“O abuso de poder não precisa de ditadores nem de tanques na rua”
«Já lhe aconteceu? Chegar a uma repartição pública com todos os documentos, tudo em ordem, e ouvir que falta qualquer coisa. Algo que ninguém sabe explicar. Algo que não está em nenhuma lei. Mas que impede. Que atrasa. Que humilha. O segurança que barra a entrada sem justificação. O funcionário que exige papéis que a lei não prevê. O juiz que manda processar quem cumpre a lei. Pequenos poderes. Todos os dias.
A Constituição
da República Portuguesa fez 50 anos no dia 2 de abril. Nasceu depois de 48 anos
de ditadura. Foi escrita para uma coisa simples: limitar o poder.
Meio século
depois, o texto continua lá. A prática afastou-se dele.
O poder em
Portugal já não se exerce apenas nos gabinetes ou nos tribunais superiores.
Exerce-se no balcão que encerra antes da hora. Na secretaria que recusa um
requerimento por capricho. No burocrata que transforma um ato simples num
calvário de semanas.
Quantos de nós
já desistiram de um direito porque o cansaço foi maior do que a vontade? Quantos
já engoliram uma arbitrariedade num balcão porque não tinham forças para
reclamar?
Uma sala de
tribunal. Uma testemunha chamada a depor. Essa testemunha era eu.
Quando era
Presidente do Conselho Regional de Lisboa da Ordem dos Advogados, fui
notificado para prestar declarações num processo judicial. Recusei. Não por
vontade. Por dever. O sigilo profissional não é um privilégio do advogado. É
uma obrigação legal que protege o cidadão. Está no Estatuto da Ordem. Está no
Código de Processo Penal. Está na Constituição.
Recusei depor
porque a lei me obrigava a recusar.
A resposta do
sistema foi extrair uma certidão pelo crime de desobediência qualificada. Fui
constituído arguido. O Presidente do Conselho Regional de Lisboa. Por cumprir
aquilo que a lei mandava cumprir.
Não conto isto
por queixa. Conto porque é um retrato. O retrato de um sistema que confunde
autoridade com razão. Que pune quem resiste. Mesmo quando a lei obriga a dizer
não.
É a mesma lógica
do funcionário que nega um pedido porque pode. A diferença é que, no meu caso,
quem exerceu o pequeno poder vestia beca. E o sistema achou normal.
Se isto
aconteceu ao Presidente do Conselho Regional de Lisboa, imagine o que acontece
a quem não tem voz. Ao imigrante que dorme na rua à porta da AIMA para
conseguir uma senha. Ao pensionista que percorre três balcões para resolver o
que uma chamada resolveria.
E, no entanto,
celebrámos.
Cinquenta anos,
o mesmo combate. Sessão solene na Assembleia da República. Discursos. Aplausos.
Os deputados constituintes regressaram às galerias. A Constituição de 1976
consagrou direitos que não existiam. Criou instituições que nos protegem.
Deu-nos democracia.
O Provedor de
Justiça existe para isso. Para proteger os cidadãos dos abusos do Estado. O
cargo está vago há quase um ano. O Estado deixou de se fiscalizar a si próprio.
Mas uma
Constituição não vive de cerimónias. Vive da forma como é aplicada. Todos os dias.
Em todos os balcões. Em todos os tribunais.
Falhamos quando
um cidadão luta meses para exercer um direito que a lei lhe reconhece. Falhamos
quando uma família espera o ano inteiro por uma vaga na escola pública que a
Constituição lhe garante. Falhamos quando o poder se distribui por mil mãos
pequenas que ninguém controla e ninguém responsabiliza.
O abuso de poder
não precisa de ditadores nem de tanques na rua. Basta um carimbo negado. Uma
porta fechada sem razão. Uma certidão criminal contra quem cumpriu a lei.
Na Assembleia da
República, o exemplar original da Constituição está guardado num cofre.
Fechado. Protegido. Intocável.
Talvez seja esse
o problema. Fechámo-la num cofre. E esquecemo-nos de a usar.
Da próxima vez
que lhe disserem que falta um documento que não existe, que não é ali, que
volte amanhã, lembre-se. Há 50 anos, alguém escreveu num papel que isto não
podia acontecer.»
Fonte: reprodução do artigo de opinião subscrito por João Massano, bastonário da Ordem dos Advogados, publicado no Expresso e intitulado: “O poder cabe num carimbo”.
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