado com estas situações. 
    Então o que está a fazer a administração da comarca, o Juiz Presidente, o Coordenador do Ministério Público, os Magistrados dirigentes, os Magistrados setoriais, os gabinetes de apoio à gestão da comarca, os secretários, os Conselhos superiores, as inspeções dos três conselhos, a autoridade para as condições no trabalho, a medicina no trabalho, os sindicatos dos magistrados e funcionários, os relatórios anuais, os relatórios semestrais, o diretor geral da administração da justiça, o vice diretor geral, o PGR, o presidente do CSM? 
    Será que me esqueci de alguém?

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  3. Anónimo7/7/25 10:06

    Na semana dos 40 graus, 2 colegas desafiaram os demais colegas a retirarem-se do local de trabalho devido à falta de condições. Sucede que os restantes acobardaram-se. Os delegados sindicais deveriam ser os primeiros a encorajar os colegas mas tal não se verifica. No final todos reclamam e ninguém faz nada.  

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  4. Anónimo7/7/25 10:07

    Eu quero é que me reponham o dinheiro do roubo de um escalão de tempo, trabalho de 2001 a 2005.


    As más condições é mais do mesmo.
    Tenho aversão a esta entidade trabalhadora e a quem a gere!

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  5. Anónimo7/7/25 11:58

    Triste País este mesmo!

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  6. Vanda Imperial7/7/25 12:51

    Estou com o Ricardo. Também prefiro banho turco😉 há décadas que carrego escalfetas, aquecedores, ventoinhas para o posto de trabalho, para combater a falta de climatização. Quanto à falta de água acrescento a falta de refeitórios, com preços ajustados ao subsídio de alimentação, para não ter de andar a carregar marmita todos os dias. Enfim! Faz como eu digo, não faças como eu faço!

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  7. Anónimo7/7/25 13:15

    O que estão a fazer?!!
    O que estão a fazer?!!


    Estão a ... ... ... ... receber chorudos vencimentos!!!


    Mas, qual é a duvida?!!

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  8. Anónimo7/7/25 13:30

    Já por aqui tinha comentado isso da sauna porque acho uma vergonha nos tempos de hoje, e como alguém referiu, tantas chefias, com tantos poderes, bem instalados em gabinetes em que nada falta, não fazerem cumprir a lei.
     Esta, estipula condições  para se poder trabalhar,  e que, se fossem cumpridas, a produtividade aumentaria. Se as testemunhas falam que dizer de quem lá trabalha? E o que estão a fazer para não aceitar isso? A comunicação social denunciar ajuda, mas não é tudo.
    Denunciar também o regulamento para acesso a Magistrado do MP.Como é possível neste século da IA fazer uma coisa daquelas? 
    A Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE) afinal ainda tem muito trabalho pela frente.

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  9. Anónimo7/7/25 13:34

    Esqueceu, sim...pelo menos um
    Esqueceu aquele órgão criado aquando nas comarcas piloto que inclui um representante de cada magistratura, advogados, funcionarios e associações de utentes.
    Aquele orgão ( de consulta ) perante o qual deveriam estas e outras questões ser abordadas .
    Aquele orgão que existe em 23 comarcas e ... nunca reune...


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  10. Anónimo7/7/25 13:53

    Penalizados ao longo do tempo em 1 escalão que se irá traduzir também na altura de ir para a reforma!!
    Sr Sindicatos, mas que assalto é este? 
    Não agem judicialmente com brevidade porquê????
    Cúmplices.
    Pago quotas e terei de recorrer a advogado particular??

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  11. Anónimo7/7/25 14:02

    No nosso ordenamento jurídico os usos, ou costumes, ao que parece, podem ser consideradas "contra legem" ou até "praeter legem".
    Quando interesse invocam-se todos os arautos dos princípios e leis para conformar a vidinha de cada um de nós.
    Quando não interessa tanto é simples, faz-se da lei letra morta, pela sua não aplicação, ou ficciona-se que ela não existe e ensaia-se uma posição que faz de todos nós eunucos e servidores obedientes e subservientes.
    Depois admiram-se das fações que florescem por aqui e por ali quase como cogumelos no outono/inverno  - uns são digeríveis outros não.
    Já aqui falei no orçamento do IRN para as Conservatórias para adquirirem sofás, televisões, micro-ondas, frigoríficos e outros eletrodomésticos ... está debaixo da mesma tutela (o MJ) e contudo merece outro tratamento (será porque arrecada mais receita do que gera despesa contrariamente aos tribunais ???)

