A Voz dos Oficiais de Justiça: “Justiça para quem a faz acontecer”

      Tal como anunciamos, às quartas-feiras publicamos os artigos escritos pelos nossos leitores que decidam enviá-los para o nosso endereço de e-mail geral: OJ@sapo.pt


      Esta rubrica tem a designação de “A Voz dos Oficiais de Justiça” e é hoje inaugurada com o primeiro artigo que nos foi remetido e que vai a seguir integralmente reproduzido.


      «Justiça para quem a faz acontecer: Um olhar institucional sobre o Estatuto dos Oficiais de Justiça.


      Os Oficiais de Justiça são um elemento estrutural do sistema judicial. Sem a sua intervenção técnica, continuada e qualificada, a atividade jurisdicional e a ação penal não se concretizam de forma eficaz nem em tempo útil.


      O Decreto-Lei n.º 27/2025, ao proceder à reorganização estatutária da carreira, introduziu alterações de grande alcance. Essas alterações merecem uma análise séria e desassombrada, porque, longe de resolver fragilidades antigas, o diploma acaba por acentuar problemas estruturais que afetam o funcionamento da justiça.


      A unificação estatutária do apoio à função jurisdicional e à ação penal eliminou uma distinção funcional que, durante décadas, assegurou especialização técnica, clareza organizativa e previsibilidade institucional.


      Embora a Constituição da República Portuguesa não imponha um modelo único de organização das carreiras de apoio, o seu desenho assenta numa separação clara de funções entre tribunais e Ministério Público.


      Esse princípio não pode ser ignorado quando se definem os modelos de suporte técnico à atividade judicial.


      A indiferenciação agora introduzida cria situações de dependência funcional múltipla, em que os Oficiais de Justiça passam a responder, em simultâneo, a orientações provenientes de diferentes autoridades. Esta sobreposição não é neutra. Gera conflitos de lealdade funcional e fragiliza a autonomia interna dos tribunais, com impactos reais na coerência do sistema.


      Também no domínio das qualificações importa ser claro. A elevação das exigências habilitacionais para ingresso na carreira é, em si mesma, compreensível e compatível com a crescente complexidade do trabalho judicial. No entanto, essa exigência só é racional se acompanhada por um conteúdo funcional ajustado ao nível de qualificação requerido.


      O sistema não pode exigir formação superior e, ao mesmo tempo, desperdiçar capital humano qualificado em tarefas administrativas elementares, afastadas do núcleo técnico da tramitação processual. Da mesma forma, não pode desvalorizar a experiência profissional acumulada ao longo de décadas por milhares de Oficiais de Justiça, cuja relevância funcional é amplamente reconhecida na prática quotidiana dos tribunais. Há conhecimentos que não se aprendem em manuais. Aprendem-se no contacto direto com processos, prazos, decisões e pessoas reais.


      A valorização da carreira exige equilíbrio entre formação académica, conhecimento prático e funções efetivamente exercidas. Qualquer modelo que rompa esse equilíbrio está condenado a gerar frustração, desmotivação e perda de qualidade do serviço público.


      A natureza das funções desempenhadas pelos Oficiais de Justiça justifica, igualmente, ser um modelo de vínculo jurídico que assegure estabilidade, independência funcional e titularidade efetiva dos cargos de chefia.


      A substituição progressiva do vínculo de nomeação por modelos menos robustos compromete a autonomia técnica necessária ao exercício de funções sensíveis no contexto judicial e deve ser reavaliada à luz do interesse público e da proteção da independência dos tribunais.


      Também a avaliação do desempenho merece reflexão. Métricas e indicadores quantitativos podem ser instrumentos úteis de gestão, mas não podem substituir uma avaliação técnica substantiva. O mérito não se mede apenas em números. Mede-se na complexidade das funções exercidas, na competência demonstrada e no contributo efetivo para a qualidade da justiça prestada.


      A carreira deve, por isso, assentar numa avaliação predominantemente técnica, conduzida pelo órgão próprio, com critérios claros e ajustados à realidade funcional dos tribunais.


