Tal como as fábricas não são tribunais, os tribunais também não são fábricas

      «Atendendo ao entusiasmo com o qual nos últimos dias a imprensa portuguesa abraçou o tema da "produtividade" dos Tribunais Administrativos e Fiscais, talvez não seja despropositado dirigir ao leitor uma proposta de reflexão conjunta sobre as particularidades de que se deve revestir a avaliação do trabalho levado a cabo pelos Tribunais.


      Proponho a seguinte tese, e peço que me acompanhem com paciência no raciocínio que adianto para a sustentar: avaliar o desempenho de um tribunal segundo os mesmos critérios aplicados a uma unidade fabril constitui uma distorção profunda da natureza da função jurisdicional.


      De facto, e não negando que a introdução de práticas de gestão inspiradas no setor privado – como as propostas pela Nova Gestão Pública (NGP) – tenha contribuído para maior eficiência administrativa, há limites inultrapassáveis quando se trata da justiça, para a sua adoção acrítica.


      A razão principal está na diferença essencial de finalidades: enquanto a fábrica existe para produzir bens de forma padronizada, com o máximo lucro e o mínimo desperdício, o tribunal existe para garantir justiça, assegurar direitos fundamentais e resolver conflitos de forma equitativa.


      Nas fábricas, a matéria-prima é previsível e homogénea; os processos são desenhados para produzir resultados uniformes. Já nos tribunais, cada processo judicial é único, imprevisível e carregado de complexidade humana, social e jurídica. Aplicar métricas uniformes a realidades tão diversas – como avaliar os Tribunais (apenas) pelo número de sentenças que neles são proferidas – ignora essa complexidade e compromete a qualidade da resposta jurisdicional.


      Além disso, o trabalho judicial não se rege pela lógica da linha de montagem.


      A justiça exige ponderação, fundamentação e individualização. Pressionar juízes a apenas decidirem com rapidez, segundo metas quantificáveis, pode conduzir a decisões apressadas, tecnicamente frágeis ou mesmo injustas, violando o direito à tutela jurisdicional efetiva.


      Por outro lado, e ao contrário do que acontece na produção industrial, um erro judicial não é apenas um desvio estatístico: pode arruinar vidas, destruir reputações, prejudicar irreversivelmente os direitos de cidadãos. A "qualidade" na justiça tem, portanto, um peso ético e constitucional muito mais elevado.


      Por outro lado, os juízes não são meros operadores técnicos. São órgãos de soberania, independentes e não subordinados, cuja função exige isenção e liberdade de decisão. Tratar os tribunais como fábricas e os juízes como operários sujeita-os a pressões externas e fragiliza a separação de poderes, um dos pilares do Estado de Direito, assim como a sua independência.


      E aqui chegados não será de mais recordar que dita (ainda…) a nossa Constituição que os tribunais são independentes e apenas estão sujeitos à lei.


      Por fim, os indicadores quantitativos utilizados na avaliação fabril — número de peças produzidas, tempo de produção, custos — não captam o que é essencial na justiça: legitimidade, imparcialidade, respeito pelos direitos processuais e contribuição para a paz social.


      Em suma, e embora uma gestão moderna e atenta seja importante, num Estado de Direito avaliar os tribunais como se fossem fábricas é, no mínimo, perigoso e redutor.


      Por fim, e sem querer abusar da paciência do/a Leitor/a, permitam-me o luxo de um desabafo: ou o título em parangona num meio de comunicação social (português, sim!) com que recentemente me cruzei, no qual se afirmava que [o] "Governo quer monitorizar juízes dos tribunais administrativos e fiscais", teve origem num lamentável mal-entendido, ou algo de verdadeiramente grave se passa no nosso País…»


FabricaJuizes(DDOJ).jpg


      Fonte: reprodução do artigo de opinião subscrito por Margarida Reis, secretária-geral da Associação Sindical de Juízes (ASJP) publicado na revista “Sábado”.

Comentários

  1. Anónimo6/7/25 08:59

    Algo de grave se passa neste país, sem dúvida. 
    A justiça  está  doente e governantes apenas tentam mexer no que lhes convém!


    Palhaçada 

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  2. Anónimo6/7/25 09:03

    Se o governo vai entrar por aí, isso quer dizer apenas que pretende passar a ser um concorrente do CSM!...

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  3. Anónimo6/7/25 09:28

    Como a estatística do MP. Processos acabados a pressa, por vezes sem grande rigor, despachos de chapa, por vezes nem o nome dos intervenientes se muda, enfim! Os acabados têm de superar sempre os entrados. Depois, ao balcão, amiúde temos nós de justicar determinadas decisões e ouvir a incredulidade dos visados.