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  12. Anónimo7/7/25 14:24

    E a pasta??
    É este mês??

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  13. Anónimo7/7/25 15:52

    Boa Pergunta!

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  14. Anónimo7/7/25 15:58

    Porque somos moles, somos fortíssimos aqui e nas redes sociais. Na prática nada fazemos e os nossos sindicatos são a maior prova disso.

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  15. Anónimo7/7/25 15:59

    Não Colega. E duvido (vale o que vale), que seja em Agosto.

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  16. Anónimo7/7/25 16:26


    "contra legem" ou até "praeter legem"...
    invocam-se todos os arautos dos princípios e leis...


    Por favor...Deixe-se de merdas que não passa de um vulgar Citote! Lá porque reconheceram esta profissão da treta como de nível 3, continua a ser o funcionário do Sr. Juiz...

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  17. Anónimo7/7/25 17:13

    Não é só um escalão, é todo o tempo serviço, exemplo do professores !!!!!

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  18. Anónimo7/7/25 17:31

    Não, no caso sou do Senhor Procurador ... e desde que me paguem quero lá saber ... pode adjetivar e qualificar como quiser... (de Citote ..) 
    Sou e continuarei a ser o funcionário de alguém ... apenas e só porque assim quiseram que fosse e eu, como bom rapaz que sou, desde que me paguem o justo quero lá saber desse "sentimento de posse" que figura na cabeça deles (na minha cabeça figura-se outra coisa ... é mais "eles é que são os meus magistrados" e não tanto "eu é que sou o funcionários deles").
    Já agora, dizer para se deixar de merdas também ...

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  19. Anónimo7/7/25 17:32

    Eu vou intentar ação particularmente. Dessa forma tenho a certeza que serão demandados os juros legais e competente indemnização. Estou farto de ser lesado e a Tutela lucrar. Chega de gozarem com quem trabalha e trabalhou imenso para dignificar os tribunais e não ver compensação por isso, aliás é precisamente o oposto.

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  20. Anónimo7/7/25 17:37

    Os roubados de 2001 e outros, acho melhor recorrerem a advogado especialista, para intentar ação judicial para verem a situação do escalão e tempo reposto, porque parece-me que sindicatos não estão para aí virados.

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  21. Anónimo7/7/25 18:23

    Eu também alinho.
    Se tiver ideia de advogado especialista.
    Podiamos juntar mais e combinar através aqui do email desta página.
    Quantos mais melhor.

    ResponderEliminar
  22. Anónimo7/7/25 20:16

    Recentemente escrevi neste blogue que ao contrário de alguns sou de opinião que isto ainda não bateu no fundo.
    Ex:
    O Conselho Superior da Magistratura (CSM) estabeleceu um limite de 60 dias para as faltas de magistrados, seja por motivo de férias, licenças ou faltas justificadas.
    - O que os impossibilita de ter filhos.


    Se querem fazer isto a magistrados mais facilmente nos fazem a nós.


    Não pensem não em arranjar um sindicato novo.

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  23. Anónimo7/7/25 21:32

    Infelizmente  parece-me que teremos de agir cada um por si.
    Sindicatos irão  alinhar com dgaj.

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  24. Jim da selva urbana7/7/25 22:06

    Debaixo da minha secretária tenho uma ventoinha que fui obrigado a comprar, isso ou sair ensopado, tenho um aquecedor para o inverno, isso ou passar os dias invernosos com os pés gelados, também sou daqueles que levam packs de 6 garrafas de litro e meio, o AC não funciona há anos, mas também o dos juízes, das salas de inquirições, estou no MP, já os Srs procuradores têm AC porque ainda não avariou, mas no inverno tinham que aquecer os gabinetes com aquecedores privados, aposto que na DGAJ não passam por isto...

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