A encenação das inspeções
No artigo desta última quarta-feira no Correio da Manhã, a presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ) discorre sobre a questão da avaliação dos Oficiais de Justiça.
Regina Soares considera
que os seis inspetores atualmente em serviço não são suficientes para avaliar os
milhares de Oficiais de Justiça o que, claro está, frustra as expectativas de
todos aqueles que necessitam de uma boa avaliação para se movimentarem.
Hoje em dia as
avaliações apenas servem para as movimentações por transferência, o que
significa que a maioria dos Oficiais de Justiça não tem interesse nenhum nas
classificações, logo, nas inspeções.
A maioria dos
Oficiais de Justiça não querem sequer saber se o resultado da inspeção é positivo
ou negativo; simplesmente não querem saber. Claro que é sempre agradável
receber uma boa avaliação, mas se não for tão boa é-lhes indiferente.
Pelo contrário,
aqueles que estão há menos tempo na carreira e ainda se encontram deslocados
das áreas das suas residências, esses, sim, anseiam por avaliações que sejam
boas para poderem ser transferidos para locais mais próximos das suas
residências, mas estes, no universo dos cerca de 7300 Oficiais de Justiça, são
uma minoria.
Até à transição
de carreira, a maioria dos Oficiais de Justiça, colocados na categoria de
ingresso, ainda tinham interesse nas avaliações e para isso trabalhavam, porque
esperavam conseguir, não só uma transferência, mas uma promoção para aquela
categoria intermédia que foi extinta. Hoje, esse interesse deixou de existir.
Para além do
desinteresse tão generalizado, há outros aspetos nas inspeções que levam os
Oficiais de Justiça a desiludirem-se com as mesmas, mesmo aqueles que ainda
precisam de avaliações e especialmente estes, porque a velha persistência de
classificar todos de forma tabelar, com modelos e formulários que, por muito
bons que sejam, resultam sempre no mesmo: à primeira é sempre “Bom”. Ora, isto
é, obviamente, desmotivador e tal desmotivação soma-se à desmotivação
generalizada. Acumula.
O problema não é
só a falta de Oficiais de Justiça também no serviço das inspeções, como aponta
Regina, o problema é a forma como este serviço de inspeções contribui para a
desmotivação, especialmente daqueles que representam o futuro da carreira.
O nivelar por
baixo, como diz Regina no artigo do Correio da Manhã, não advém da falta de
inspetores, mas do desempenho destes e do respaldo que obtêm.
O que se avalia
é o desempenho de alguém em determinado período concreto, balizado por datas, e
nesse concreto período se alguém teve um desempenho digno de uma classificação
de mérito, então é essa a classificação que deve ter, ainda que numa próxima
inspeção a um segundo período possa ter uma avaliação inferior.
A velha conceção
generalista de que as classificações são sempre a subir e à primeira é sempre
de “Bom”, apesar de isto mesmo até estar consignado no Regulamento próprio, não
deixa de ser um disparate e uma ofensa aos Oficiais de Justiça.
Se em vez de
seis inspetores houvesse uma dúzia, o problema manter-se-ia.
O dito
nivelamento por baixo de que Regina nos fala no seu artigo não advém da
quantidade de inspetores ao serviço, mas da má qualidade na aplicação da
justiça avaliativa; uma justiça que não é justa e que, como tal, se
descredibiliza e contribui para a desmotivação geral.
O título do
artigo no Correio da Manhã é o seguinte: “Avaliar é coisa séria” e começa logo
assim o artigo: «Avaliar só é justo quando assenta em conhecimento real do
trabalho. O resto é encenação.» E é mesmo encenação o que os Oficiais de
Justiça vão percecionando das inspeções, quer elas sejam feitas por seis, por
doze ou por trinta inspetores.
A falta de
Oficiais de Justiça afeta todas as funções, pelo que é natural que também afete
os serviços de inspeção, já o que não é natural é que as inspeções se realizem
de forma tão automática e tabelar.
Os Oficiais de
Justiça podem, e devem, discordar das avaliações tabelares, não só aquando da
notificação da proposta do inspetor, mas também depois da decisão do Conselho
quando, por tabela, mantém a proposta tabelar. Podem pronunciar-se e podem
recorrer para um conselho superior e ainda para um tribunal superior, embora
neste último recurso já tenham de despender dinheiro.
E é sobre isto,
sobre esta grave acumulação de desmotivação que a presidente do SFJ se deveria
preocupar, pois é esta atitude, e não a falta de inspetores, que afeta os
Oficiais de Justiça na sua carreira e na sua já desgastada motivação.
Pode ler o
artigo do Correio da Manhã aqui mencionado, acedendo à sua reprodução na página
do Facebook do SFJ através da seguinte hiperligação: “Artigo CM de 01ABR2025”.
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