      A revisão do Estatuto dos Oficiais de Justiça não é uma questão corporativa. Está em causa a qualidade, a segurança e a credibilidade da justiça enquanto serviço público essencial. Quando se fragiliza quem faz a justiça funcionar, o impacto não recai apenas sobre uma carreira. Recai sobre todos os cidadãos.


      Valorizar a justiça começa por respeitar quem a faz acontecer, todos os dias, longe dos holofotes.


      O técnico de justiça, grau 3, indiferenciado, Joaquim Queiroz.»


AVozDosOficiaisDeJustica2(DDOJ).jpg


      Fonte: “DD-OJ #1

Comentários

  1. Anónimo4/3/26 08:48

    Muito bem colega. Subscrevo inteiramente. 

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  2. Anónimo4/3/26 09:06

    Os coveiros já  deram cabo da carreira  e da motivação 


    Como aqui alguém  diz, comam o nível  3 com batatas


    Ao mesmo  tempo há  quem trabalhe em secções  sem pessoal completo e adoece todos  os dias


    Há  ainda muita gente deslocado  de casa que leva vida de imigrante pois mal consegue  pagar renda altíssima  de casa


    Que vida é  esta??

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  3. Anónimo4/3/26 09:43

    Excelente artigo de opinião. Pessoalmente acrescentaria o seguinte: Com a saída abrupta de oficiais de justiça para a aposentação sem que se verifique uma transmissão geracional de conhecimentos, tal irá traduzir-se num empobrecimento no funcionamento das secretarias dos tribunais. A graduação habilitacional superior é uma mais valia no desempenho das funções desde que a técnica esteja alicerçada na experiência e conhecimentos, na prática, no terreno. A questão subsiste, o que pretende a administração fazer com a acentuada carência de recursos humanos nos tribunais. A IA não substitui a falta de oficiais de justiça. Pensar que seremos poucos mas bons, é um epiteto que já não pega, pois além de tudo o mais hoje falta o dinamismo que resultava da força de vontade, da motivação, resultante de um propósito, dum objetivo por alcançar o topo de uma carreira vertical, por melhores vencimentos, que antigamente nos fazia almejar. Enfim... lá diz o ditado "quem manda, pode" , ou, quem pode, manda, veremos se não manda mal. O tempo o dirá.    

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  4. Muitos parabéns ao colunista, começou bem esta coluna de opinião.
    Saber que há oficias de justiça que ainda conseguem discernir, entre a amálgama que a nossa carreira se tornou, qual a verdadeira importância e nosso papel nos tribunais, faz-me ter esperança num futuro de dignidade.

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  5. Anónimo4/3/26 10:05

    Quero que me paguem o que é meu de direito!


    O tempo congelado, mais o tempo apagado pelo DL.


    É nosso de direito, e parece que temos de pedinchar um  direito que é nosso!


    Sr. Carlos e Srª. Regina, façam algo, é vossa obrigação!

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  6. Anónimo4/3/26 10:05

    subscrevo e transcrevo um comentário de ontem de um colega


    ´ 



































    ´

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  7. Anónimo4/3/26 10:23

    SFJ porque apelaste a que as pessoas aceitassem sair de casa para promoção a adjunto e depois acordaste para que adjuntos acabassem de seguida?


    Ao menos não apelavas a essas promoções e as pessoas com familia não tinham saido de casa  e agora nunca mais voltam.


    isso que fizestes que nome tem?


    canalhada

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  8. Anónimo4/3/26 11:00

    E, já que todos falam do SIADAP, porque é que ninguém fala que imposição do mesmo constitui ilegalidade, por quebra de segurança contatual?!!


    E que o mesmo pode ser, facilmente revertido judicialmente (embora possa demorar tempo)?!!


    E porque ninguém escreve que com o nosso direito à greve podemos reverter qualquer tentação governamental de emprobrecimento dos OJ?!!


    E porque ninguém aqui diz que a alteração/modificação unilateral da carreira dos OJ só poderá ter efeitos para os futuros ingressantes?!!


    E porque ninguém fala do congelamento de 7 anos da Troika, que corersponde a mais de 2 escalões que nos são há muitos anos devidos?!!


    Há muitas coisas importantes nas vidas dos trabalhadores, que não só o seu volume remuneratório, mas sem vencimentos dignos, sem disponibildade financeira para fazer face às dificuldades do dia a dia, tudo não passa de treta!


