“Há uma diferença profunda entre funcionar e respirar com normalidade”

      «A Justiça continua a funcionar. Mas quem a vive por dentro sabe que há uma diferença profunda entre funcionar e respirar com normalidade.

      Nos tribunais não entram apenas processos. Entram vidas. Famílias em conflito, trabalhadores em espera, vítimas à procura de resposta, cidadãos que chegam muitas vezes cansados, inquietos, sem saber bem o que os espera.

      A Justiça começa também aí, nesse primeiro contacto, nessa secretaria, nesse balcão, nessa palavra que pode esclarecer ou aumentar a angústia.

      Os oficiais de justiça estão nesse lugar discreto e essencial.

      Tramitam processos, preparam diligências, acompanham magistrados, asseguram notificações, organizam o quotidiano invisível sem o qual nenhuma decisão chegaria a tempo de fazer sentido.

      Quando faltam pessoas, não faltam apenas mãos. Faltam tempo, escuta, serenidade.

      Atrasam-se atos, acumulam-se tarefas, cresce o peso sobre quem fica e também sobre quem espera.

      Não se trata apenas de números, carreiras ou mapas de pessoal. Trata-se da qualidade humana da resposta do Estado.

      Porque cada atraso tem um rosto. E cada rosto merece uma Justiça que não sobreviva apenas: que consiga estar presente.»

      Acabamos de transcrever o artigo subscrito por António Albuquerque, Oficial de Justiça e membro do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ), publicado na edição deste último sábado 16MAI2026 no Correio da Manhã.

      Albuquerque intitulou o artigo como: “Justiça em esforço silencioso”, no entanto, permitam-nos que discordemos do título e apenas do título e apenas no que diz respeito à expressão “silencioso”.

      O esforço que se verifica nos tribunais e nos serviços do Ministério Público de todo o país já não é tão silencioso assim, como chegou a ser. Atualmente é cada vez mais audível e barulhento. Não que o barulho seja feito pelo coletivo, organizado ou não, mas por cada um. Assistimos hoje a um barulho individual de cada Oficial de Justiça, desorganizado e desapoiado, mas muito zangado.

      Hoje, os Oficiais de Justiça, em cada secção, mostram-se extremamente zangados com tudo e com todos e disparam em todas as direções: seja com as demais profissões da justiça, seja com os cargos de direção e chefia, seja com as entidades do Governo e seja mesmo com os seus pares.

      Ninguém escapa nesta zanga generalizada com tudo e com todos. O barulho é ensurdecedor e nada silencioso, embora se mantenha dentro de portas e não extravase para outras entidades que deveriam estar bem atentas a tal ruído.

      Chegou-se ao ponto de se considerar que todos estão errados, que todos atuam com segundas intenções, que são bufos, graxistas, corruptos até; expressão esta posta em voga nos últimos tempos e tão fruto de tanta frustração e desinteligência.

      E é nesta confusão e fragor que, embora mal, lá vai andando a justiça; lá se vão segurando as pontas.

      Como bem refere Albuquerque há uma diferença entre sobreviver e ir andando e o respirar com normalidade, mas esta realidade mostra-se hoje acompanhada de uma vivência de especial barulho e tumulto, realidade presente que devia estar a ser bem ouvida.


      Fonte: “Correio da Manhã” e “SFJ transcreve CM”.

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