Mensagem da Presidente do SFJ aos Velhos do Restelo que têm endereço de IP
Nesta última quarta-feira, na edição do Correio da Manhã desse dia 18MAR, os Oficiais de Justiça leram, espantados, o artigo de opinião subscrito por aquela que ocupa o lugar de presidente do sindicato mais antigo dos Oficiais de Justiça.
Regina Soares,
num abstrato artigo dirigido a Velhos do Restelo do século XXI que comentam de
forma anónima, desconsiderando tais posturas, acaba advertindo-os que podem
acabar com processos-crime por terem tal postura expressa com tamanho
desagrado.
A presidente do
SFJ diz mesmo que há quem “humilhe” “com pontualidade britânica”, isto é, quem
se dedique àquilo que considera “comentários ferozes” de forma pontual, ou
pontualíssima, não especificando se tal pontualidade é por ser diária ou
horária.
A ameaça velada
dos processos-crime, para averiguação dos endereços de IP (Protocolo de
Internet), contrasta com a postura do anterior presidente do mesmo sindicato,
pois este não se limitava à ambiguidade das intimidações indiretas, agindo
diretamente.
Nunca nos
esqueceremos da queixa apresentada a um diretor-geral sobre o conteúdo desta
página, com entrega de folhas onde constavam impressos artigos, ao mesmo tempo
que dizia que “temos de acabar com isto”, tal como muito nos custa esquecer a
leitura em voz alta efetuada numa reunião magna daquela estrutura sindical,
onde constavam nomes de uma lista negra de indivíduos processáveis, lista que
detinha na sua posse e que ali foi lida aos quatro-ventos, com o propósito de
espalhar a mensagem.
São, certamente,
atitudes diferentes, mas são iguais. Tal como Regina afirma no seu artigo do
Correio da Manhã: “O ritual repete-se”.
Aquilo com que a
presidente do sindicato mais antigo dos Oficiais de Justiça deveria preocupar-se
é com o conteúdo e com a existência de tais comentários e não com a
superficialidade de serem produzidos pelo Manel ou pela Maria, porque não interessa
saber quem são, interessa saber o que dizem.
Mesmo os
comentários vazios de crítica ou, como se diz no artigo, “pobres de ideias” que
“distribuem insultos”, não devem ser desprezados nem perseguidos. Porquê?
Porque demonstram, para além da pobreza de espírito de quem os produz, o seu
estado de espírito perante alguém ou algo que o desagrada.
Mesmo um insulto
gratuito é algo que demonstra o estado de espírito de alguém perante qualquer
situação que não lhe agrada.
Evidentemente
que não é esse o caminho, nem é isso que se espera de pessoas que são Oficiais
de Justiça, mas não vai ser por isso que devamos rejeitar ou ignorar tais
reações que correspondem a vidas concretas com desesperos e com injustiças que
não se resolvem.
Enquanto houver
dirigentes sindicais que perdem o seu tempo e o seu discernimento na feitura de
listas negras ou de ameaças veladas em órgãos de comunicação social de alcance
nacional, o resultado será sempre um serviço prestado que não presta e origina
sucessivas e novas desilusões e desesperos que serão vertidos em todo o lado.
Neste espaço que
diariamente, com “pontualidade britânica”, leva ao conhecimento dos Oficiais de
Justiça informação sobre o seu mundo laboral, permite-se e até se incentiva o
comentário anónimo.
Como sempre
afirmamos ao longo de toda esta enorme década de publicações diárias, não nos
interessa a personalidade de A ou de B, interessa-nos apenas a ideia de cada
um. Não nos interessa para nada o nome, mas interessa-nos para tudo o conteúdo
da ideia a transmitir, preocupando-nos ainda o estado de espírito de cada um,
desde logo pela particularidade das suas vivências e das suas particulares
injustiças que cumpre conhecer, tenha ou não tenha nome.
Não há nenhum
problema com o anonimato, mas há problemas com o conteúdo. Todos os dias somos
obrigados a ler todos os comentários e todos os dias somos obrigados a rejeitar
aqueles que contêm injúria e difamação ou uma linguagem excessivamente baixa.
É verdade que os
nossos leitores podem ler comentários que contêm algumas expressões menos
apropriadas, mas, lá está, fazem parte da realidade dessas pessoas que nem
sempre conseguem exprimir-se de forma mais adequada e não vai ser por isso que devam
ser suprimidos.
Por outro lado,
o registo dos IP dos comentadores não é algo que possa vir a servir para os
prejudicar seja lá da maneira que for, não estamos neste mundo para prejudicar
ninguém. O registo dos IP dos comentários é uma opção de controle interno que
serve também para tentar evitar muitas mensagens de “spam” que diariamente
tentam entrar, mas que ninguém vê, porque as limpamos previamente, para evitar
burlas e manter o espaço mais limpo com foco naquilo que interessa.
De todos modos,
sempre constatamos que os endereços de IP são diariamente provenientes de
muitos pontos diferentes do Globo e conforme os países que estejam mais na
“moda”, isto é, mais nas notícias. Por exemplo, na atualidade, os visitantes da
página apresentam-se com origens em muitos dos países da área do mais recente conflito
patrocinado pelos EUA de Trump.
Quer isto dizer
que, todos os dias, muitos dos nossos leitores usam sistemas de VPN para
diversificar e não identificar a sua real origem. Todos os dias a lista de países
é muito interessante, mas a lista das localidades em Portugal também é curiosa.
E por tal
curiosidade nos ficamos, sem perseguir ninguém e sem ameaçar ninguém,
preferindo conviver com as diferenças e com as manifestações de sofrimento das
pessoas, tentando compreendê-las, ainda que mal se exprimam, e tentando ajudar
no que for possível para que possam melhorar a sua vida, deixando de ter essa
necessidade de se exprimirem de forma mais desadequada.
Claro que dá
trabalho. Educar e ajudar dá sempre mais trabalho do que cortar, restringir,
ameaçar ou proibir.
A seguir vai
reproduzido o mencionado artigo do Correio da Manhã que se intitula: “O Crime
do IP”, subscrito por Regina Soares, presidente do Sindicato dos Funcionários
Judiciais (SFJ).
Diz assim:
«Estamos
rodeados de Velhos do Restelo do século XXI. Ficaram em terra quando outros
partiram e gritam do cais para quem navega. Atacam quem age e quem faz mais e,
em espaços pobres de ideias, encontram no anonimato o abrigo perfeito para
lançar suspeitas, promover pequenas sabotagens e distribuir insultos.
O ritual
repete-se: comentários ferozes, identidades escondidas, responsabilidade
nenhuma. Talvez não saibam, ou talvez prefiram não saber, mas isto tem nome: mobbing digital.
Humilhar sem
rosto, atacar sem risco e provocar impacto imediato. Sintomaticamente, com
pontualidade britânica.
Curiosamente, a
lei portuguesa não partilha essa sensação de impunidade. A difamação online continua a ser crime e o alcance da
Internet não diminui a responsabilidade de quem escreve e publica. Muitas
vezes, agrava-a.
O anonimato dura
apenas até ao momento em que um tribunal decide identificar um endereço IP.
Convém lembrar uma regra simples do nosso tempo: no digital, todas as palavras
deixam impressão. E, mais cedo ou mais tarde, a impressão digital acaba sempre
por revelar quem decidiu deixá-la.»
Fonte: “CM/SFJ”.
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