    O que é nosso por direito não é negociável!


    Quando prestámos o compromisso de honra do desempenho das nossas funções obrigámo-nos ao desempenho perante as condições vigentes, que não podemos alterar unilateralmente!


    Do mesmo modo, não pode o governo, através do MJ, vir agora pretender modificar, sem nosso acordo, as nossas condições contratuais!


    É sobe isto, que está na ordem do dia, que se deve escrever!


    Penso eu ...





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  9. Anónimo4/3/26 11:14

    Subscrevo o comentário Colega. Entrei há menos de 10 anos nos Tribunais e sempre vi todos tratarem com grande respeito e admiração pelo meu Escrivão. Dentro de poucos o Escrivão irá reformar-se e com ele vai todo o conhecimento. Conhecimento esse que não foi passado na sua grande maioria. É triste mas é a realidade. O conhecimento vai-se perdendo e cada vez mais noto que o padrão começa a nivelar-se por baixa. Tudo muito automático, o procedimento praticamente igual em todas as matérias/questões e a especialização perdeu-se. 

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  10. Anónimo4/3/26 11:17

    Muito importante ponto!

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  11. Anónimo4/3/26 11:55

    Para os menos atentos!!!


    ANOTEM BEM ISTO: vem aí o SIADAP e os movimentos deixarão de ser periódicos com actualmente são. 


    Caso não saibam, num futuro próximo, as transferências serão feitas através de mobilidade à semelhança da restante função pública e a nota SIADAP relativamente a isso não servirá para nada!!

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  12. Anónimo4/3/26 12:39

    o colega, com o devido respeito, não justifica legal e constitucionalmente o meter no mesmo saco funcionários do MP e dos Tribunais.


    Veja-se quando foi criada a figura de secretário técnico em oposição `a de secretario judicial e porquê.


    Eu penso que cada vez mais, atenta a renovação das habilitações dos oficiais de justiça (muitos que entram com licenciatura em direito e outros oficiais de justiça que a vão conquistando com esforço e estudo) certo tipo de discurso deveria vir com justificações legais, porque a ética e a moralidade pouca margem têm na aplicação da norma, só em caso especificos. 
    Por outro lado, aqueles que não são licenciados em direito e  trabalham nos tribunais estão habituados à fundamenteção bem explanada nas decisões judiciais e,
    só seria positivo os colegas fundamentarem legalmente

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  13. Anónimo4/3/26 13:26

    Isto o sindicato ainda não informou!!!


    Essa é que é essa!!!


    Preparem-se!!!!


    Quem está fora e pretende regressar, cuide-se!!!

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  14. Anónimo4/3/26 13:37

    Vamos todos para o SIADAP...vejam o artigo de hoje no CM.

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  15. Anónimo4/3/26 13:52

    triste vida mesmo


    SFJ nada tens a dizer? quando enganaste os promovidos a adjuntos?

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  16. Anónimo4/3/26 14:24

    Vão-nos tentar comer de cebolada como fizeram aos colagas do IRN, mas nós não vamos deixar!




    SOJ e SOJ, tenham a coragem de dizer NÃO e de bater com a porta, se for caso disso!

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  17. Anónimo4/3/26 15:29

    Todos não!


    Talvez os que vierem a ingressar na carreira, mas mesmo isso não está, digo, ainda decidido!

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  18. Ribeiro da Silva4/3/26 16:00