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  4. Anónimo6/7/25 10:52

    Como dizia o outro: há Deus no Céu e os juízes na Terra...Por muito que deteste (e detesto) a personagem Sócrates, ainda bem que há quem não tenha medo deles e use as leis que eles criaram ou com as quais compactuam diariamente, sem nunca porem causa quando o arguido é um pobre cidadão, para mostrar a triste realidade da justiça portuguesa!

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  5. Anónimo6/7/25 11:50

    Há uma teoria sociológica que refere que os períodos negros da história repetem-se no momento em que os protagonistas anteriores são esquecidos.
    Se a par de alguns jovens que votam em partidos fascistas, continuarem aumentar o número de asnos que se não pensam por si e não tem hábitos de leitura que lhes permitam formar uma consciência política e social, votando em partidos que se designam operadores de limpeza, é claro que algo grave irá acontecer.
    Começo a achar que só aprendem no dia que começarem a apanhar nos cornos a sério.

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  6. Anónimo6/7/25 12:33



    Por mim até podiam substituir os magistrados por IA


     

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  7. Anónimo6/7/25 13:01




    Os funcionários de justiça desempenham um papel determinante na garantia do direito e da segurança jurídica em Portugal. Ao longo de mais de 13 anos, o “Diário Digital dos Oficiais de Justiça de Portugal” tem sido testemunha e parceiro desta missão, acompanhando, explicando e reforçando o valor de quem atua diariamente nos tribunais e serviços de justiça, e sendo muitas vezes incompreendido....
    Cada mudança legislativa ou estatutária implica um esforço colossal por parte desses profissionais, muitas vezes não reconhecido pela Tutela, e, certamente, parcamente remunerado para as funções essenciais que estes Funcionários desempenham de e para a Sociedade...

    Para auxiliar os oficiais de justiça, surgiram diversas ferramentas e espaços de diálogo, de que blog é exemplo, as quais celebram e fortalecem as suas funções:
    Muito mais do que servidores de tribunal, os funcionários de justiça são verdadeiros mediadores entre o Estado e o cidadão:

    O reconhecimento dos funcionários de justiça deve transcender as paredes dos tribunais. A sua resiliência face a alterações constantes, o compromisso com o rigor e a dedicação ao serviço público são alicerces que sustentam todo o edifício da justiça em Portugal. Este elogio é um tributo àquelas e àqueles que, todos os dias, trabalham para que o Estado de Direito não seja apenas uma ideia, mas uma realidade palpável, e um verdadeiro Serviço Público ao CIDADÃO.

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  8. Anónimo6/7/25 14:06

    Verdade,
    Mas a realidade é  que temos e somos tratados  como carne para canhão. 


    E prova disso  é  que para conseguirmos ver direitos repostos temos que ir para tribunal com dgaj e mj.


    Sou um dos roubados de 2001 e maus uma vez tenho que ir para tribunal para ter o que é  nosso  por direito.
    Quantos anos de vida roubados  mais???

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  9. Anónimo6/7/25 15:47

    FJ deveria ler-se: OJ = OFICIAIS DE JUSTIÇA

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  10. Anónimo6/7/25 19:03

    FJ também  pode funcionários  judiciais. Foi assim que interpretei

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  11. Anónimo6/7/25 20:18

    Anda por aqui sensura como no estado novo?

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  12. Anónimo6/7/25 22:40

    Antigamente escrevia-se "censura" ...

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  13. Anónimo7/7/25 00:12

    Isso era antigamente.
    Mensagem passou?

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  14. Anónimo7/7/25 00:40

    Não passou... Foi sujeita à caneta azul !

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  15. Não foi caneta azul, porque se fosse, algo ainda apareceria e o resto seria riscado. Foi totalmente apagado. Aliás, hoje foram apagados dois comentários devido ao seu conteúdo inapropriado, tal como, infelizmente, vem sucedendo quase todos os dias. Não nos é possível riscar nem apagar parte do comentário, pelo que muitas vezes, infelizmente, perde-se a parte boa, ou menos má, devido a algum aspeto injurioso, politiqueiro ou muito mal-educado.

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  16. Anónimo7/7/25 10:14

    Mas que "linde" infiltrado temos nós aqui a "botar faladura"... então os Juízes agora criam leis?!? Presumo que a Assembleia agora também dite sentença judiciais, certo? Ao menos serve para os verdadeiros OJ verem que quem anda aqui a poluir, difamar, acirrar e introduzir discórdias e celeumas, são gente exterior à carreira, porventura pagos... e por aqui me fico, por agora. Cumprimentos. PS - Vou ali, num instante, solicitar ao Magistrado um Decreto-Lei ou Lei [temos se perguntar a sua Excelência sabedora se tal já tem o aval da Assembleia] para serem pagos os vencimentos e contabilizados os anos devidos referentes a quase 3 anos laborais efectivamente prestados... 

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