Mais um grupo de trabalho sem Oficiais de Justiça para conceber novo projeto que até já teve a primeira pedra lançada há 17 anos
O Governo formou um grupo de trabalho para que elabore um Plano Estratégico, até ao próximo dia 31 de maio, com vista à criação de um Campus da Justiça do Porto.
Segundo o
despacho assinado pela secretária de Estado da Justiça, Ana Luísa da Silva
Gonçalves Machado, o plano deve conter as “linhas orientadoras” para a criação
do Campus de Justiça do Porto, que deverá agregar “organismos, serviços e
tribunais atualmente dispersos em instalações” pelo concelho.
O Governo refere
que o edificado no concelho do Porto afeto ao Ministério da Justiça, que inclui
tribunais, organismos e serviços diretos daquele ministério, “encontra-se
disperso em vários imóveis, totalizando mais de 70.000 m² [metros quadrados] de
área bruta”, sendo que tem um custo para o Estado com o pagamento de rendas
superior a 2,5 milhões de euros.
Além disso, refere
o despacho, “a qualidade e vetustez de alguns dos edifícios e instalações
afetos ao Ministério da Justiça no concelho do Porto determinam a necessidade
de, a curto e médio prazo, proceder à realocação de tribunais, organismos e
serviços em novos imóveis ou ao investimento avultado em requalificações e, ou,
a reabilitações gerais dos mesmos”.
O Governo
determinou assim a “constituição de um Grupo de Trabalho com o objetivo de
definir, elaborar e apresentar um Plano Estratégico de agregação dos serviços,
organismos e tribunais, bem como a inclusão da futura Casa Barnahus [casa para
proteção de crianças], num futuro Campus da Justiça do Porto”.
O Plano “deve
ser apresentado pelo presente Grupo de Trabalho, sob a forma de relatório, até
ao dia 31 de maio de 2026”, no qual deve constar “a construção de cenários ou
modelos de organização e agregação, com as respetivas vantagens, desvantagens,
consequências, condições de execução, e cronograma previsto para a respetiva
execução, tendo presente o impacto financeiro que cada uma das soluções
apresentadas terá no orçamento da Justiça”.
Quanto ao grupo
de trabalho, o despacho refere que contará com representantes do Ministério da
Justiça, do conselho diretivo do IGFEJ, que exercerá a função de entidade
coordenadora, da Direção-Geral da Administração da Justiça (DGAJ), do Instituto
de Registos e Notariado (IRN), da Direção-Geral de Reinserção e Serviços
Prisionais (DGRSP) e da Polícia Judiciária (PJ).
O grupo
integrará também representantes do Conselho Superior da Magistratura (CSM), do
Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais (CSTAF) e do
Ministério Público (MP) – nomeadamente, da Procuradoria-Geral da República
(PGR).
Mais uma vez
vemos como não está presente nenhum representante dos Oficiais de Justiça, pela
ignorância, desprezo e total dependência da DGAJ, daquele órgão que deveria representar
os Oficiais de Justiça nestes casos e que é o seu Conselho dos Oficiais de
Justiça (COJ), tão dependente e tão limitado à sua ação inspetiva.
Os sindicatos
não têm de ser convidados a integrar estes grupos, mas, em face da ausência e
invisibilidade do COJ, os sindicatos já há muito que deveriam ter promovido a
existência uma entidade supra-sindical, ainda que com a participação de ambos sindicatos,
para que tal entidade pudesse representar os Oficiais de Justiça nestes casos
de inexistência do seu Conselho que teima, ou melhor: nada teima, em servir
para algo mais do que aquilo a que a DGAJ o mantém aprisionado.
Quanto ao Campus
da Justiça do Porto, isto é uma ideia velha. Já em dezembro de 2019, o
executivo liderado pelo independente Rui Moreira revelou que o Estado tinha a
intenção de retomar o projeto do Campus da Justiça na Quinta de Santo António,
cuja primeira pedra, note-se bem, chegou a ser lançada em agosto de 2009. Sim,
até houve cerimónia da primeira pedra.
Esse lançamento
ocorreu um mês antes das eleições legislativas desse ano. Governava o PS. Segundo
o que na altura foi anunciado – uma espécie de anúncio feito pelo Governo do PS
em campanha eleitoral, repetindo, aliás, uma operação semelhante já ensaiada a
propósito da mesma obra pelo Ministro da Justiça do Governo do PSD/CDS chefiado
por Santana Lopes –, o Campus da Justiça era uma vasta empreitada cujo início
de construção deveria ocorrer no início do ano de 2010, que deveria estar
concluída em 2013 e que envolvia um investimento que ultrapassava os cento e
dez milhões de euros.
Segundo notícias
veiculadas pela Comunicação Social, as obras do Campus da Justiça não foram
sequer iniciadas porque, ao que foi divulgado, o consórcio, a quem, pelos
vistos, foi cedido o terreno do Estado e com quem foi estabelecido um contrato
para a construção das instalações com a contrapartida do Estado pagar uma renda
mensal rondando os 630 000 € (seiscentos e trinta mil euros!), pretendeu
modificar o valor desta “renda” por considerar ser um valor exíguo e não
compensador.
O projeto para a
Quinta de Santo António veio a cair. Inseria-se num plano mais alargado para a
zona da Lapa e sua envolvente, prevendo a construção de uma residência de
estudantes com 15 mil metros quadrados, uma área de equipamento de 30 mil
metros quadrados e uma outra de habitação, comércio e serviços de 21.500 metros
quadrados.
Com uma área de
intervenção de mais 56 mil metros quadrados, 78% propriedade do Estado e 22% de
privados, este projeto contemplava ainda uma zona verde, entretanto
concretizada e inaugurada em dezembro de 2024, com o nome de Parque Urbano
Mário Soares.
Quanto ao Campus
da Justiça nicles, indo agora (re)começar tudo de novo com o tal relatório a
ser apresentado, se o for, até ao final de maio próximo.
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