    Quanto ao uso da AI nos Tribunais e a consequente diminuição dos recursos humanos dizer que em Economia existe um termo "Economia de escala" que é a redução do custo médio por unidade produzida à medida que o volume total de produção aumenta, e ocorre quando os custos fixos são diluídos por um maior número de produtos, permitindo maior eficiência, especialização e menor custo unitário, aumentando a competitividade no mercado (por ex.: quanto maior o número de processos tratados e menor o número de funcionário afetos, o custo de cada decisão em cada processo diminui para o Estado -mas já não para os utentes da justiça que continuam a pagar a valer).
    Ou seja, não obstante os atrasos na justiça, apesar da diminuição de pessoal por aposentação ou outro motivo, supostamente o custo da justiça deveria diminuir e a produtividade (individual) ver incrementos (porque se tem de trabalhar por 2 ou por 3) mas não é isso que acontece.
    Com efeito na justiça a ineficiência é gritante e a capacidade produtiva de cada um diminui - justificadamente pelo avançar da idade - também por causa da falta de "capacidade instalada". Este outro termo que em Economia significa que uma empresa, setor ou toda a economia atingiu o seu limite máximo de produção física e não consegue aumentar a oferta de bens ou serviços, mesmo que haja procura crescente por eles. 
    Hoje temos as secretarias depauperadas - sem qualquer capacidade instalada que permita o seu funcionamento em termos mínimos, agravando-se as paralisações e atrasos processuais - e infestadas do que apelido de "peste da velhice" no sentido que muitos serviços têm uma média de idades já superior aos 60 anos - logo a sua capacidade de trabalho diminui consideravelmente. 
    Por isso que não compreendo como é que ainda não divulgaram o levantamento das necessidades - dos quadros de pessoal - e nada existe, pelo menos que se conheça, quanto às rácios (entre magistrados e funcionários e/ou população servida).
    É triste ver gente tão ignorante tratar de assuntos tão importantes que nis afetam a todos enquanto funcionários e enquanto cidadãos utentes da justiça (precisamos de uma reforma da justiça que tarda em aparecer apenas porque debaixo dos chapéus ou do couro cabeludo - quem o tenha - daquelas cabeças, apenas habita uma pequenez de pensamento donde nada sai com importante significado apenas banalidades.
    Miséria de vida a que temos.

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  19. Anónimo4/3/26 16:04

    Quando a Presidente do SFJ já o assume...

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  20. Anónimo4/3/26 16:38

    Ela não assumiu que são os OJ em funções!


    Aliás, isso seria uma modificação unilateral do contrato de trabalho por parte do MJ, e penso, sinceramente, que sem acordo entre as partes (entre os contraentes) isso não é possível!


    Mas mesmo que seja, existem as greves, em todas as suas formas!...

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  21. Anónimo4/3/26 16:44

    A vida é o que nós fazemos dela!


    E se temos pouco, é porque no passado fizemos pouco!


    Que sirva de lição para o que aí vem e para a lutas que terão de ser feitas!

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  22. Anónimo4/3/26 18:07

    Sem dúvida o apelo a aceitar promoções fora de casa quando já sabiam que a carreira ia ser extinta, 


    é de canalhas, gostava de os ver fora da familia a eles


    SFJ

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  23. Anónimo4/3/26 18:12

    Sem dúvida, sempre quiseram ter algo sem lutar, agora gramem!

    ResponderEliminar
  24. Anónimo4/3/26 18:40

    Mas o SFJ apelou para a promoção a adjunto? Mas será que temos de ser "maiores acompanhados"? E quantos foram promovidos porque a sua situação pessoal o permitiu irem para outros sítios? E quantos por motivos pessoais e familiares não puderam concorrer para a promoção? São todos uns coitados?! A extinção das categorias de auxiliares e adjuntos sempre foi, e bem, perspetivada. Há muitos anos! Mas agora existem uns quantos que se sentem despromovidos. Quando houver uma prova para escrivão terão a oportunidade de se aproximar porque, de certeza, face aos conhecimentos adquiridos, vão ter notas que o permitam. Parem de uma vez por todas com essa choraminga!

    ResponderEliminar
  25. Anónimo4/3/26 19:10

    SIADAP = 2 MILHÕES PARA A FORMAÇÃO

    ResponderEliminar
  26. Anónimo4/3/26 20:28

    Foi necessário dar-se início, neste blogue, "A voz dos Oficiais de Justiça", para a sra. presidente do SFJ, vir anunciar (sorrateiramente) o que muitos já estavam à espera SIADAP.
    Porquê, hoje:
    "Uma pessoa que requer toda a atenção, muitas vezes agindo de forma dramática, sedutora ou exibicionista para se tornar o centro das atenções, pode apresentar características do 

    ResponderEliminar
  27. Anónimo4/3/26 21:47

     já vem do tempo do fernando jorge. Ficam todos vaidosos

    ResponderEliminar

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