A Voz dos Oficiais de Justiça: “Não consigo explicar por palavras o meu estado de desalento”
Às quartas-feiras – salvo se a atualidade impuser outras divulgações – é dia da habitual rubrica: “A Voz dos Oficiais de Justiça”, contendo artigos escritos pelos nossos leitores e que nos são enviados – para o nosso endereço de e-mail geral: OJ.PT@YAHOO.COM – para aqui publicar neste dia da semana. Todos são bem-vindos, todos têm espaço para a sua voz, mesmo aqueles que não se queiram identificar (Saiba+Aqui).
Hoje, vamos reproduzir o artigo enviado por uma Oficial de Justiça que, apesar de identificada, declarou preferir que a sua identificação não fosse divulgada, porque, como nos disse, considera que “A liberdade de expressão é uma teoria”.
Para que se perceba
o seu estado de espírito com toda a situação profissional, vamos a seguir reproduzir
um pequeno trecho da sua comunicação:
«Não consigo
explicar por palavras o meu estado de desalento, desistência, desânimo. E
raiva. Muita raiva. E não só por quem manda. Aliás, sobretudo com o conjunto
dos colegas. O lixo humano, a falta de carácter, de quem se senta ao meu lado… literalmente
preciso de fugir disto. Mas não me deixam! Não dão a reforma antecipada, não
dão a pré-reforma…
O prejuízo é meu
e mesmo assim não deixam! Porquê? Não consigo nem quero conviver com estas
pessoas! Desculpe mais um desabafo. Estou no fim da linha!»
Apesar deste estado de espírito, não deixa a Oficial de Justiça de ser extremamente atenta à atualidade e, a propósito, da visita da ministra da Justiça ao Porto, mais concretamente, ao Tribunal de São João Novo (Juízo Central Criminal), conforme notícia aqui publicada no passado dia 05MAI, com o título: “Não houve receção com camisolas pretas”, aprecia criticamente tal visita nos seguintes termos:
«Segue uma
pequena observação, ainda assim maior do que o respeito e o impacto do trabalho
que Sra. ministra me merece.
A visita da Sra. ministra ao Porto é mais
uma ação de charme que já ninguém engole porque baralha e torna a (não) dar.
Uma pretensa aproximação
ao nosso dia-a-dia. É, no mínimo, ofensiva e, no máximo, um insulto.
Só reparei num
pequeno grande pormenor: a Sra. aparece praticamente sem maquilhagem, de calças
e “t-shirt”. Para a cena patética ser levada ao máximo só faltou deixar-se
sentar numa secretária a balançar as pernas.
O ridículo é tão
grande que dá vómitos. Não, não pretendia que aparecesse de fato de saia,
casaco e que desfilasse. A intenção da Sra. foi descer à nossa desgraça diária
para, supostamente, se aproximar da realidade, se aproximar dos pobres coitados
dos funcionários, dos otários que trabalham por três e dão mais umas horitas
grátis ao serviço todos os dias. Uma pretensa e pretensiosa solidariedade que
não existe.
Se a Sra.
trabalhasse para o bem da justiça não se preocuparia com o “mise-en-scène” e
punha todo aquele séquito de bajuladores inúteis e corrosivos, a trabalhar a
sério. Até reduziria a metade o número de oficiais de justiça que gravitam à
volta dos juízes presidentes e, ou, administradores, que estão lá para recolher
estatística a fim de perseguir funcionários, corrijo: alguns funcionários, os
que não são amigos nem bajuladores, os que não podem mexer os cordelinhos para
fazerem o que quiserem: “porque eu sou muito amiga do Sr. Administrador e ele
sabe de tudo o que se passa aqui”; claro que o “tudo” é só o conveniente, não o
que é justo e necessário que saiba.
E todos saíram
dali a rir-se de nós porque, por pior que estejam, ainda vão ficar pior.
Infelizmente os
nossos colegas são, em 90% dos casos, idiotas, otários e subservientes.
Quanto ao papel
dos sindicatos no enterro em caixão de chumbo e a vinte palmos abaixo de
terra da nossa carreira, nem me proponho
dizer mais nada porque é simplesmente nojento.
A minha revolta
e a minha doença são cada vez maiores.»

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